Em nome das grandes mulheres

Um apelo especial em nome de todas as mulheres de baixa estatura e voz suave: não somos frágeis. Não é agradável falar das recorrentes primeiras impressões dos outros, com suas expressões de dúvida, a respeito de a nós ser concedida determinada (ou qualquer) tarefa. Somos capazes. Aos motoristas de coletivos, por favor: temos vozes. Um botão (que funcione) uma vez apertado, aciona uma luz, diante dos senhores, acompanhado de uma sirene que significa: desembarque no próximo ponto de ônibus. Alguma dificuldade com interpretação de sinais ou seguimento de regras? Então, explique: por que “queima” os desembarques quando estamos sozinhas? E por que ouve as reivindicações de uma voz masculina e negligencia uma voz feminina?

Aos queridos desconhecidos aos quais seremos apresentadas: não somos crianças. É incrível (do verbo não se pode crer) que uma mulher se aprisione à ditadura do salto alto para ser ouvida. Gente, tamanho não é documento, já dizia minha avó. Nem atestado de ignorância, nem passe livre para o desrespeito, nem autorização para tratamento no diminutivo, nem prova de doçura excessiva. Já viu uma mulher com M maiúsculo de um metro e cinquenta de altura, inteligente e de personalidade forte? Creia: elas existem. Aos queridos e inseguros colegas de trabalho: não somos bestas. Você pode ter um pênis e achar que isso é motivo suficiente para que seu contracheque venha mais alto. Você pode ter mais testosterona e achar que isso é motivo suficiente para julgamentos infundados. Você pode ter pelos torácicos e achar que isso é motivo suficiente para nos passar a perna mas acredite: nem mesmo nós, que por meio de nossas vaginas somos templo da geração da vida humana, medimos nossa capacidade por hormônios ou órgãos sexuais. Cresça.

E aos homens dotados de imaturidade, conservadorismo e certo grau de altura: não somos escravas. Você pode usar seu melhor desodorante, falar mansinho com voz de criança por puro fetiche, fazer o papel da vítima e achar que isso é suficiente para nos manipular aos seus desejos. Querido: temos quereres. Você pode sentir que, no auge de seus quase dois metros de altura, pode nos tratar com ar de superioridade e eu te digo: grande merda. É preciso que um homem tenha qualidades e atitudes que, provavelmente, você desconhece para merecer uma mulher de verdade. Sair pela tangente e te deixar com cara de tacho é a nossa especialidade.

Compre 2 pelo preço de 3

Vamos falar sobre ética. Não te preocupes se essa palavra lhe soa com ar de chatice. Acredite, tem muita gente que acha a maior chatice falar de ética ou política ou economia. Quer saber meu palpite sobre essa realidade? Deve ser muito chato falar de algo que não funciona dentro de um país e de uma sociedade. Tanta gente bacana apresentando soluções e projetos louváveis mas, quer saber? Não iremos a lugar algum caso eu ou você não façamos aquela famosa porém não executada “nossa parte”.

Vou falar de mim. Quando eu era criança, meus pais me obrigaram a fazer o que é certo. O certo era estudar para a prova, não colar. O certo era jogar meu lixo no lixo, não no chão. O certo era falar, respeitosamente, com as pessoas, não com falta de educação. Eu cresci sem jeitinho brasileiro, me dedicando para alcançar a menor conquista que fosse. Eu cresci sem recorrer a favores de conhecidos (embora tenha recebido, também, grandes favores de grandes amigos que se disponibilizaram por livre e espontânea vontade, mas você deve saber que isso é diferente, né?). Meu movimento sempre foi acompanhando o fluxo do povo marcado de Zé Ramalho em sua Admirável Gado Novo. Eu sou povo marcado.

Muito bem, deixado isso claro, falada a minha compreensão vivida do que seja ética, vamos falar sobre a compra que eu fiz, no dia 4 de julho de 2018, nas Farmácias Independente do Shopping Boa Vista, no Recife (conhece?). Levei alguns produtos, dentre eles uma promoção de três frascos de Cenevit Zinco (aquela vitamina C, sabe?), por R$32,41. A atendente disse que estava na promoção, a embalagem me prometia 30 comprimidos efervescentes.

nota fiscal
Nota fiscal da compra

Após ter resolvido algumas coisas em outros estabelecimentos do centro da cidade, voltei para casa. Ao chegar e abrir a caixa, que me prometia 30 comprimidos, adivinha quantos comprimidos encontrei? 20. Fui, completamente, lesada! Não retornei ao estabelecimento da compra por que enfrentaria o trajeto de dois ônibus em cerca de uma hora e meia de viagem mas fui em busca de respostas e encaminhamentos para uma situação como essa.

Segundo o advogado e oficial de Justiça Avaliador Federal do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, Joeldson Ribeiro de Barros, “inicialmente, o ideal era que as pessoas abrissem a embalagem ainda no estabelecimento em que está efetuando a compra porque a vinculação da propaganda exige que seja entregue, exatamente, aquilo que se está anunciando”. Contudo, ainda que o consumidor efetue a abertura da embalagem fora do estabelecimento de compra, não estará invalidado o seu direito. “Nada impede que o consumidor, sentindo-se lesado, como de fato o foi, retorne ao estabelecimento, com o produto, a embalagem e a nota fiscal e exija que lhe seja entregue um produto correto, nos mesmos moldes do que ele comprou ou, de forma alternativa, devolva o produto e exija a devolução do seu dinheiro”, explica Barros.

Embalagem cenevit
A embalagem enganosa

A lei nº 8.078 de 11 de setembro de 1990 do Código de Defesa do Consumidor aponta, em seu artigo 6, inciso IV, como direito básico do mesmo “a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços”. Mais adiante, no artigo 18, a informação é a de que “os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com as indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.
§ 1º Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I – a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de uso;
II – a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos;
III – o abatimento proporcional do preço”.

Se você tiver alguma dúvida, pode acessar o site do Procon (Proteção e Defesa do Consumidor) Pernambuco (procon.pe.gov.br) ou mesmo entrar em contato com as unidades do órgão existentes em todo o estado. No Recife, o Procon está situado na Rua Carlos Porto Carneiro, nº 156, no bairro do Derby. Para o atendimento, cujo horário de funcionamento é das 9h às 13h, é indicado que o consumidor leve original e cópia de seus documentos pessoais como RG e CPF, cópia de todos os documentos e informações referente à queixa, como cupom ou nota fiscal, recibos, e-mails, contratos, números de protocolos de atendimento, folheto de propagandas ou outros documentos comprobatórios. O número de lá é o (81) 3355-3290 e o e-mail: procon@recife.pe.gov.br.