Quanto tempo o tempo tem?

Recentemente, uma amiga me indicou um documentário, disponível na Netflix, de mesmo nome do título da resenha de hoje. Estávamos conversando sobre espiritualidade, energia e meditação quando ela me falou dele. Anotei o título na minha listinha para quando eu tivesse uma oportunidade de assistir, em meu tempo livre, e segui a vida. Mais tarde, estreei a categoria e tive vontade de compartilhar o primeiro texto com amigos próximos. Foi o que eu fiz. Aí, uma outra amiga me indicou esse mesmo filme me pedindo uma resenha dele. Pensei: não pode ser coincidência, não é mesmo? Preciso assistir. Foi o que eu fiz.

Quanto tempo o tempo tem é um documentário de Adriana L. Dutra e foi lançado em 2011 (contudo, continua bem atual). Como você deve saber (caso tenha lido minha última resenha), não me prenderei a detalhes técnicos. Apenas, elogiarei a belíssima locução da Adriana e a forma como ela costurou os assuntos dentro daquele tempo de uma hora e quinze minutos. Há uma arte coerente e bela de imagens urbanas, em ritmo acelerado, que marca a condução das abordagens, juntamente à voz da Adriana e a uma sonoplastia que torna tudo confortável. No filme, ela revela que passou um ano viajando e gravando entrevistas com diversos especialistas de diversos países. É divertido ver a quantidade de línguas a medida que as falas vão sendo costuradas: gente que fala italiano, inglês, francês, português. Gente que estudou Física, Neurociência, Psicologia, Budismo, Jornalismo, dentre outras especialidades. Gente pra falar do tempo e das mudanças que têm interferido nele.

Eu comecei a assistir e, logo, lembrei do meu script. Você deve estar se perguntando: que script, querida? Está trabalhando em algum espetáculo ou programa de TV? Ainda não! (kkkkkk) Script é como minha antiga terapeuta chamava o meu manual diário de afazeres e produções. Desde adolescente até meses atrás, eu tinha essa prática e, após assistir Quanto tempo o tempo tem, tenho me questionado se não era uma maneira de querer controlar o tempo. Eu separava, nos mínimos detalhes, tempo para tudo: estudar, trabalhar, fazer exercícios físicos, descansar e tantas outras ideias de trabalhar e dar continuidade aos meus projetos pessoais. Era uma maneira de eu dizer para mim: se todos os dias você pegar um pouquinho em cada coisa que você deseja, você vai se sentir bem. Todas as vezes que cumpri o script, impecavelmente, de fato, eu sentia bem estar, contudo, essas vezes eram raras de acontecer. Eu não contava com o tempo do meu corpo, meu ritmo, meu cansaço, os imprevistos que estariam por vir. Era contraditório separar tempo para fazer tudo o que eu queria e gostava e, ao mesmo tempo, me sentir presa àquilo, entende? (Se não entender, tudo bem, porque a facilidade maior de assistir a esse documentário é a de aloprar! kkkkk Eu aloprei, lindamente, mas algumas passagens me tocaram. Vou continuar tentando passá-las).

Então, por que será que eu insisti tanto naquele modelo falido de script? Por ter sido muito organizada, perfeccionista, controladora? Talvez. Mas, há um dado novo nessa historinha que só passei a conhecer depois de Quanto tempo o tempo tem: a nova forma de a sociedade lidar com o tempo após o surgimento e o avanço das novas tecnologias. Há um especialista que diz algo muito interessante sobre isso, no filme. Ele menciona que é como se nós não pudéssemos desfrutar do tempo de outra forma que não fosse para produzir. Por isso, a sensação de “perder tempo” é constante. Essa discussão se entrelaçou com a de que, mesmo nas nossas horas vagas, estamos produzindo para os grandes empresários (quando geramos conteúdo para o Facebook, por exemplo). Tudo isso, de alguma forma, é proveniente do que chamamos de tempo de trabalho. Isso é dito lá, também. Na época da escravidão, os senhores detinham o poder sobre todo o tempo de seu escravo e o utilizavam como bem lhe conviesse. Até os tempos atuais, o que se vende para os chefes é o tempo de trabalho, de forma que o tempo é tratado como algo, extremamente, valioso.

O início do documentário é fascinante porque tem o poder de bugar a pessoa, completamente kkkkk. Eles dizem que o momento presente é tudo o que há. Eu escrevo esta frase, por exemplo, agora mas, no momento em que eu a finalizar, ela fará parte do passado. Pronto. Então, apesar de revivermos emoções do passado através das lembranças ou projetarmos o futuro, tudo o que somos mora no presente e isso se repete a cada segundo. Louco, não? Mas faz sentido.

Antes do advento da internet, o espaço era considerado e a forma de vida era diferente. Havia tempo para a chegada das informações e mensagens, tempo para trabalhar e descansar, tempo para se formar, produzir e se aposentar. As novas tecnologias bagunçaram esse sistema a começar pela comunicação que elimina, completamente, toda e qualquer distância.

Há papo para muitas outras abordagens de Quanto tempo o tempo tem, eu vou te dizer só mais um termo de discussão lá contido para que você sinta vontade de viajar, também: transhumanismo. Pois, há estudos que analisam a possibilidade de não sermos mais finitos.

Eu finalizo minhas palavras concordando com uma passagem interessantíssima do filme. Ela diz que quando fechamos os olhos e experimentamos, apenas respirar, é como viver minutos na eternidade. Nosso corpo tem um tempo, e nossa mente e nossa forma de produzir e viver. Não esqueçamos de que nós somos detentores do poder de regular o nosso tempo.

Autor: Maria Clara

Cantora e compositora. Canto desde que me entendo de gente. Acredito que toda verdade interior descoberta precisa ser compartilhada. Um viva às relações humanas!

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