O sentido de transpor muralhas

Eu arrastei o meu cansaço, no feriado. Arrastei as dores corporais de tanto andar e carregar peso do dia anterior. Arrastei, para a frente do computador, a minha vontade de não levantar e de não saber lidar com imprevistos. Arrastei tudo o que era meu comigo como se esse tudo estivesse numa trouxa de lençol. Então, eu decidi realizar as prioridades. Conversei com minha ansiedade e com minha tristeza. Expliquei que nosso tempo de paralisar e tentar se anestesiar com lanches e Netflix era findado. Era hora de enfrentar a vida recriando a luta pelos sonhos. Prioridades. Lá fomos nós, eu e minha bagagem, realizar. Uma coisa de cada vez. Devagarinho. Chegamos. Sobrou tempo para estudar. Enquanto estudávamos, sonhei. Sobrou tempo para trabalhar nos projetos pessoais. Enquanto trabalhava, sonhei. Produzir não, necessariamente, rima com estar bem, emocionalmente. Mas o sentido de transpor as próprias muralhas é tão lindo quanto escrever um poema.

Não se abandone

Clara, eu vi você decidindo ser uma pessoa nova. Vi você, às custas de muita dor, abandonar um amor que te fazia morrer, aos poucos, por dentro. Vejo você percebendo, observando, conhecendo, lidando com o seu movimento de ansiedade. Eu vejo a sua luta para alcançar o silêncio. Eu vejo a sua luta para alcançar o movimento, sem perder o silêncio. Isso é coisa para os fortes. Percebo que você cai e é natural cair diante das dificuldades. Você conhece a importância de chorar, de desabafar, de jogar fora o que sufoca por dentro. Eu já te vi debilitada, emocionalmente, mas tenho orgulho de lembrar de todas as vezes que você decidiu levantar. Todas as vezes que você não desistiu de si.

Eu vejo você matutando, refletindo, ressignificando as relações complicadas, procurando o que pode ser modificado, em si, para ter paz. Acho justo e assertivo que teu maior objetivo, na vida, seja ter paz de espírito. Vejo você lutando, arduamente, para ser livre. Não importa se obteve ou não sucesso, até aqui. Permita-me dizer o quanto é lindo uma pessoa se esforçar e querer, com todas as forças, a liberdade.

Reconheço o longo caminho, reconheço o sentido que, muitas vezes, não se vê. Reconheço os passos duvidosos que não são dados. Essa coisa de se conhecer, de se tornar dono de si depois de tanto tempo sendo vulnerável à vontade de segundos ou terceiros é uma aventura assustadora. Eu estou contigo em cada imprevisto, em cada topada, em cada choro.

Estamos, juntas, lutando para viver, contemplar, ser feliz no hoje, no agora. Estamos enfrentando, por uma primeira vez, o desafio de descobrir cada mínimo sinal da ansiedade que prejudica, que rouba nosso tempo, no dia a dia. Queremos acolhê-la, entendê-la, entregá-la para o poder maior. Queremos dar conta do que a nós compete. Queremos confiar o que não entendemos ao poder universal que, sempre, sabe o que fazer. Queremos construir um relacionamento de confiança, de consistência, de beleza. Oramos por paciência, resiliência, força, sabedoria, coragem e serenidade.

Eu vi você frágil diante de um problema difícil. Mas vi você forte no momento crucial de entrega. Eu não vou te abandonar, Clara.

Do eu para o ego.

Reencontre-se

Paulista, 31 de janeiro de 2018

Pai,

Tenho procurado estar atenta a tudo o que me faz mal. Percebo que, quanto mais madura, mais clara é a revelação de que meu maior inimigo mora dentro de mim. Por muito tempo, estive com a atenção voltada para os problemas externos achando que, resolvendo-os, dentro ou fora de mim, aquilo estaria aniquilado. No entanto, eu descobri que não se trata dos problemas, trata-se da razão pela qual eles vêm e retornam: para me lembrar de que existe um problema interno, o qual eu preciso enfrentar sozinha, mais cedo ou mais tarde.

Percebo que a raiz de muitas desavenças e nós interiores mora na ansiedade. Ao trazer sintomas físicos de difícil controle, é como se as crises dessem a impressão de que o eu não controla o corpo. Contudo, não é só isso. Qualquer mínimo grau de ansiedade ajuda as pessoas a pensar negativo como uma forma de proteção, diante de algum resultado.

Na realidade, usar a força da mente para pensar em algo negativo é uma forma de auto sabotagem.

A ansiedade é obscura, deixa as pessoas inseguras. De repente, na espera por um futuro que, ainda, não chegou, as pessoas questionam-se por sua capacidade e por seu merecimento. Todo o mundo merece ser feliz, mas a insegurança não deixa as pessoas acreditarem nisso. É um estado contrário à liberdade porque as pessoas vivem se preparando para evitar esses sintomas e, ao senti-los, é como se quisessem ter o controle sobre o objeto externo que rondam seus pensamentos. E liberdade é deixar solto, é fazer um movimento de um lado e aguardar de outro, é permitir-se confiar em algo maior que mora dentro de cada pessoa e que se conecta com algo maior ainda, que faz o universo fazer sentido. Confiar, diante de um sentimento como a ansiedade, parece a atitude mais difícil de todas.

A ansiedade faz as pessoas terem medo do futuro baseadas nas experiências que tiveram no passado. Por isso, é uma prisão. É difícil perceber que, quando uma nova realidade aponta, milhões de pré-julgamentos não a deixam chegar. É como se o novo fosse rotulado de velho conhecido indesejável. Então, perde-se a experiência de observar e conhecer.

O medo é uma prisão sem grades. Está suportado num caminho imaginário onde supõe-se que não existirá dor. Medo é controle. Medo é ausência de aventura. Medo é a ausência do eu.

Uma vez, quando fechei matrícula na universidade particular com direito a uma boa bolsa, você perdeu o emprego. As pessoas com as quais convivi por toda a vida ficaram desesperadas e começaram a maldizê-la. Eu, também, fiquei com medo e não conseguia ver saída. Mas você se manteve calmo. Naquele momento, você me disse: “Se perdeu um emprego, aqui, amanhã arrumamos outro. Se perdeu qualquer bem material, hoje, amanhã a gente trabalha e reconstrói. Não há motivo para desespero. O importante é ter saúde”. Eu nunca esqueci aquela cena. Quanto mais, posteriormente, aprendi sobre a vida, lembrei-me dela. É o exemplo mais claro que tenho do que seja ter confiança e do que seja valorizar o que, realmente, importa.

Bens materiais vêm e vão. Bens materiais são o reflexo e a consequência do relacionamento construído, interiormente, consigo.

Tenho tentado, pai, encontrar o equilíbrio entre o silêncio e o movimento. Tenho tentado não parar, não desistir de mim. Tenho insistido em encontrar aquele estado da mente que está em paz, mas também está focado no movimento da mudança. Tenho tentado respirar e dizer pra mim que está tudo bem, independente do que seja preciso acontecer. Tenho tentado expulsar hospedeiros indesejados travestidos de pensamentos negativos. Tenho tentado negá-los. Ao menos, parei para decidir que fazer tudo isso é o melhor, ainda que eu tente lembrar de tudo e, por vezes, não consiga.

Tenho orado… Nas orações, peço flexibilidade. Tento dizer para o meu ego medroso que não sou conhecedora do meu destino, que não sei os caminhos que podem me levar a alcançar e abraçar os meus sonhos, que eu não posso controlar, ainda que queira. Tenho tentado pensar que tudo de bom pode acontecer a qualquer momento, que um mundo de múltiplas possibilidades existe ao meu redor e que tudo está pronto para acontecer no momento certo. É difícil persistir diante de um não da vida… É difícil continuar com o mesmo gás… Mas pensar assim faz com que eu entenda que eu faço parte de algo muito maior e não tenho a obrigação nem a condição de saber de tudo.

Tenho buscado aceitar as pessoas. Dar liberdade a elas, também, para serem o que são e o que querem ser. Quando a mágoa invade, isso se transforma num desafio e tanto. Mas, na busca pelo silêncio interior, tenho escolhido e insistido em não julgar, ainda que seja uma tarefa muito difícil. Silenciar e observar, às vezes, é a resposta para muitas situações. Tenho pedido para ouvir. Quero estar próxima do meu coração. Quero arriscar segundo o que a pequena e doce voz que fala dentro de mim. Quero merecer as melhores intuições. Quero mudar, pai… Compreendo que tentar algo diferente pode mudar a ocorrência das mesmas coisas.

Conto com o teu olhar sobre mim, a tua torcida, o teu amor. Se a saudade não existisse, você estaria aqui, quem sabe, a me ouvir sobre todas essas questões. Não me importa mais ir pelo caminho certo (o que seria maravilhoso), me importa, antes de tudo, mudar de lugar e descobrir algo novo. Quem sabe me reencontrar.

Com amor e saudade,
Clara.