Tempo de construção

Pela primeira vez
Em anos e anos virados
O ano virou e eu não senti
No meio do peito, um buraco

Nada de dor, nada de falta tua
Nada de horror, só minha alma nua

Ao lembrar do ano velho
Onde tanto me despedi
Penso que ser adulto
É, também, aprender a deixar ir

A dor ensina, isso é certo
Ensina quem queremos ter por perto

E o meu sentir sairá
Em lugar seguro de se deixar
Eu escrevo e canto o que vivo
Me traduzo porque preciso

Deixo ser quem sou eu
Deixo ver quem o tempo de construção escolheu

Sobre ser uma mulher, dentre tantas outras incríveis

Texto escrito em 2015. Quem sabe, ainda, atual.

Menina, o passar dos anos irá te mostrar o que é deixar de ter um vínculo de responsabilidade mas, em alguns termos, considerado acolhedor e afetuoso como o colégio, a faculdade. O tempo vai te colocar em frente à necessidade de se perder pra poder se encontrar. Num piscar de olhos você terá uma série de responsabilidades pra dar conta e não poderá se questionar sobre conseguir ou não. O tempo só vai te fazer tentar porque estão te pagando pra isso.

Num piscar de olhos, aquelas rodas de amizades confiáveis, aquelas inúmeras possibilidades (aparentemente, intermináveis) de encontrar seus companheiros de guerra, aquele contato constante que preenchia seu tempo com mensagens, trabalhos em dupla, em trio, em grupo, aquelas saídas frequentes que misturavam sua vida profissional com a pessoal porque ao seu lado, aprendendo, também, estavam os seus amigos, tudo isso vai caminhando para um campo mais raro. Sua vida, agora, é trabalho, às vezes, trabalho e estudo mas é um estudo mais consciente do que você quer. As amizades continuarão, e você precisará ser forte para mantê-las vivas através de ligações sem motivo e cumprimento de promessas de reuniões, também, sem motivo. Você aprenderá a ser amiga das pessoas não porque são vizinhos ou colegas de turma mas, apenas, porque você os ama e os quer por perto, ainda que não haja nenhum vínculo que te obrigue a continuar os vendo. É aí, meu amor, que você irá se percebendo adulta.

O passar dos anos vai, também, te ensinar a ganhar dinheiro e a gastá-lo com a mesma responsabilidade que você vem guiando a sua vida sem entregar suas rédeas aos seus pais. Mas é aí que seus pais mais estarão presentes, já diria Belchior. Sua criação vai refletir bem nos seus valores e em como você viverá sua liberdade. Você não precisará de permissão para se locomover, para aceitar convites, para gozar da companhia das pessoas que você queira, para obter produtos que você ache necessário ter desde que tenha honra pelas saias que veste, como diria vovó (pode ter honra pelas calças, shorts, vestidos e macacões também, é claro!). Isso quer dizer: desde que seja responsável por suas escolhas, desde que assuma as consequências de suas decisões. E você irá saber fazer isso.

Amor, você vai cair e levantar várias vezes. Vai, então, aceitar que a vida é feita disso, não temos o controle sobre tudo. Aí, então, você se perceberá independente, madura, dona do próprio nariz. Aparentemente, nada faltará até que todo esse amor com que você vem se educando, se policiando, se respeitando nesse mundo tão maluco, tão cheio de possibilidades, vai te pedir um carinho mais transbordante. Você é linda, todos sabem, mas vai aprender a gostar de se cuidar. Não pelos homens (mulheres), namorados (as), pretendentes. Essas são experiências que fazem parte, nós sabemos. Mas você vai saber que elas não te fazem uma mulher. Uma mulher não é feita, apenas, de conhecimentos sobre sedução ou sexo. Não… Pra ser mulher, não basta dar. Você vai aprender a amar seu corpo, respeitar sua essência, sua beleza, sua fortaleza gigante em formato de meiguice. Aí, amor, você vai refletir essa “você” inteira na forma como arruma e trata os cabelos e como só você tem o jeito próprio de passar as mãos neles, durante o dia. Essa “você” estará nos produtos que escolheu pra sua pele e no tempo que gasta, com carinho, cuidando e embelezando ela. Esta “você” estará nas roupas e calçados que o seu suado dinheiro está comprando, aqueles que se parecem mais com sua forma de ser, de andar, de falar, de se mexer.

Aí, amor, sentindo sua alma dentro do seu corpo e olhando com carinho para o seu espelho, você sentirá a dádiva de ser adulta, de ser independente mas, acima de tudo, de se sentir mulher. Seja bem-vinda “eu”! Outras mil “eus” pré e pós existentes estavam à sua espera. Outras mil mais aguardavam o que você teria para se completarem. Agora, você sabe que não se trata de ter orgulho de ser mulher. Você tem orgulho de quem se tornou, do que construiu e do que conquistou, no mundo de hoje, sendo mulher. Parabéns pra mim. Parabéns pra vocês.

Menina, o que há com você?

(Na realidade, me antecipo a dizer que a menina pode tudo. Mas há quem se fira com suas atitudes intencionais)

Você tem uma raiva gratuita e espontânea de qualquer garota que ameace seu posto de ser o centro das atenções. Você se insinua pra tudo quanto é homem e não perde a chance de se envolver com eles para conseguir o que quer. Você não se importa com a ética em ambientes de estudo ou trabalho. Você não se esforça para se dedicar, ao menos, a uma única coisa, em sua vida, e acha que pode findar seus dias bebendo, dançando, fumando, vestindo roupas provocantes e passando a perna nas pessoas. Menina, o que há com você?

Será que, para se sentir alguém, você precisa criar rivais? Será que você não consegue viver sem os olhos das pessoas sobre você? Por que você quer ou precisa tanto desses olhares? Será que é porque a sua autoestima não está ok? Você luta para obter a atenção das pessoas e se sente ameaçada quando isso não acontece. Você recorre a bens que te anestesiam e se passa por uma pessoa engraçada que nunca vai ter juízo, que nunca vai tomar um rumo, que sempre vai precisar de ajuda para poder se aproximar dos outros. Na verdade, você é extremamente carente, tem a autoestima extremamente baixa, nunca sentiu amor próprio e nunca teve coragem de mostrar quem você, realmente, é.

O que você ganha com isso, garota? Qual é a graça de achar que a solução dos seus problemas está em fatores externos? Por que será que você não consegue olhar pra dentro? Qual é a sua real necessidade quando se insinua para pessoas do sexo oposto e faz sexo com elas sem nunca ter sentido o amor? Que medo é esse de se entregar? Que medo é esse de encontrar o seu lugar? Agora, mesmo, você está seduzindo e se envolvendo com o seu superior. Ele está perdido no sofrimento e você o leva para bares e festas com as quais ele não se identifica, mas ele vai porque ele é muito mais velho do que você e tem um complexo gerado por uma juventude que não viveu. Ele está encantado com o seu frescor, com a sua juventude, com a sua loucura. Na verdade, ele acha que estar perto de você e acompanhar suas inconsequências pode ser a única escolha empolgante, já que ele luta para se sentir confiante e não consegue. Ele não consegue enfrentar a si, ele não sabe porquê está com você e você não sabe porquê está com ele.

O que te faz sentir uma pessoa melhor em se aproveitar de uma pessoa que está frágil, emocionalmente? Qual é a graça de fazer tantos movimentos para sua vida sexual sem algo de verdadeiro? O que de bom há em machucar o coração da mulher que, realmente, ama esse cara? Não quero tirar a responsabilidade dele da história. Mas seria bom que o seu senso de autorresponsabilidade acordasse desse sono profundo. Menina, você é jovem, bonita, inteligente, tem uma vida pela frente te esperando. Uma vida maior do que esse círculo vicioso onde você se meteu. A vida pode ser melhor do que isso. Seja lá qual for a dor que você esconde, descubra-a, enfrente-a. Descubra quem você é e o que realmente quer. Então, terá paz. Acredite, magoar os outros, causar intrigas, competições, viver relações vazias não contribui para que te tornes a melhor versão de si. Não atrai para ti um olhar verdadeiro e profundo, não te faz ser amada.

Menina, aprende a se respeitar, aprende a se amar. Se conseguires, entenderás o quanto é importante ter respeito pelos outros, aproximar-se dos outros por quem você é. Sei que estás cansada de fazer este papel. Sei que pode ser doloroso não descansar no seu próprio eu. Então desista disso. Desista de se alimentar do que os outros pensam e falam, desista de montar um personagem para obter a atenção e o cuidado deles. Cuide-se, cresça, amadureça, tome as rédeas de sua vida. Menina, pare de magoar as pessoas, gratuitamente, apanha a tua dignidade do chão ou as pessoas nunca deixarão de sentir pena de ti.