Uma observação injusta

Nada pra escrever quando tenho tempo de sobra. Tempo de escrever quando não sobra tempo para nada. Que sentido e que justiça possui a dinâmica da vida dos assalariados do século XXI estando entre fazer o que se gosta e morrer de fome; ou encher o prato e viver infeliz? Enquanto, deitada, brincava com a caneta perpassando-a entre os dedos, diante da folha de caderno vazia e o silêncio do quarto, era isso que eu pensava ao mesmo tempo que gostaria de escrever.

O ar quente do ventilador deixava o cômodo mais abafado e os vinte e oito graus que faziam, lá fora, só concordavam com a cabeça fervilhando em pensamentos. Tempo é ouro, é o que dizem. Deve ser porque tempo é produção, é criatividade, é força de trabalho. Tempo é aquilo que se deixa passar em nome da necessidade enquanto não se corre atrás do que, realmente, se deseja. O tempo é precioso demais para que seja desperdiçado com infelicidade.


Comece o dia com um “eu te amo”

No atendimento do laboratório, uma atendente se aproxima do meu atendente e fala:
– Bom dia, querido, eu te amo, tá?
Quando é de verdade, até quem está de fora sente. Não resisti e falei:
– Como é bom começar o dia com um “eu te amo”, né?
Após sua pele corar como beterraba, ele sorriu desengonçado.

É possível escolher, sempre

Havia uma festa mas não deu vontade de ir. Havia afazeres, mas coube mais um episódio da minha série favorita. Havia pressa, mas deu pra fazer o meu tempo. Havia desânimo, mas deu pra passar por cima e me abrir para algo de novo dentro da minha própria rotina. Dentro disso, a parte boa de poder fazer escolhas, a parte boa de passar um dia inteiro em minha própria companhia fazendo o que eu gosto, a parte boa de não me afetar com o que os outros podem estar pensando. A parte boa da vida: é possível escolher, sempre.

Produtividade

Eu não vi o tempo passar, enquanto fazia minhas coisas. Eis o segredo da produtividade: ter envolvimento e prazer na existência, no movimento, nas atividades. Tenho a sensação de que, por mais que o tempo passe, continuarei a fazê-las, independente de seus resultados.

O sentido de transpor muralhas

Eu arrastei o meu cansaço, no feriado. Arrastei as dores corporais de tanto andar e carregar peso do dia anterior. Arrastei, para a frente do computador, a minha vontade de não levantar e de não saber lidar com imprevistos. Arrastei tudo o que era meu comigo como se esse tudo estivesse numa trouxa de lençol. Então, eu decidi realizar as prioridades. Conversei com minha ansiedade e com minha tristeza. Expliquei que nosso tempo de paralisar e tentar se anestesiar com lanches e Netflix era findado. Era hora de enfrentar a vida recriando a luta pelos sonhos. Prioridades. Lá fomos nós, eu e minha bagagem, realizar. Uma coisa de cada vez. Devagarinho. Chegamos. Sobrou tempo para estudar. Enquanto estudávamos, sonhei. Sobrou tempo para trabalhar nos projetos pessoais. Enquanto trabalhava, sonhei. Produzir não, necessariamente, rima com estar bem, emocionalmente. Mas o sentido de transpor as próprias muralhas é tão lindo quanto escrever um poema.

Daquilo que seja a vida

A gente luta durante anos, dia após dia, para ser alguém melhor. Passa um tempo desvendando o que há por trás de nossos sentimentos mais fortes para poder se entender, depois um pouco mais de tempo para poder se aceitar, depois mais tempo, ainda, lutando contra nós mesmos, tentando matar padrões de pensamento e de comportamento que nos acostumamos a ter mas que não nos fazem melhores. A gente luta para se alimentar dos melhores pensamentos, sentimentos, situações e influências mas, basta uma queda, daquelas bem dadas, daquelas que a gente não espera, daquelas que nos desestruturam, que nos fazem sair de nós mesmos, para tudo voltar, em instantes. Tudo o que não gostaríamos de ser, ainda, está ali ativado pelas nossas fraquezas. Quem sabe, viver feliz seja uma eterna luta contra nós mesmos a fim de manter uma paz que a gente não pode perder.

A arte de se vencer

Passei a manhã pensando, lembrando, lendo, meditando e chorando. No final do rito de preparação, havia chegado a hora de recomeçar. Aí procrastinei: Netflix seguido de sono, mas um sono que não me deixava, verdadeiramente, dormir. Era a inércia me entorpecendo, me amolecendo, querendo me fazer parar. Quem passa pelo sutil momento despercebido da dificuldade de levantar da cama e enfrentar a vida não sabe o quanto é vencedor.