A família que o nosso coração escolhe ter

Amigo: o irmão que não é de sangue. O psicólogo que é de graça. O abraço sempre apertado. A risada sem motivo. As loucuras sem limites. As conversas bobas de madrugada. O puxão de orelha na hora certa. O ombro preparado. As mãos que nos enxugam as lágrimas. O remédio das feridas causadas pelas paixões. O amor que nunca morre.

Luan Vasconcelos

Texto do estudante de Letras Luan Vasconcelos

*Você, também, pode sugerir o seu e compartilhar na aba Contato, aqui, do Fuá de Clara. Leremos com carinho a sua sugestão que, sendo aprovada, poderá ser publicada na categoria Trombeta, porque aqui a gente toca as trombetas pra você falar =)


Querido, chega.

Nada do que eu escrever, aqui, será racional. É o meu sentimento que está falando mais alto e eu, jamais, teria a coragem de conversar, por mais uma vez, sobre isso contigo. Compreendo que posso estar causando sofrimento a mim mesma. Ninguém tem responsabilidade com os nossos sentimentos. Eu sei que cabe a mim entender e gerenciar o que sinto. Mas a dor, meu caro, tem causa na tua presença, na nossa convivência, com o que permito que faças comigo.

Não digo isso com prazer ou alívio. Não existe pessoa que esteja sofrendo mais do que eu ao perceber isso. Mesmo sabendo que não tenho teu amor, eu permiti que continuássemos amigos. Mesmo sabendo que não me queres, eu permiti que continuássemos próximos. Mesmo sabendo que você tem a mania de alimentar e iludir, eu permiti, por inúmeras vezes, que esta dor adentrasse e me esmagasse por dentro. Eu tenho, sim, carinho e amizade inexplicáveis por ti, mas olha só o que eu estou fazendo comigo… Acredito que tu, também, tens consciência do quanto esse teu movimento me faz sofrer, mas nunca o cessarás enquanto eu não tomar uma atitude de verdade. É muito triste, pra mim, ter que admitir isso, mas tu não tens amizade por mim a ponto de ter cuidado com o que eu sinto, a ponto de se importar com o que digo, a ponto de lembrar de mim. Quem ama um amigo não o machuca. Acho, ainda, que, se um dia tivestes respeito e consideração a mim, os perdestes a medida que eu não tive respeito e consideração por meus sentimentos e por meu coração.

Caí num ciclo vicioso que compreende permitir que te aproximes quando estou bem na tua ausência, depois me encantar com nossa proximidade, teu jeito de seduzir, tua maneira de conversar e, depois, logo depois, sentir uma pontada forte no coração causada pela percepção de um afastamento brusco. Tu te aproximas, bruscamente, de mim e me iludes com a intensidade de teu movimento e, logo em seguida, tu te afastas, também bruscamente, como se não te interessasses mais, como se estivesses arrependido, como se não te importasses com o que eu sinto. E se me magoei, por anos, com isso, recebi interrogações de retorno, me passastes a ideia de que não te davas conta do que estavas fazendo e que, na verdade, sentias apreço e carinho por mim. Em todas as vezes que recebi essas informações, eu acreditei. O que sinto por ti é tão grande que chegou a passar por cima de minhas próprias feridas.

Contudo, se alguém é capaz de perdoar, sem solicitação alguma da outra parte, só porque não consegue suportar a hipótese de não ter mais aquela pessoa em sua vida, se alguém é capaz de se magoar de maneira profunda pra depois levantar e, em seguida, dispor-se a ser ferido novamente, é porque esse alguém está com problemas sérios de autoestima. Permitir-se ficar num lugar previsível onde o outro faz o movimento que quer porque sabe que tem liberdade total pra isso e porque nunca irá perder o comodismo de ver a outra parte retornar é, no mínimo, perder-se do seu próprio valor.

Agora, eu sei que não receberei mensagens tuas, não te verei vindo correr atrás de mim porque minha angústia, minha dor e meus sentimentos perderam o valor que têm para ti. A culpa é minha. Ao invés de reconhecer o momento de me fazer ausente de toda essa história, eu acreditei que eu tinha importância para ti. Por isso, comportei-me como alguém que pode se dar o direito de expor o que sente a fim de ser compreendido. Eu, realmente, queria muito crer que a minha opinião tinha valor para ti. Mas não tem. E nesse ciclo vicioso, eu ocupei o lugar da mulher chata que faz cobranças. Na realidade, eu fui a mulher carente que mendigou atenção e amor.

Agora, cheguei a um ponto de me ver num lugar de onde tu não te importas se te vejo galanteando outra mulher. Começo, então, a não somente fazer comparações entre o que mereço e o que recebo de ti. Comparo, também, quem eras antes, para mim, e quem és agora. “Mas não existe relacionamento entre nós”, dirás tu, dirão os outros. Não. De fato, não existe relacionamento, nem respeito. Primeiramente, porque não adianta mais falar de minhas mágoas, apesar de elas renovarem-se a cada reaproximação. Eu diria que para cada reaproximação há uma mágoa. Mas falar significaria receber ataques teus de retorno, seria ouvir-te dizer, através de inúmeros argumentos forçados, que a culpa de qualquer situação desconfortável, entre nós, é minha. Falar o que sinto, ao invés de promover reconciliação, seria motivo para um festival de acusações. Sim, meu caro, a culpa é minha de não ter ido embora resolver meus sentimentos sozinha. Em segundo lugar, porque um amigo não deve se prestar ao papel de se alimentar do sofrimento do outro.

A verdade é que, sim, ainda sou apaixonada por ti e não posso continuar tentando mentir pra mim e sofrendo com isso. Acho que não preciso me forçar a ser forte permanecendo numa relação que já não me faz bem. No momento em que estava quase, definitivamente, me curando disso, eu voltei atrás. Em primeiro lugar, porque eu sabia que estavas precisando de alguém ao teu lado em um momento difícil. Para mim, sempre foi inconcebível te ver sofrendo e fazer nada. Hoje, entendo que há um tempo pra tudo, na vida de cada um de nós, e tu deves, sim, ter teu tempo para sofrer e aprender, também. Gostaria de ser um ombro amigo dentro de uma relação saudável, para ti… Em segundo lugar porque, lá no fundo, sem notar, me deixei levar pela tua forma de lidar comigo que nunca deixou de me revelar rastros e esperanças de que, um dia, irias gostar de mim. Agora vejo que era, apenas, uma forma, de me manteres no teu banco de reservas como o deves fazer com tantas outras. Mas nunca irás te culpar por confundir os sentimentos de uma pessoa e ir embora pois pecado, mesmo, para ti, seria se tivéssemos nos rendido aos prazeres carnais e, em seguida, tu me deixasses. Magoar o coração de uma pessoa não conta.

A verdade, talvez a maior verdade de tudo isso, é que somos duas pessoas tentando ser melhores e cometendo erros e acertos. Eu não devo te culpar por não saberes lidar de outra forma com esta situação. Também, não devo me culpar por não saber o que fazer. Talvez, eu precise de um tempo longe deste ciclo para me entender e me curar. Preciso provar pra mim que eu tenho amor-próprio. Só não sei como fazer isso. Como vou me curar? Como posso apostar que tudo pode não voltar se eu te reencontrar? Estaria eu fugindo, desfocando, deixando mal resolvido? Não sei. Isso tudo é tão forte que não me permite saber, com exatidão, o que fazer de verdade. Eu só sei que essa dor, que tem se repetido por tantas vezes, quer me dizer algo.

Me perdoe por não poder lhe julgar, julgando

Colega, por algum tempo, eu te chamei de amigo… Eu me doei e me atirei a me importar contigo como é praxe de minha personalidade com novas relações. Tenho reparado que as pessoas muito se defendem. Eu não. Eu pago pra ver, até que me provem o contrário. Que besteira é essa de não me dar uma chance de ter um amigo? Que besteira é essa de não me dar uma chance de ser um amigo para alguém? Tenho reparado que o universo emocional das pessoas anda meio adoentado e tudo pode ser motivo para alguma desconfiança.

Colega, não acho que este seja o nosso caso. O que eu acho é uma realidade muito dura de dizer. No entanto, uma vez dita, se torna algo simples como uma pena que cai no chão, vagarosamente.

Eu acho que afinidade e bem-querer não se escolhe com a cabeça. Até hoje, nunca se descobriu o motivo real que nos leva a gostar de alguém querendo compartilhar felicidade. A gente gosta e pronto. Por isso, não posso te julgar…

Não posso te julgar pelo abandono que eu sinto. Não posso te julgar por essa sensação inadequada de injustiça. Não posso te julgar pela minha escolha de ter te acolhido no círculo de doação da minha mais carinhosa amizade. Compreenda que sou humana e meu nível de evolução, ainda, não me permite enxergar com naturalidade estes momentos em que tanto precisei de ti e tu, sabendo que eu não estava bem, nada fez. Não cresci tanto a ponto de não sentir falta de um feliz aniversário, no início do mês passado. Sendo que fulano ficou doente e todo mundo caiu em cima de preocupação. Sendo que sicrano fez aniversário e todo mundo se mobilizou para comemorar. Não sou tão madura para admitir que doei mais do que o necessário e que tu, também, podes estar galgando teus níveis de evolução.

Foi barra, colega… É uma barra esses desencontros da vida que brigam com as nossas carências. É muito difícil não querer se fechar para o mundo, não tomar uma postura vingativa, não querer se proteger de quem te desmerece, mesmo que esse alguém não tenha culpa. Quem não fecha o coração diante das frustrações dessa vida é que é forte, mesmo.