Eu preciso abrir mão de você

Eu preciso abrir mão de você. Eu preciso abrir mão do que eu sinto por você. Eu preciso abrir mão de te ver. Eu preciso abrir mão de sorrir e olhar pra você, de beijar e abraçar você. Eu preciso dar um jeito nessa bagunça que ficou meu coração após mais uma repetição inesperada…

Se eu quiser criar coragem para me permitir e me disponibilizar a um amor verdadeiro, preciso abrir mão de amar com dor, com sacrifício, com sofrimento. Se eu quiser amar de verdade, preciso parar de querer quem, por alguma razão, não pode estar comigo, mesmo que haja sentimento, carinho, amabilidade, gentileza, bem-querer.

Eu preciso abrir mão de você porque conheço meus vícios, minha capacidade de criar expectativas, minha impulsividade. Nada disso é por você. É por mim. Eu preciso abrir mão de querer o impossível. Preciso me recolher e tratar de mais um luto, mais uma ferida, mais uma frustração. Espero, assim, ficar só mais um pouquinho mais forte pra poder enfrentar as minhas escolhas e superar o que não me fez bem. Não vou te evitar pra sempre, mas preciso te esquecer. Eu preciso abrir mão de você pra reconhecer o que a vida está me oferecendo, hoje.

Se preciso de alguém para me salvar, esse alguém só pode ser eu

Eu espero que você chegue. Mas, se não chegar, espero continuar bem. Espero não me importar com as fôrmas moldadas pela sociedade. Espero continuar sendo tudo o que preciso: explorando meu mundo, descobrindo e redescobrindo mais de mim nas atividades que gosto, nos projetos, nos sonhos… Espero continuar me bastando por que a verdade é que nada falta. 

Por vezes, o medo me atormentou e eu cheguei a pensar que tinha como maior sonho me unir a alguém e formar uma família. Quando isso acontecesse, tudo de ruim ficaria para trás, eu seria uma nova pessoa e poderia, então, viver. Depois, pensei: como posso sustentar um único ideal onde tudo o que posso ser dependeria de alguém que, ainda, nem conheço e nem sei se irei conhecer? Descobri que bom mesmo é ser heroína de mim, me desmembrar em mil ao invés de um único sonho, me acordar, me cuidar, me salvar. Eu acredito no amor e o vivo através do enfrentamento daquilo que dói pra poder sentir o que é superar, depois; através da contemplação de tudo que vive e pulsa dentro de mim enquanto fruto da mesma criação; através de quem conheci e me ajuda a ser melhor. Amor é muito mais do que achar que amar uma pessoa é o suficiente. Somos múltiplos.

Eu quero te encontrar porque sei que existe um amor, dentre todos os amores que em mim existem, guardado, especificamente, para você. Eu sei que você está em algum lugar e anseio te amar, assim como por ti ser amada. Mas não pretendo apoiar o meu presente nesta espera. Não quero segurar, entre meus braços, um desejo tão valioso que só poderá ser real se eu soltá-lo nas mãos de algo maior. Encontrar você, olhar pra você, sentir você seria um presente tão importante que não cabe à minha ansiedade decidir se estou preparada, se é o momento, se é a coisa certa. Eu espero estar presente no presente e reconhecer os presentes que a mim estão sendo dados, hoje. A vida é surpreendente e cheia de significados ocultos.

Eu me cuido sendo feliz e satisfeita com o que é e trabalho para me abrir e me disponibilizar para o que possa vir. Eu espero que você chegue para partilhas e caminhadas lado a lado. Porque se preciso de alguém para me salvar, esse alguém só pode ser eu.

Me perdoa

Meu querido, me perdoa chegar com tanta sede de viver e, ao mesmo tempo, com tanta carga emocional. Perdoa a entrada leve, os sorrisos, os olhares, as brincadeiras. Perdoa essa sintonia que é tão evidente. Perdoa meu encanto, minha felicidade com esse reencontro. Perdoa ser tão natural pra mim. Perdoa os deslizes inconscientes, o falatório, as referências. Perdoa aquilo que não percebi e nem soube disfarçar. Perdoa essa honestidade, essa transparência…

Perdoa o sentimento de culpa por te assustar, por te deixar desconfortável. Perdoa o excesso de sensibilidade e o nível agudo de percepção. Perdoa por isso me causar tristeza, frustração, sensação de estar pisando em ovos. Perdoa a minha humanidade, meu bem… meus traumas, minha história, minha luta. 

Sinto muito. Obrigada. A tristeza não vai me impedir de enxergar o aprendizado, o crescimento, o salto. Devo a você a descoberta de um tico mais de coragem, um tico mais de maturidade, um tico mais de respeito. Perdoa os erros mas recebe meus sentimentos bons e meu desejo de que você seja muito, muito, muito feliz.

Pensa duas vezes antes de me fazer perceber

Caso você venha de algum futuro ou já existente ambiente de trabalho, seja esperto: procure me conquistar em situações e lugares que não tenham ligação com a minha vida profissional. Caso contrário, é possível que você dance ou que eu demore muito a perceber tua existência. Na vida, pra quem busca relacionamento, penso que seja fácil se interessar por colegas de trabalho ou estudo. Quem quer um vínculo, olha pra quem convive ou quer conviver mais. São ambientes propícios, não nego, mas não deixam de ser perigosos.

Portanto, seja maduro: não sai por aí dizendo pra os teus melhores amigos do trabalho que me acha demais, não se chega nas minhas colegas de almoço pra saber o que eu faço nas horas vagas, não me olha demais como se fosse psicopata. Chega em mim, entendeu? Busque momento e lugar adequado, demonstra mesmo que tu sabes o que queres. Não seja tímido a ponto de me colocar num pedestal mas não seja explícito a ponto de me fazer pensar que é um idiota. Eu preciso de sagacidade, leveza, olhares, risadas, mas também preciso de poesia. Não estou pedindo para que me recite Vinícius de Moraes (o que não lhe cairia mal). Peço que, antes de chegar, consulte o que gostaria de viver e quem gostaria de ser. Não estou dizendo que me peça em casamento no primeiro encontro! Peço que não tenha medo de me mostrar, aos poucos, quem você é porque eu não gosto de superficialidade. 

Pensa duas vezes antes de me fazer perceber. Caso queiras, apenas, uma aventura passageira, você vai continuar me vendo. Conversa comigo pra saber o que eu quero, também.

Querido, você foi, apenas, o cara errado

Como mulher, eu escolhi ceder. Fingi que entendia as tuas necessidades masculinas. “Homem é assim, mesmo”, disseram minhas amigas. Decidi abrir mão do que, antes, jamais, abriria para que desse certo. Decidi calar diante do que, antes, jamais, calaria para continuar tentando. Questionei meus conceitos e vontades a fim de encontrar uma parte de mim que estivesse sendo rígida e incompreensiva. Eu queria achar essa parte. Imaginei estar fazendo a minha parte. Eu gostava mesmo de ti…

Gostava tanto que passei por cima de mim. Eu fui até o máximo do meu limite. Eu queria mais tempo contigo. Eu não queria aceitar que tão pouco tempo era suficiente para ir embora. Eu queria mais tempo para conversar como antes, para sentirmos essa retomada. Eu estava inteira, embora não o expressasse com palavras. Eu queria deixar tudo leve, te deixar à vontade. Eu tentei de verdade.

Mas tu querias mais do que eu podia dar. Tu querias tudo o que atendesse à tua intransigência, arrogância e falta de amor. Tu querias o que fosse fácil e conveniente para ti. Por isso, desprezastes uma escuta atenta à minha fala, desprezastes o respeito que é meu de direito. Ao primeiro não, fostes embora.

Homem tem que ser assim, não. Nem as mulheres devem se contentar em ser tratadas de maneira inferior à que merecem por um conceito bobo que se arraigou na sociedade. Existem homens de verdade. Estou falando de homem com H e não com O. Amar a ti era uma oportunidade de amar a mim, de me ver diferente, de me sentir diferente, de acreditar que a nossa história não havia acabado. Mas eu estava, completamente, errada. Quem foi que disse que eu preciso esperar alguém pôr os olhos em mim para que, então, eu possa me dedicar o amor que mereço? Quem foi que disse que eu preciso chegar ao cúmulo de meus limites numa relação só para que o meu conto de fadas imaginado se concretizasse? Quem foi que disse que me colocar em segundo plano ia fazê-lo se concretizar? Isso foi errado.

Eu errei comigo e tudo bem errar. Tudo bem abrir mão da minha vontade de estar certa sobre ti. Tudo bem fornecer a mim aquilo que te dei de sobra. Como profissional, menti para mim dizendo que queria ajudar. De novo, doei o meu melhor, engoli alguns sapos, investi tempo, investi trabalho e dedicação, chorei algumas horas na cama, no banheiro, na frente do computador lembrando da cantada que você escreveu para aquela mulher no Instagram. Eu só estava trabalhando quando vi… Por que estou fazendo isso?, me perguntei. Por que continuo fazendo isso? Eu não conseguia me responder.

Havia uma mulher ferida habitando a profissional, dedicando benefícios a quem lhe dedicou tanta dor. Uma mulher que gostaria de se proteger, de sair daquele lugar, quem sabe, sem mais uma briga que a rasgasse por dentro. Como mulher, fui usada. Como profissional, fui usada. Mas não queria dedicar a ti nenhuma atitude próxima à que dedicastes a mim porque eu não sou assim. Eu não sabia o que fazer. Eu não sabia como ir embora. Por quê? Não sei.

Tu fostes o ausente amor-próprio. Tu fostes a minha dificuldade de me aprofundar numa relação. Tu fostes as minhas fugas diante daquilo que não sei lidar. Tu fostes a minha intransigência, a minha vontade de não estar enganada. Tu fostes a falta de escuta e de respeito que dediquei a mim. Tu fostes a apresentação de monstros meus que preciso destruir. Tu fostes, principalmente, a pessoa “errada” que veio me mostrar que a minha vontade é ser a pessoa certa para mim.

Querido, pode ir, apesar de tudo

Quanto tempo faz que você terminou comigo sem dizer uma palavra? Quanto tempo faz que eu fiquei, ali, como se estivesse a espera de uma resposta, uma explicação, uma confirmação que fosse, sem entender? Quanto tempo faz que eu fiquei me culpando, procurando o erro em mim, forçando a minha barra para não ficar com raiva de você? Quanto tempo faz isso? Não vou contar nos dedos. Para mim, foi tempo suficiente pra eu me reestruturar no meio do caos.

Nós fomos uma repetição desnecessária para minha coleção de traumas e necessária para a minha evolução de alma. Em você, encontrei, gratuitamente, o que eu precisava modificar em mim. Por isso, para quê vou te responsabilizar por não aguentar ouvir um “não” ou sair correndo, sem dar explicações diante de uma situação contrária ao que você quer se eu era, exatamente, assim? Quando é o outro cometendo os nossos erros é mais fácil apontar e julgar. Difícil mesmo é tomar a responsabilidade, engolir seco e dizer: eu estou olhando para mim quando olho para ele, eu estou recebendo, exatamente, o que emanei.

A culpa não é sua… Não te faz, suficientemente, inocente para me ter de volta, mas isso não é sobre você. Sou eu. Eu sei o que é estar no corpo de alguém que se defende fugindo. Eu sei o que é não saber lidar com aquilo que não planejei. Eu sei o que é ir embora sem dizer uma palavra. Você não foi homem pra mim: não me disse adeus, não me disse porque acabou, simplesmente seguiu sem mim depois de tanto tempo me seguindo. Mas eu não vou perder meu tempo te responsabilizando pelo que eu atraí. Não se inicia qualquer envolvimento com sentimentos negativos no peito. Eu fiquei com você porque não tinha mais esperanças de encontrar quem me merecesse, eu fiquei com você sentindo medo de sofrer, eu fiquei com você me sentindo insegura, eu fiquei com você querendo acreditar nas minhas mentiras. Eu não vou te culpar por ter correspondido às minhas más expectativas.

Eu te deixei ir embora e me despedi com amor e carinho naquela noite, em frente à praça, depois de um dia normal, sem você saber. Eu amo você, apesar disso não mudar fato de que não servimos um para o outro (e como é ruim admitir isso). Eu quero que você seja feliz. Sempre que o ciúme e a saudade baterem, eu vou cancelá-los e tentar preencher o vazio com amor-próprio.

Querido, eu estou indo embora

Querido, eu cheguei à conclusão de que você gosta do conflito. Eu te amo, mas você se alimenta de conflito. Eu te amo, mas você precisa impor condições e situações, ao seu modo, para ficarmos juntos. Eu te amo tanto que consigo te entender sem ficar com raiva. Eu te amo tanto que consigo compreender que, por ora, ficamos incompatíveis…

Isso não é uma despedida. Somos amigos e o seremos, sempre, no que depender de mim. Mas eu não sou essa mulher que aceita tudo o que você quer sem questionar. Eu não sou essa mulher que não expõe opiniões e pensamentos. Eu não sou essa mulher que passa por cima dos próprios quereres só pra você não ficar com raiva. Eu não sou essa mulher capaz de abrir mão de tanto por alguém que não merece.

Desculpe a franqueza, mas você mudou. Você age como esses homens egoístas, machistas e apressados que contam os minutos para dar prazer pensando no que quer receber, ao invés de viver o momento. Você age como esses idiotas que não prestam atenção nos sentimentos alheios, que não conversam depois da conquista, que são intransigentes e irredutíveis. Você age como esses manés que se acham um grande prêmio. Você age como esses mamões que não conseguem dar conta de uma relação estável, prazerosa, sem briguinhas, nem joguinhos. Desculpe, querido, mas eu não posso ser essa mulher que fecha os olhos para tanta imaturidade…

Posso compreender que você esteja numa fase ruim. Posso te conhecer e saber, com um simples olhar, que você não está bem. Posso saber até das coisas que você não me diz. Posso ser sua amiga, se você quiser. O que eu não posso é perder o meu valor enquanto você se sente perdido. Não posso passar por cima do que é importante pra mim por sua causa. Não tenho disponibilidade para a tua inconstância.

Eu quero tranquilidade, querido… quero conversas agradáveis, confiança no que for fechado a dois, vivências saudáveis e prazerosas. Entende isso? Não é pedir muito da vida, não é impossível de se encontrar. É o que eu mereço. Não precisa ser um amor retumbante. Pode até nem ser pra amar, mas precisa ter respeito. Eu te amo, mas nem o mínimo você consegue me dar.

Fica bem.

Querido, aprenda a ser alguém melhor

Eu me afastei de ti. Eu te afastei de mim. Não porque eu quisesse, mas porque não me restou outra escolha. Eu precisei escolher entre eu e tu. Estar perto de ti significava não me dar o mínimo valor. Não conseguindo controlar meus sentimentos, minhas atitudes e minhas expectativas, eu, sempre, caía na tua armadilha. Durante anos, não enxerguei o quanto tu pioravas a situação. Alimentavas meus sentimentos, sutilmente, fazias isso por prazer, pelo teu ego. Depois, criavas a distância me enlouquecendo. Estive pensando que não preciso disso. É lembrar disso que me faz criar forças para não voltar atrás, apesar das investidas que destes, depois disso.

Querido, aprenda a olhar as pessoas. Não preciso dizer que o mundo não gira ao teu redor. Desapegue desse teu jeito imaturo, egoísta e inconsequente de magoar os outros. Desapega da tua mania de se colocar no papel de vítima. Desapega da tua covardia, do teu costume de fingir que está acontecendo nada, que fizeste nada. Pois, se corres atrás, é porque sabes que feriste em nome do teu ego. Aprenda a olhar para quem és de verdade. Perca o medo de fazer o mergulho profundo ao teu interior. Enfrenta teus medos, aprimora tuas qualidades, aprende a entender-te, a amar-te porque, somente assim, enxergarás o coração das pessoas e poderás te colocar no lugar delas. Somente assim, vencerás teu egoísmo, tua cegueira em não saber fazer outra coisa que não pensar em ti mesmo.

Por vezes, divago na dúvida de estar ou não fazendo a coisa certa. Por vezes, me pergunto se terás argumentos para me acusar. Por certo que sim. Eu estaria sendo madura se não me incomodasse contigo, com as notícias que me levam a saber de ti, com os pensamentos que me levam a ti, com a tua presença, com a minha mágoa. Eu, também, não quero para mim o papel de vítima. Se, ainda, não me sinto à vontade para olhar para ti e cumprimentar-te, normalmente, é porque preciso proteger-me. Doeu tanto que fiquei frágil. Doeu tanto que me fechei. Mas, sei que, se a situação chegou a este ponto, foi porque permiti. Eu enxerguei o que estava acontecendo mas não quis acreditar, não quis tirar-te do pedestal onde eu o havia colocado.

Ao me colocar distante, reafirmo para mim que não sou mais aquela mulher, não permito mais que me enganes e me magoes. Mas, sei que tudo isto só estará por findado quando eu for indiferente a ti e ao que quer que seja que venha de ti. Rogo a Deus pelo alcance desse perdão profundo e pelo desejo sincero de que sejas feliz. Por vezes, sinto, sim, a tua falta. Falta de conversar, falta de brincar, de rir e me pergunto: por que escolhestes me magoar tanto?

Querido, chega.

Nada do que eu escrever, aqui, será racional. É o meu sentimento que está falando mais alto e eu, jamais, teria a coragem de conversar, por mais uma vez, sobre isso contigo. Compreendo que posso estar causando sofrimento a mim mesma. Ninguém tem responsabilidade com os nossos sentimentos. Eu sei que cabe a mim entender e gerenciar o que sinto. Mas a dor, meu caro, tem causa na tua presença, na nossa convivência, com o que permito que faças comigo.

Não digo isso com prazer ou alívio. Não existe pessoa que esteja sofrendo mais do que eu ao perceber isso. Mesmo sabendo que não tenho teu amor, eu permiti que continuássemos amigos. Mesmo sabendo que não me queres, eu permiti que continuássemos próximos. Mesmo sabendo que você tem a mania de alimentar e iludir, eu permiti, por inúmeras vezes, que esta dor adentrasse e me esmagasse por dentro. Eu tenho, sim, carinho e amizade inexplicáveis por ti, mas olha só o que eu estou fazendo comigo… Acredito que tu, também, tens consciência do quanto esse teu movimento me faz sofrer, mas nunca o cessarás enquanto eu não tomar uma atitude de verdade. É muito triste, pra mim, ter que admitir isso, mas tu não tens amizade por mim a ponto de ter cuidado com o que eu sinto, a ponto de se importar com o que digo, a ponto de lembrar de mim. Quem ama um amigo não o machuca. Acho, ainda, que, se um dia tivestes respeito e consideração a mim, os perdestes a medida que eu não tive respeito e consideração por meus sentimentos e por meu coração.

Caí num ciclo vicioso que compreende permitir que te aproximes quando estou bem na tua ausência, depois me encantar com nossa proximidade, teu jeito de seduzir, tua maneira de conversar e, depois, logo depois, sentir uma pontada forte no coração causada pela percepção de um afastamento brusco. Tu te aproximas, bruscamente, de mim e me iludes com a intensidade de teu movimento e, logo em seguida, tu te afastas, também bruscamente, como se não te interessasses mais, como se estivesses arrependido, como se não te importasses com o que eu sinto. E se me magoei, por anos, com isso, recebi interrogações de retorno, me passastes a ideia de que não te davas conta do que estavas fazendo e que, na verdade, sentias apreço e carinho por mim. Em todas as vezes que recebi essas informações, eu acreditei. O que sinto por ti é tão grande que chegou a passar por cima de minhas próprias feridas.

Contudo, se alguém é capaz de perdoar, sem solicitação alguma da outra parte, só porque não consegue suportar a hipótese de não ter mais aquela pessoa em sua vida, se alguém é capaz de se magoar de maneira profunda pra depois levantar e, em seguida, dispor-se a ser ferido novamente, é porque esse alguém está com problemas sérios de autoestima. Permitir-se ficar num lugar previsível onde o outro faz o movimento que quer porque sabe que tem liberdade total pra isso e porque nunca irá perder o comodismo de ver a outra parte retornar é, no mínimo, perder-se do seu próprio valor.

Agora, eu sei que não receberei mensagens tuas, não te verei vindo correr atrás de mim porque minha angústia, minha dor e meus sentimentos perderam o valor que têm para ti. A culpa é minha. Ao invés de reconhecer o momento de me fazer ausente de toda essa história, eu acreditei que eu tinha importância para ti. Por isso, comportei-me como alguém que pode se dar o direito de expor o que sente a fim de ser compreendido. Eu, realmente, queria muito crer que a minha opinião tinha valor para ti. Mas não tem. E nesse ciclo vicioso, eu ocupei o lugar da mulher chata que faz cobranças. Na realidade, eu fui a mulher carente que mendigou atenção e amor.

Agora, cheguei a um ponto de me ver num lugar de onde tu não te importas se te vejo galanteando outra mulher. Começo, então, a não somente fazer comparações entre o que mereço e o que recebo de ti. Comparo, também, quem eras antes, para mim, e quem és agora. “Mas não existe relacionamento entre nós”, dirás tu, dirão os outros. Não. De fato, não existe relacionamento, nem respeito. Primeiramente, porque não adianta mais falar de minhas mágoas, apesar de elas renovarem-se a cada reaproximação. Eu diria que para cada reaproximação há uma mágoa. Mas falar significaria receber ataques teus de retorno, seria ouvir-te dizer, através de inúmeros argumentos forçados, que a culpa de qualquer situação desconfortável, entre nós, é minha. Falar o que sinto, ao invés de promover reconciliação, seria motivo para um festival de acusações. Sim, meu caro, a culpa é minha de não ter ido embora resolver meus sentimentos sozinha. Em segundo lugar, porque um amigo não deve se prestar ao papel de se alimentar do sofrimento do outro.

A verdade é que, sim, ainda sou apaixonada por ti e não posso continuar tentando mentir pra mim e sofrendo com isso. Acho que não preciso me forçar a ser forte permanecendo numa relação que já não me faz bem. No momento em que estava quase, definitivamente, me curando disso, eu voltei atrás. Em primeiro lugar, porque eu sabia que estavas precisando de alguém ao teu lado em um momento difícil. Para mim, sempre foi inconcebível te ver sofrendo e fazer nada. Hoje, entendo que há um tempo pra tudo, na vida de cada um de nós, e tu deves, sim, ter teu tempo para sofrer e aprender, também. Gostaria de ser um ombro amigo dentro de uma relação saudável, para ti… Em segundo lugar porque, lá no fundo, sem notar, me deixei levar pela tua forma de lidar comigo que nunca deixou de me revelar rastros e esperanças de que, um dia, irias gostar de mim. Agora vejo que era, apenas, uma forma, de me manteres no teu banco de reservas como o deves fazer com tantas outras. Mas nunca irás te culpar por confundir os sentimentos de uma pessoa e ir embora pois pecado, mesmo, para ti, seria se tivéssemos nos rendido aos prazeres carnais e, em seguida, tu me deixasses. Magoar o coração de uma pessoa não conta.

A verdade, talvez a maior verdade de tudo isso, é que somos duas pessoas tentando ser melhores e cometendo erros e acertos. Eu não devo te culpar por não saberes lidar de outra forma com esta situação. Também, não devo me culpar por não saber o que fazer. Talvez, eu precise de um tempo longe deste ciclo para me entender e me curar. Preciso provar pra mim que eu tenho amor-próprio. Só não sei como fazer isso. Como vou me curar? Como posso apostar que tudo pode não voltar se eu te reencontrar? Estaria eu fugindo, desfocando, deixando mal resolvido? Não sei. Isso tudo é tão forte que não me permite saber, com exatidão, o que fazer de verdade. Eu só sei que essa dor, que tem se repetido por tantas vezes, quer me dizer algo.

Querido, eu estou te esquecendo

Querido, tenho aprendido que não preciso ir tão longe para modificar o mundo ao meu redor. Se eu quiser, mesmo, alguma transformação em minha vida, preciso começar pelo meu interior. É engraçado porque, enquanto não preciso me deslocar a lugar algum, preciso mover quantidade de força e energia absurdas para vencer a mim mesma. O mal começa dentro da gente e a pior luta de se travar, nesta vida, é a luta interior.

Tenho tentado lutar contra os pensamentos que me levam até você, incessantemente, e confesso que isso tem sido cansativo. Sou eu brigando comigo mesma, o tempo inteiro. Sou eu querendo o melhor pra mim, querendo te esquecer, querendo me curar do vício de incluir você, no meu presente, de alguma maneira. Sou eu sofrendo por saber que estou me maltratando ao querer tanto uma pessoa que não me quer de volta. Sou eu dizendo a verdade para mim e calando a vontade de te procurar.

Por vezes, deslizo na vigília do pensamento permitindo com que a imaginação corra solta. Penso como seria bom se você me quisesse, também. Volto para a realidade, puta da vida, porque me causei mal, por mais uma vez. Descuidei e mim e puf! pensei em você. E logo tenho que me perdoar pra voltar para o campo de batalha, novamente, porque um novo pensamento virá.

Essa guerra ninguém pode travar por mim. É preciso muita coragem para enfrentar a si mesmo, assumindo as responsabilidades. Sei que muitos fogem disso, até mesmo, sem perceber. A cada batalha vencida por cada pensamento negado, a cada oração realizada em que peço paz de espírito e iluminação, a cada mínima força garimpada para reagir e procurar outros planos, outros sonhos, eu sinto orgulho de mim.

Querido, você não precisa saber. Você pode guardar a imagem do tempo em que paguei de otária, dei chances, corri atrás. Não faz mais diferença. Eu estou te esquecendo. Sinto que está sendo de uma forma madura, sinto que vai ser no silêncio, sinto que vai ser sofrido e gradativo, mas vai ser de vez.