Se preciso de alguém para me salvar, esse alguém só pode ser eu

Eu espero que você chegue. Mas, se não chegar, espero continuar bem. Espero não me importar com as fôrmas moldadas pela sociedade. Espero continuar sendo tudo o que preciso: explorando meu mundo, descobrindo e redescobrindo mais de mim nas atividades que gosto, nos projetos, nos sonhos… Espero continuar me bastando por que a verdade é que nada falta. 

Por vezes, o medo me atormentou e eu cheguei a pensar que tinha como maior sonho me unir a alguém e formar uma família. Quando isso acontecesse, tudo de ruim ficaria para trás, eu seria uma nova pessoa e poderia, então, viver. Depois, pensei: como posso sustentar um único ideal onde tudo o que posso ser dependeria de alguém que, ainda, nem conheço e nem sei se irei conhecer? Descobri que bom mesmo é ser heroína de mim, me desmembrar em mil ao invés de um único sonho, me acordar, me cuidar, me salvar. Eu acredito no amor e o vivo através do enfrentamento daquilo que dói pra poder sentir o que é superar, depois; através da contemplação de tudo que vive e pulsa dentro de mim enquanto fruto da mesma criação; através de quem conheci e me ajuda a ser melhor. Amor é muito mais do que achar que amar uma pessoa é o suficiente. Somos múltiplos.

Eu quero te encontrar porque sei que existe um amor, dentre todos os amores que em mim existem, guardado, especificamente, para você. Eu sei que você está em algum lugar e anseio te amar, assim como por ti ser amada. Mas não pretendo apoiar o meu presente nesta espera. Não quero segurar, entre meus braços, um desejo tão valioso que só poderá ser real se eu soltá-lo nas mãos de algo maior. Encontrar você, olhar pra você, sentir você seria um presente tão importante que não cabe à minha ansiedade decidir se estou preparada, se é o momento, se é a coisa certa. Eu espero estar presente no presente e reconhecer os presentes que a mim estão sendo dados, hoje. A vida é surpreendente e cheia de significados ocultos.

Eu me cuido sendo feliz e satisfeita com o que é e trabalho para me abrir e me disponibilizar para o que possa vir. Eu espero que você chegue para partilhas e caminhadas lado a lado. Porque se preciso de alguém para me salvar, esse alguém só pode ser eu.

Ser feliz é a arte de deixar coexistir

Olá, meninos! Olá, meninas! Olá, menines! Vamos finalizar essa trilogia com uma frase maravilhosa que eu mesma inventei (mas cujo conceito você já deve ter visto em muitos lugares): ser feliz é a arte de deixar coexistir. Eu comecei a refletir sobre isso há um tempo, assistindo a um vídeo da Cecilia Dassi (conhece o canal dela? Recomendo!). No vídeo, a Cecilia comenta o livro A Parte que Falta, do Shel Silverstein (lembra daquele livro infantil que bombou nas redes sociais e esgotou nas livrarias depois que a Jout Jout o leu, em seu canal? Então: é esse).

Esse vídeo clareou boa parte da minha escuridão a partir de uma informação valiosa que a Cecilia me deu: o lugar da falta e o lugar do preenchimento podem coexistir. Essa situação pode ser permanente e, ainda assim, tudo bem. Do contrário, corremos o risco de estar, sempre, correndo atrás do que falta e isso pode nos roubar as condições e os momentos de sermos felizes, hoje. Ao mesmo tempo que falta alguma coisa (e precisamos ser fortes para lidar com isso) outras partes estão sendo preenchidas.

Há beleza nisso: a falta é necessária. Ela nos faz aprender. Ela nos faz evoluir. Ela nos faz sensíveis o suficiente para estarmos prontos para ouvir. Ouvir Deus. Ouvir o universo. Ouvir a nós. Ela nos prepara para as descobertas das quais necessitamos. Por isso, ela precisa existir. Essa informação me deu uma certa paz mas, ao pensar sobre isso, eu relacionava com coisas ou com pessoas. Lindo mesmo, foi quando comecei a pensar nisso como um estado de ser.

Você pode ficar triste. Você tem esse direito. Mas você não é essa tristeza. Você, também, é a alegria de poder fazer o que gosta. Você pode ficar frustrado. Mas você não é frustração. Você, também, é todas as conquistas que já teve, na vida. Você pode ficar com raiva. Mas você não é essa raiva. Você, também, é a paz de chegar no seu lugar favorito e poder descansar. Consegue perceber a grandeza disso? Não precisamos correr como desvairados atrás de resolver o que é dor. A dor pode ter o seu lugar. Ela pode conviver com o que é alegria, paz, felicidade, satisfação. Está tudo bem. Ela existe por alguma razão. Ela tem um tempo certo para sair, para se resolver. Você não é dor. Você é (e deve ser) o seu próprio suporte, o seu próprio amor (ou amor próprio), o seu próprio cuidado, a sua própria satisfação, admiração. Você pode dar conta de si.

Ao ter plena consciência disso, ao viver isso, nada que venha de fora de você vai poder te derrubar. Você pode, até, envergar, mas não vai quebrar, como escreveu Lenine. Porque você terá o máximo de conhecimento possível a seu próprio respeito e isso vai te facilitar a cuidar e a proteger a si. Você poderá sentir a energia de quem está olhando troncho ou, até mesmo, de quem não gostaria de te ver nessa sintonia. Mas como você estará focado em si, nada que não se encontre dentro de si terá força para te atingir (mentalizar uma luz branca protetora ao seu redor, também, é bom e não custa nada. Funciona, viu?).

É isso amados. Que os vossos corações sejam seus guias.

Tempo de construção

Pela primeira vez
Em anos e anos virados
O ano virou e eu não senti
No meio do peito, um buraco

Nada de dor, nada de falta tua
Nada de horror, só minha alma nua

Ao lembrar do ano velho
Onde tanto me despedi
Penso que ser adulto
É, também, aprender a deixar ir

A dor ensina, isso é certo
Ensina quem queremos ter por perto

E o meu sentir sairá
Em lugar seguro de se deixar
Eu escrevo e canto o que vivo
Me traduzo porque preciso

Deixo ser quem sou eu
Deixo ver quem o tempo de construção escolheu

Querido, pode ir, apesar de tudo

Quanto tempo faz que você terminou comigo sem dizer uma palavra? Quanto tempo faz que eu fiquei, ali, como se estivesse a espera de uma resposta, uma explicação, uma confirmação que fosse, sem entender? Quanto tempo faz que eu fiquei me culpando, procurando o erro em mim, forçando a minha barra para não ficar com raiva de você? Quanto tempo faz isso? Não vou contar nos dedos. Para mim, foi tempo suficiente pra eu me reestruturar no meio do caos.

Nós fomos uma repetição desnecessária para minha coleção de traumas e necessária para a minha evolução de alma. Em você, encontrei, gratuitamente, o que eu precisava modificar em mim. Por isso, para quê vou te responsabilizar por não aguentar ouvir um “não” ou sair correndo, sem dar explicações diante de uma situação contrária ao que você quer se eu era, exatamente, assim? Quando é o outro cometendo os nossos erros é mais fácil apontar e julgar. Difícil mesmo é tomar a responsabilidade, engolir seco e dizer: eu estou olhando para mim quando olho para ele, eu estou recebendo, exatamente, o que emanei.

A culpa não é sua… Não te faz, suficientemente, inocente para me ter de volta, mas isso não é sobre você. Sou eu. Eu sei o que é estar no corpo de alguém que se defende fugindo. Eu sei o que é não saber lidar com aquilo que não planejei. Eu sei o que é ir embora sem dizer uma palavra. Você não foi homem pra mim: não me disse adeus, não me disse porque acabou, simplesmente seguiu sem mim depois de tanto tempo me seguindo. Mas eu não vou perder meu tempo te responsabilizando pelo que eu atraí. Não se inicia qualquer envolvimento com sentimentos negativos no peito. Eu fiquei com você porque não tinha mais esperanças de encontrar quem me merecesse, eu fiquei com você sentindo medo de sofrer, eu fiquei com você me sentindo insegura, eu fiquei com você querendo acreditar nas minhas mentiras. Eu não vou te culpar por ter correspondido às minhas más expectativas.

Eu te deixei ir embora e me despedi com amor e carinho naquela noite, em frente à praça, depois de um dia normal, sem você saber. Eu amo você, apesar disso não mudar fato de que não servimos um para o outro (e como é ruim admitir isso). Eu quero que você seja feliz. Sempre que o ciúme e a saudade baterem, eu vou cancelá-los e tentar preencher o vazio com amor-próprio.

Sobre ser uma mulher, dentre tantas outras incríveis

Texto escrito em 2015. Quem sabe, ainda, atual.

Menina, o passar dos anos irá te mostrar o que é deixar de ter um vínculo de responsabilidade mas, em alguns termos, considerado acolhedor e afetuoso como o colégio, a faculdade. O tempo vai te colocar em frente à necessidade de se perder pra poder se encontrar. Num piscar de olhos você terá uma série de responsabilidades pra dar conta e não poderá se questionar sobre conseguir ou não. O tempo só vai te fazer tentar porque estão te pagando pra isso.

Num piscar de olhos, aquelas rodas de amizades confiáveis, aquelas inúmeras possibilidades (aparentemente, intermináveis) de encontrar seus companheiros de guerra, aquele contato constante que preenchia seu tempo com mensagens, trabalhos em dupla, em trio, em grupo, aquelas saídas frequentes que misturavam sua vida profissional com a pessoal porque ao seu lado, aprendendo, também, estavam os seus amigos, tudo isso vai caminhando para um campo mais raro. Sua vida, agora, é trabalho, às vezes, trabalho e estudo mas é um estudo mais consciente do que você quer. As amizades continuarão, e você precisará ser forte para mantê-las vivas através de ligações sem motivo e cumprimento de promessas de reuniões, também, sem motivo. Você aprenderá a ser amiga das pessoas não porque são vizinhos ou colegas de turma mas, apenas, porque você os ama e os quer por perto, ainda que não haja nenhum vínculo que te obrigue a continuar os vendo. É aí, meu amor, que você irá se percebendo adulta.

O passar dos anos vai, também, te ensinar a ganhar dinheiro e a gastá-lo com a mesma responsabilidade que você vem guiando a sua vida sem entregar suas rédeas aos seus pais. Mas é aí que seus pais mais estarão presentes, já diria Belchior. Sua criação vai refletir bem nos seus valores e em como você viverá sua liberdade. Você não precisará de permissão para se locomover, para aceitar convites, para gozar da companhia das pessoas que você queira, para obter produtos que você ache necessário ter desde que tenha honra pelas saias que veste, como diria vovó (pode ter honra pelas calças, shorts, vestidos e macacões também, é claro!). Isso quer dizer: desde que seja responsável por suas escolhas, desde que assuma as consequências de suas decisões. E você irá saber fazer isso.

Amor, você vai cair e levantar várias vezes. Vai, então, aceitar que a vida é feita disso, não temos o controle sobre tudo. Aí, então, você se perceberá independente, madura, dona do próprio nariz. Aparentemente, nada faltará até que todo esse amor com que você vem se educando, se policiando, se respeitando nesse mundo tão maluco, tão cheio de possibilidades, vai te pedir um carinho mais transbordante. Você é linda, todos sabem, mas vai aprender a gostar de se cuidar. Não pelos homens (mulheres), namorados (as), pretendentes. Essas são experiências que fazem parte, nós sabemos. Mas você vai saber que elas não te fazem uma mulher. Uma mulher não é feita, apenas, de conhecimentos sobre sedução ou sexo. Não… Pra ser mulher, não basta dar. Você vai aprender a amar seu corpo, respeitar sua essência, sua beleza, sua fortaleza gigante em formato de meiguice. Aí, amor, você vai refletir essa “você” inteira na forma como arruma e trata os cabelos e como só você tem o jeito próprio de passar as mãos neles, durante o dia. Essa “você” estará nos produtos que escolheu pra sua pele e no tempo que gasta, com carinho, cuidando e embelezando ela. Esta “você” estará nas roupas e calçados que o seu suado dinheiro está comprando, aqueles que se parecem mais com sua forma de ser, de andar, de falar, de se mexer.

Aí, amor, sentindo sua alma dentro do seu corpo e olhando com carinho para o seu espelho, você sentirá a dádiva de ser adulta, de ser independente mas, acima de tudo, de se sentir mulher. Seja bem-vinda “eu”! Outras mil “eus” pré e pós existentes estavam à sua espera. Outras mil mais aguardavam o que você teria para se completarem. Agora, você sabe que não se trata de ter orgulho de ser mulher. Você tem orgulho de quem se tornou, do que construiu e do que conquistou, no mundo de hoje, sendo mulher. Parabéns pra mim. Parabéns pra vocês.

Querido, chega.

Nada do que eu escrever, aqui, será racional. É o meu sentimento que está falando mais alto e eu, jamais, teria a coragem de conversar, por mais uma vez, sobre isso contigo. Compreendo que posso estar causando sofrimento a mim mesma. Ninguém tem responsabilidade com os nossos sentimentos. Eu sei que cabe a mim entender e gerenciar o que sinto. Mas a dor, meu caro, tem causa na tua presença, na nossa convivência, com o que permito que faças comigo.

Não digo isso com prazer ou alívio. Não existe pessoa que esteja sofrendo mais do que eu ao perceber isso. Mesmo sabendo que não tenho teu amor, eu permiti que continuássemos amigos. Mesmo sabendo que não me queres, eu permiti que continuássemos próximos. Mesmo sabendo que você tem a mania de alimentar e iludir, eu permiti, por inúmeras vezes, que esta dor adentrasse e me esmagasse por dentro. Eu tenho, sim, carinho e amizade inexplicáveis por ti, mas olha só o que eu estou fazendo comigo… Acredito que tu, também, tens consciência do quanto esse teu movimento me faz sofrer, mas nunca o cessarás enquanto eu não tomar uma atitude de verdade. É muito triste, pra mim, ter que admitir isso, mas tu não tens amizade por mim a ponto de ter cuidado com o que eu sinto, a ponto de se importar com o que digo, a ponto de lembrar de mim. Quem ama um amigo não o machuca. Acho, ainda, que, se um dia tivestes respeito e consideração a mim, os perdestes a medida que eu não tive respeito e consideração por meus sentimentos e por meu coração.

Caí num ciclo vicioso que compreende permitir que te aproximes quando estou bem na tua ausência, depois me encantar com nossa proximidade, teu jeito de seduzir, tua maneira de conversar e, depois, logo depois, sentir uma pontada forte no coração causada pela percepção de um afastamento brusco. Tu te aproximas, bruscamente, de mim e me iludes com a intensidade de teu movimento e, logo em seguida, tu te afastas, também bruscamente, como se não te interessasses mais, como se estivesses arrependido, como se não te importasses com o que eu sinto. E se me magoei, por anos, com isso, recebi interrogações de retorno, me passastes a ideia de que não te davas conta do que estavas fazendo e que, na verdade, sentias apreço e carinho por mim. Em todas as vezes que recebi essas informações, eu acreditei. O que sinto por ti é tão grande que chegou a passar por cima de minhas próprias feridas.

Contudo, se alguém é capaz de perdoar, sem solicitação alguma da outra parte, só porque não consegue suportar a hipótese de não ter mais aquela pessoa em sua vida, se alguém é capaz de se magoar de maneira profunda pra depois levantar e, em seguida, dispor-se a ser ferido novamente, é porque esse alguém está com problemas sérios de autoestima. Permitir-se ficar num lugar previsível onde o outro faz o movimento que quer porque sabe que tem liberdade total pra isso e porque nunca irá perder o comodismo de ver a outra parte retornar é, no mínimo, perder-se do seu próprio valor.

Agora, eu sei que não receberei mensagens tuas, não te verei vindo correr atrás de mim porque minha angústia, minha dor e meus sentimentos perderam o valor que têm para ti. A culpa é minha. Ao invés de reconhecer o momento de me fazer ausente de toda essa história, eu acreditei que eu tinha importância para ti. Por isso, comportei-me como alguém que pode se dar o direito de expor o que sente a fim de ser compreendido. Eu, realmente, queria muito crer que a minha opinião tinha valor para ti. Mas não tem. E nesse ciclo vicioso, eu ocupei o lugar da mulher chata que faz cobranças. Na realidade, eu fui a mulher carente que mendigou atenção e amor.

Agora, cheguei a um ponto de me ver num lugar de onde tu não te importas se te vejo galanteando outra mulher. Começo, então, a não somente fazer comparações entre o que mereço e o que recebo de ti. Comparo, também, quem eras antes, para mim, e quem és agora. “Mas não existe relacionamento entre nós”, dirás tu, dirão os outros. Não. De fato, não existe relacionamento, nem respeito. Primeiramente, porque não adianta mais falar de minhas mágoas, apesar de elas renovarem-se a cada reaproximação. Eu diria que para cada reaproximação há uma mágoa. Mas falar significaria receber ataques teus de retorno, seria ouvir-te dizer, através de inúmeros argumentos forçados, que a culpa de qualquer situação desconfortável, entre nós, é minha. Falar o que sinto, ao invés de promover reconciliação, seria motivo para um festival de acusações. Sim, meu caro, a culpa é minha de não ter ido embora resolver meus sentimentos sozinha. Em segundo lugar, porque um amigo não deve se prestar ao papel de se alimentar do sofrimento do outro.

A verdade é que, sim, ainda sou apaixonada por ti e não posso continuar tentando mentir pra mim e sofrendo com isso. Acho que não preciso me forçar a ser forte permanecendo numa relação que já não me faz bem. No momento em que estava quase, definitivamente, me curando disso, eu voltei atrás. Em primeiro lugar, porque eu sabia que estavas precisando de alguém ao teu lado em um momento difícil. Para mim, sempre foi inconcebível te ver sofrendo e fazer nada. Hoje, entendo que há um tempo pra tudo, na vida de cada um de nós, e tu deves, sim, ter teu tempo para sofrer e aprender, também. Gostaria de ser um ombro amigo dentro de uma relação saudável, para ti… Em segundo lugar porque, lá no fundo, sem notar, me deixei levar pela tua forma de lidar comigo que nunca deixou de me revelar rastros e esperanças de que, um dia, irias gostar de mim. Agora vejo que era, apenas, uma forma, de me manteres no teu banco de reservas como o deves fazer com tantas outras. Mas nunca irás te culpar por confundir os sentimentos de uma pessoa e ir embora pois pecado, mesmo, para ti, seria se tivéssemos nos rendido aos prazeres carnais e, em seguida, tu me deixasses. Magoar o coração de uma pessoa não conta.

A verdade, talvez a maior verdade de tudo isso, é que somos duas pessoas tentando ser melhores e cometendo erros e acertos. Eu não devo te culpar por não saberes lidar de outra forma com esta situação. Também, não devo me culpar por não saber o que fazer. Talvez, eu precise de um tempo longe deste ciclo para me entender e me curar. Preciso provar pra mim que eu tenho amor-próprio. Só não sei como fazer isso. Como vou me curar? Como posso apostar que tudo pode não voltar se eu te reencontrar? Estaria eu fugindo, desfocando, deixando mal resolvido? Não sei. Isso tudo é tão forte que não me permite saber, com exatidão, o que fazer de verdade. Eu só sei que essa dor, que tem se repetido por tantas vezes, quer me dizer algo.

Pai, são 10 anos sem você.

Paulista, 13 de dezembro de 2017

Eu era uma menina e dependia de você pra tudo. Ainda recém-chegada na maioridade, lembro que meu mundo girava em torno de você. Depois que você partiu, era como se eu não tivesse mais sonhos porque todos os sonhos partiram com você. Eu queria me formar pra te mostrar o diploma, eu queria me casar pra você entrar comigo na igreja de braços dados, eu queria ter boas condições financeiras pra te causar orgulho, pra poder te dar uma vida melhor. Você era (e é) o meu herói e eu dependia, completamente, da admiração, do cuidado e do amor que você me fornecia. Não pense que, ao décimo ano de tua partida, eu deixei de sentir falta de ouvir tua voz dizendo “filha, eu te amo, tá?”, “amôor, eu te amo, tá?”, papai tá indo, eu te amo”. Todos os dias, eu ouvia a pessoa que eu mais amava, no mundo, me dizer “eu te amo”. Por muitas e muitas vezes, me culpei pelas vezes em que sentia que era excessivo mas nunca, pai, duvidei da veracidade do seu amor. Era um amor em que eu podia confiar e me aninhar.

Depois de seis meses, criei coragem pra falar com você, pela primeira vez, depois que você me deixou. E foi escrevendo, como faço agora e passei a fazer pelos dez anos seguintes. Ao escrever, pude me encontrar em muitos pontos. Então, decidi, firmemente, que não te transformaria no motivo da minha morte mas na minha razão de viver. E fomos lá eu e todas as Claras que existem em mim te fazer presente em cada nova vivência, buscando a força nesse DNA que nos une, procurando continuar te proporcionando o sentimento de orgulho porque a tua filha não suportava (e nem suporta) a ideia de que teus olhos não pousam mais sobre ela. Eu te fiz e te faço vivo em todos os momentos em que sei que a tua presença é crucial. Não pense que ao décimo ano de tua partida tornou-se mais fácil não ter um pai presente em matéria.

E no imenso vazio que ficou não ver, não ouvir e não abraçar aquele amor e aquele suporte todo que não me faltava, eu procurei você em outras pessoas. Eu sofri um bocado. Eu pirei um bocado. Eu superei um bocado. Eu aprendi um bocado. Também, fui feliz mais um bocado. Recentemente, eu ouvi a Alexandra (Solnado) dizer, na internet, que “se o que te faz arder está do lado de fora, a vida vai ter que te tirar. Somente assim, poderás descobrir a tua lenha interior”. Por muito tempo, carreguei, dentro de mim, uma reflexão certa e rígida de que tua partida tinha um propósito e que eu o havia descoberto. Pensava que a partir da tua ausência, eu cresci forçadamente aprendendo um monte de coisas necessárias sobre como domar a mim mesma, como entender meus motivos, como enfrentar meus monstros, como alcançar meus objetivos. Mas a verdade é que eu demorei dez anos pra descobrir que é muito mais que isso, pai. Talvez, muito mais do que eu consiga escrever.

Você partiu e me obrigou a entender que o centro da minha vida não pode estar fora de mim, não pode morar em outra pessoa. Eu, simplesmente, não poderia deixar de entender que meu subconsciente queria substituir o insubstituível pra que aquela dor doesse menos. No entanto, muito mais honesta e muito mais assertiva estarei sendo eu comigo mesma se aceitar a dor, deixá-la doer e tentar seguir em frente, mesmo assim. Porque a vida tem beleza, apesar do sofrimento. E porque o sofrimento é meu, faz parte de quem eu sou, e somente eu posso arrumar uma forma de lidar com ele.

Eu me reinventei. Reinventei meus sonhos e sinto que estou prestes a me reinventar, novamente, às custas de muita coragem pra enrugar a pele da minha face e chorar, porque agora eu sei que tudo bem errar. E se nas decisões de antes me senti mais próxima de quem eu sou, agora eu quero estar plenamente centrada em mim. Eu entendi que não posso descuidar desse jardim interior, dessas cores do meu ser, desse mundo que me pertence. Não posso deixar de me dar tudo o que, um dia, desejei receber, principalmente, porque eu quero ser capaz de oferecer esses presentes silenciosos que trazem abundância e felicidade para a vida das pessoas. E, por mais cliché que seja dizer isso, como posso dar o que anda tão devastado? Eu entendi, que não posso ser negligente com tantas Claras interiores que precisam de mim. Eu preciso de mim. Eu preciso me abastecer de mim. Eu preciso me dar amor.

E escrevendo isso, penso na coragem e no medo de me expor. O medo tem sido uma constante. Ao pensar em medo, lembro de Flaira (Ferro) que, uma vez, escreveu: “mas se eu não tiver coragem pra enfrentar os meus defeitos, de que forma, de que jeito eu vou me curar de mim?”. Ao pensar num ano tão difícil com tantas provações, com tantos motivos pra jogar a toalha, onde toda mudança e todo crescimento, somente eu posso ver, penso na necessidade absurda e desnecessária de querer provar algo pra alguém que não seja eu mesma. Pai, eu quero que você saiba: minha oração pede pra que a minha segurança se apóie na minha capacidade de ser, completamente, quem eu sou em essência; minha oração pede respeito por todas as pessoas, sem julgamentos e com liberdade; minha oração pede pra que o amor seja verdadeiro e motivo de bem-estar; minha oração pede pela entrega dos medos que paralisam; minha oração pede movimento, luta e fé.

Eu estou comprometida com isso e te digo, pai: eu quero viver. Eu quero ter tempo de fazer mais momentos valerem a pena, quero os pés fincados na realidade presente e a cabeça projetando tudo o que eu for capaz de realizar. Quero ter a oportunidade de sentir as pernas tremerem mas, respirando fundo, escolher que elas vão caminhar. Eu te prometo que vou aprender porque eu sou tua filha. E porque você vive, pai. Você vive em mim.

Com amor e saudade,

Clara.

Querido, eu estou te esquecendo

Querido, tenho aprendido que não preciso ir tão longe para modificar o mundo ao meu redor. Se eu quiser, mesmo, alguma transformação em minha vida, preciso começar pelo meu interior. É engraçado porque, enquanto não preciso me deslocar a lugar algum, preciso mover quantidade de força e energia absurdas para vencer a mim mesma. O mal começa dentro da gente e a pior luta de se travar, nesta vida, é a luta interior.

Tenho tentado lutar contra os pensamentos que me levam até você, incessantemente, e confesso que isso tem sido cansativo. Sou eu brigando comigo mesma, o tempo inteiro. Sou eu querendo o melhor pra mim, querendo te esquecer, querendo me curar do vício de incluir você, no meu presente, de alguma maneira. Sou eu sofrendo por saber que estou me maltratando ao querer tanto uma pessoa que não me quer de volta. Sou eu dizendo a verdade para mim e calando a vontade de te procurar.

Por vezes, deslizo na vigília do pensamento permitindo com que a imaginação corra solta. Penso como seria bom se você me quisesse, também. Volto para a realidade, puta da vida, porque me causei mal, por mais uma vez. Descuidei e mim e puf! pensei em você. E logo tenho que me perdoar pra voltar para o campo de batalha, novamente, porque um novo pensamento virá.

Essa guerra ninguém pode travar por mim. É preciso muita coragem para enfrentar a si mesmo, assumindo as responsabilidades. Sei que muitos fogem disso, até mesmo, sem perceber. A cada batalha vencida por cada pensamento negado, a cada oração realizada em que peço paz de espírito e iluminação, a cada mínima força garimpada para reagir e procurar outros planos, outros sonhos, eu sinto orgulho de mim.

Querido, você não precisa saber. Você pode guardar a imagem do tempo em que paguei de otária, dei chances, corri atrás. Não faz mais diferença. Eu estou te esquecendo. Sinto que está sendo de uma forma madura, sinto que vai ser no silêncio, sinto que vai ser sofrido e gradativo, mas vai ser de vez.