Não se abandone

Clara, eu vi você decidindo ser uma pessoa nova. Vi você, às custas de muita dor, abandonar um amor que te fazia morrer, aos poucos, por dentro. Vejo você percebendo, observando, conhecendo, lidando com o seu movimento de ansiedade. Eu vejo a sua luta para alcançar o silêncio. Eu vejo a sua luta para alcançar o movimento, sem perder o silêncio. Isso é coisa para os fortes. Percebo que você cai e é natural cair diante das dificuldades. Você conhece a importância de chorar, de desabafar, de jogar fora o que sufoca por dentro. Eu já te vi debilitada, emocionalmente, mas tenho orgulho de lembrar de todas as vezes que você decidiu levantar. Todas as vezes que você não desistiu de si.

Eu vejo você matutando, refletindo, ressignificando as relações complicadas, procurando o que pode ser modificado, em si, para ter paz. Acho justo e assertivo que teu maior objetivo, na vida, seja ter paz de espírito. Vejo você lutando, arduamente, para ser livre. Não importa se obteve ou não sucesso, até aqui. Permita-me dizer o quanto é lindo uma pessoa se esforçar e querer, com todas as forças, a liberdade.

Reconheço o longo caminho, reconheço o sentido que, muitas vezes, não se vê. Reconheço os passos duvidosos que não são dados. Essa coisa de se conhecer, de se tornar dono de si depois de tanto tempo sendo vulnerável à vontade de segundos ou terceiros é uma aventura assustadora. Eu estou contigo em cada imprevisto, em cada topada, em cada choro.

Estamos, juntas, lutando para viver, contemplar, ser feliz no hoje, no agora. Estamos enfrentando, por uma primeira vez, o desafio de descobrir cada mínimo sinal da ansiedade que prejudica, que rouba nosso tempo, no dia a dia. Queremos acolhê-la, entendê-la, entregá-la para o poder maior. Queremos dar conta do que a nós compete. Queremos confiar o que não entendemos ao poder universal que, sempre, sabe o que fazer. Queremos construir um relacionamento de confiança, de consistência, de beleza. Oramos por paciência, resiliência, força, sabedoria, coragem e serenidade.

Eu vi você frágil diante de um problema difícil. Mas vi você forte no momento crucial de entrega. Eu não vou te abandonar, Clara.

Do eu para o ego.

Esse tudo que cabe num só fuá

Clara, ainda lembro das vezes em que tua avó gritava contigo na tua infância: “olha, vai-te embora arrumar aquele teu fuá, lá no quarto!”, coisa que ela fala até hoje porque não consegue perceber que és uma mulher. Uma vez, João, teu primo segundo mais amado de, apenas, cinco anos de idade, presenciou um desses rompantes da senhorinha que, mais uma vez, como se o tempo não tivesse passado, respondeu da seguinte maneira ao ser questionada sobre o paradeiro de algum objeto pessoal que não estavas achando: “deve estar naquele teu fuá perto da cama”. Não esqueço dos olhinhos curiosos de João que, imediatamente, pergunta: “vovó, o que é fuá?”

Fuá é um estalo forte que tocou na tua cabeça ao ouvir as histórias de Marília pela boca de Marcela. Marcela dizia: “nem sei mais por onde andam minhas coisas de unhas. Marília pega e enfia naquele fuá dela. Ninguém acha”. Fuá!, tu pensaste. Uma palavra pequena e engraçada que o dicionário não soube traduzir. Imagine, seu Michaelis anda dizendo pela internet que fuá é um substantivo masculino que significa “conversa ou comentário maledicente; mexerico, intriga”. Pior, ele diz que fuá é uma palavra regionalizada que quer dizer “caspa, pó muito fino que se desprende da pele quando arranhada”. Não, seu Michaelis. Eu não aceito ler o senhor dizendo que fuá é um “aruá, uma acepção de acordo com a zoologia”. Sei nem o que é aruá, meu senhor! Muito menos faço ideia de que fuá é um adjetivo de dois gêneros que traduz uma “montaria manhosa e espantadiça; puava”. Ou um cabra “que é metido a valente, valentão”.

Fuá, no Nordeste, é bagunça, minha gente! Fuá é o emaranhado que Clara faz de seus livros em cima da cama. Faz até hoje, com muito prazer, porque não tem fuá mais gostoso, para ela, do que leituras e mais leituras tomando conta do espaço. O fuá de Clara só pode ficar melhor quando ela pega o violão e senta ao redor de seus livros e partituras. Ali, canta e toca. Fuá é essa mistura de falta de tempo com muita coisa pra fazer mais todas as coisas que gostaríamos de fazer mas a fisiologia traduzida em cansaço não permite.

Em tantas e tantas tentativas de se reorganizar, uma coisa eu sei, Clara: tu nunca deixaste de sonhar. Teu lado escritora adormeceu quando o jornalismo despertou em ti, mas guardaste as sementes dele bem guardadinhas, esperando a hora de germinar. Teu lado cultural jornalístico só aflorou com o contato frequente com o mundo da música. Quando os dois lados estavam maduros, foi de repente que percebeste que o Fuá de Clara estava ali, pronto, diante de ti. Anotações de sonhos adormecidos do diário se uniram a anotações de sonhos adormecidos de jornalismo. Eis que um fuá se fez misturando aquilo que és com a promessa do que virás a ser a partir desta experiência.

Eu, nunca te disse isso, Clara, mas… parabéns. Pequei muitas vezes, ainda peco sempre que não pego na tua mão para caminhar, sempre que não consolo a menina medrosa que há em ti, sempre que te julgo e te puno quando, na verdade, eu deveria ser a primeira a te estimular e encorajar. Eu nunca te disse isso, Clara, mas… você tem talento. Eu preciso te dizer isso porque sei que isso vai multiplicar tuas forças. O amor tudo multiplica. Você está aprendendo a se amar. Eu estou vendo, eu estou sentindo, eu estou sofrendo com você e eu prometo fazer meus esforços para, nunca, te abandonar sozinha, de novo. Eu sei que você precisa de mim assim como cada pessoa precisa de si mesma. Eu nunca te disse isso, Clara, mas você tem quantidade absurda de força. Não é feio ser guerreira, não é feio lutar, não é proibido sonhar.

Fuá de Clara, amanhã, completa um mês de existência. Vamos celebrar cada mesversário e aniversário deste blogue bebê que, no auge de seus trinta primeiros dias, com 11 publicações, tem 721 visualizações, 276 visitantes e 5 maravilhosos seguidores. Teve gente dos Estados Unidos, da Irlanda, de Portugal, do Canadá, do Reino Unido, da Eslováquia, da Argentina e do Uruguai dando uma olhada nos textinhos. Mas nenhum resultado numérico que provenha disso vai conseguir traduzir a satisfação e a emoção de estar vivendo um sonho. Essa coisa de escrever te é intrínseca e eu conheço o tempo que esperastes e o que tivestes de adaptar para chegar até este momento.

Clara, eu nunca te disse isso, mas eu tenho orgulho de você.

Do eu para o ego.

Não espere para ser feliz

O que eu aprendi com onze dias de molho, em casa, e o que eu descobri a respeito do propósito de cada dificuldade

Dois dos autores que mais admiro escreveram que em toda dificuldade está contida uma oportunidade. Sendo assim, os acontecimentos vistos como ruins, na realidade, nos convidam a enxergar a situação por um ângulo diferente, aquele que está nos empurrando para um lugar mais adiante. Portanto, cada dificuldade nos causa uma mudança de lugar e nos ajuda a chegar mais perto de onde deveríamos estar. Confesso que tudo isso faz muito sentido mas também é um exercício árduo de reprogramação da mente.

Eu, por exemplo, não conseguia ver vantagem nesta gripe que peguei, recentemente. Já são onze dias. Fiz uma viagem a trabalho e ganhei este presente. Chamar de gripe seria eufêmico de minha parte. Primeiro veio a coriza de toda gripe junto com uma moleza no corpo, um ar de quentura por dentro e uma dorzinha leve na garganta. Na volta da viagem, a coriza evoluiu tanto que me obrigou a respirar pela boca, a dorzinha leve na garganta evoluiu para uma infecção, o ar de quentura me deixou febril e, quando não esperava mais nada, fui pega de surpresa com dores nos ouvidos (um deles acabou tapando) e conjuntivite (creia!).

Em cinco dias de trabalho, só consegui estar presente em um (e nem o deveria ter feito, o esforço de andar em pé dentro de um ônibus cheio em um trânsito caótico de uma viagem intermunicipal pode ter me ajudado a piorar). Repousei muito mas, a cada dia, acordava pior (pode isso, gente?). Dormir, que é tão bom, transformou-se em uma atividade dolorosa (quem é que dorme com o nariz escorrendo, o ouvido doendo, a garganta em fogo que nem engolir a pessoa pode?).

Fora todas as atividades que ficaram pendentes, todas aquelas coisas que tenho vontade de fazer no meu tempo livre e o cansaço nunca me deixou, um semestre de estudos prestes a recomeçar, alguns médicos de outras especialidades para remarcar, exames a se fazer… A rotina, de repente, foi se transformando em horário controlado de remédios, emergências médicas, comer, obrigatoriamente, nos horários certos mesmo sem sentir o gosto, Netflix e cochilos. Bem que eu queria fazer outras coisas mas não havia energia. A saúde é, mesmo, nossa maior riqueza…

Na minha cabeça, o tempo todo, rondava uma pergunta: por que, meu Deus? (É, por quê?). Por que ficar doente de um monte de doenças, ao mesmo tempo? Por que tanto tempo em casa sem utilidade alguma? Por que tantas dores diferentes e concomitantes no corpo? Eu estava de saco cheio neste décimo primeiro dia de doente quando, enfim, me lembrei que essas doenças me levaram até este blogue (aquilo que eu estava dizendo no primeiro parágrafo…). Ter um blogue é um sonho antigo, bem de antes de eu me tornar uma jornalista (e olhe que já são alguns anos de carreira, viu?). Em anos, tentei torná-lo real. Mas eu sou exigente. Queria chegar chegando. Queria começar com capital pra investir, oferecer um visual lindo e profissional, um conteúdo maravilhoso.

Em anos, só pude aprimorar o conteúdo, mesmo (kkkkkk não falemos de capital). Como não gosto de iniciar projetos sem planejamentos, havia esboços engavetados, milhões de ideias guardadas e um vozinha latejando na minha intuição me pedindo para passar por cima de todas as dores que estou sentindo, pegar o notebook e fazer um blogue. Sabe, foi do nada.

Dizem que arriscar atendendo a voz da intuição, nunca, dá errado.

Eu procuro, sempre, me conectar. Vou fazer um blogue, disse eu para mim mesma. Em três dias, tudo fluiu como nunca aconteceu nesses anos todos. De repente, desfiz um projeto de site salvo na internet que eu estava montando e refiz outro com ideias prontas e possíveis de aplicar. Nem me decepcionei com o que encontrei na plataforma gratuita. Tudo o que eu queria, eu consegui colocar. Foi como reger uma orquestra. Um daqueles meus autores prediletos chama isso de ação correta espontânea que, na nossa língua, se chama o momento certo.

A vontade de escrever era tanta que diminuí minhas exigências. Gente, eu não tenho dinheiro para me comprometer com um domínio (creia, jornalistas não ganham tão bem e, neste momento, tenho algumas prioridades financeiras. Sim, eu estou justificando essa minha escolha porque eu sei que um domínio é barato, pelo menos, é o que dizem, pois nem me lembro a última vez que pesquisei a respeito. Sim, eu estou me importando com o que você vai pensar, principalmente se você me conhece. Não faça isso, em casa!) muito menos para um desenvolvedor de site. Tenho planos maravilhosos para criar um site para mim mas não é o momento de colocá-los em prática. Estou morrendo de vontade de voltar a escrever!

Sabe, antes de aprender a escrever dentro do gênero jornalístico, eu enchia meus cadernos de poesia, textos em prosa, crônicas, histórias. Eu amo Literatura, eu amo ficção, eu amo a arte de brincar com as palavras. O Jornalismo meio que me castrou, mas ele não tem culpa, tadinho… Hoje, vejo que o Jornalismo me deu de presente muitas coisas e, atualmente, eu sou a soma de todas elas (o assunto do primeiro parágrafo voltando, novamente). Contudo, eu nunca deixei o diário (vai, me julga, mas vou explicar, mesmo assim). Ter a prática de escrever em um diário significa, para muitas pessoas, uma atitude juvenil de garotas que precisam desabafar seu segredos. Para mim, sempre, significou uma maneira de viver um pouco da minha intensa necessidade de escrever (como você pode perceber, se chegou até aqui, eu escrevo muito kkkk).

Eu amo escrever. Acima disso, eu preciso escrever, entende?

Por isso, o Jornalismo, os anos de perfeccionismo, os planos engavetados e a gripe, nada disso foi em vão. Todas essas fases me trouxeram até este momento onde estou passando por cima da dor, da agonia do ouvido tapado e da tosse seca para escrever o meu primeiro e longuíssimo post. Por que estou feliz?, pergunto eu para mim mesma. Sabe como é, um blogue gratuito, sem investimento de divulgação, o brasileiro nem lê tanto assim…

A resposta é simples: eu estou feliz porque pus em prática a ideia de um sonho antigo com as armas que eu tenho, neste momento.

Agora, estou na pista e viverei as dificuldades que todo aspirante a blogueiro vive e meterei a cara.

Sabe, esperar as condições ideais para ser feliz pode fazer a felicidade fugir pelos dedos. Eu aprendi que a felicidade vem da verdade interior, ser verdadeiro e coerente consigo mesmo, ter consciência de quem você é e do que você pode, ser satisfeito com o que você tem e, nunca, esquecer que, ao seu redor, existe um mundo de possibilidades. Eu sei que a vida é muito difícil e, às vezes, procurar as cores nas pequenas coisas parece besteira mas nem tudo é só cinza. Este é o meu convite e a minha dica pra você no post de hoje: não espere para ser feliz.