Faca de ponta afiada

Salustiano de Zequinha aparentado ainda de Felício das Grotas da Tapera-Ribeiro Grande abaixo meia légua farinha do mesmo saco de Tomázio carregador de jerimum e pegador de fura-melancias do Sítio Capim de Baixo assuntando de tudo um pouco falador contumaz silente de momentos apenas pegador de burro brabo de não levar desaforo pra casa falou: pirraça comigo não tem cabimento cisca-cisca é perda de tempo não sou de briga nem procuro mas não abro parada pra ninguém!

Disse isso enquanto bebericava aguardente de cabeça com raiz de cura bem curtida no boteco de estrada égua baixeira apeada na porta tardinha mortiça de sol entreaberto espiando por meias nuvens porosas e esvoaçantes.

Teimosia de tempo quente se quedava com o sol ouvindo o apito entrecortado de espanta–boiada entocado em moitas braçadas por trás da casa do bodegueiro.

Faz tempo Salustiano de olho fincado em cabra vadio afiava lâmina cortante de faca peixeira.

Não perde por esperar consigo dizia tirintando os dentes parecendo queixada velha acuada e pouco sabendo de como um graveto verde açoitado pelo vento tanto assim tremia.

Quem não viu porco do mato com onça na frente desconhece a valentia do bicho.

De costume Salu como era conhecido fervia por dentro e vez por outra o pacto com o demo pulava na vista. E seu corpo se entregava ao capeta endiabrado saltava de lado pra outro pra cima e pra baixo primeiro no dentro no imaginoso mas tudo no aguardo da ação do fato.

Remoía as coisas todas na alma enquanto serena a faca corria de lado pro outro da pedra de afiar.

Feliço da bodega o Felício a tudo via enquanto o vento da tarde soprava já frio roçando a parede onde Baleia a cachorra vadia se espreguiçava morosa.

A tarde deitava e a noite alvoroçava-se com os espíritos despertos.

Pouco a pouco na venda chegavam os trabalhadores do eito: Zé Cotia vaqueiro João de Cima cortador de avelós e ninguém mais das grotas a se dar respeito deixava de vir Joca Zeferino Soca-Soca Jacaré-de-Papo Amarelo Sumaúma Tembu-Capenga Jovino-Fedegoso Pé–de-Coento Supapo-Frouxo Jerimum e Zeca-Mocó a tropa toda chegava um a um.

Tamborete-beliscador de bunda gemia mas o banco de braúna grosseira aguentava o repuxo de gente sentada a rir no salão soltando baforadas de fumo enquanto a marvada e cheirosa branquinha descia goela adentro.

As tardes todas se repetiam molengas de como quem madorna.

Fazia jeito de sonolência mas aquela boca de noite parecia botar tocaia no bico da faca de Salu disposto mastigando um talo de raiz restado no fundo do copo.

Conversa vai conversa vem feito serrote chiador num prá lá e prá cá desfibrando uma estória sem fim. Chico-Pé-de-Boi levou carreira danada de vaca parida e passou em buraco de cerca onde raposa só passa espremida. Risada geral. Chico não tava ali pra se defender. Correr de vaca é coisa de menino! O fundo da calça rasgou-se na unha de gato! O bafo da remosa fez assombração pro Chico pois até hoje ainda corre estrada afora. Risada geral. Salu de pouco foi perdendo a raiva enroscada nas meias conversas. E a faca pontuda não perfurava mais a bainha inquieta apenas se resguardava dos cortes acomodada no couro cru amansada e calma. Estórias e mais estórias fluíam e o compadre Tomázio não veio nem o cabôco que acordara o demo no peito do amansador de burros passara na estrada. O diabo pediu sossego e de Salu quando se foi já bem tarde engolido na noite montado na égua castanha se ouvia apenas o sacolejar das patas no chão pedregoso num patatá patatá misturando-se pouco a pouco com o coaxar dos sapos da lagoa e os assobios da Comadre Fulozinha-fiuuuuiiii..i..iii….

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O dia nasceu e encontrou Salustiano atravessado de bala na estreiteza de caminho de voltar pra casa pois vingança não se afia em ponta de faca no aberto das pessoas mas sim no mais secreto das confabulações com o demônio.

Foto: Dodó Félix



Este conto foi escrito pelo editor chefe do jornal Correio do Agreste, Fernando Farias Guerra. Ele dá nome ao livro Faca de Ponta Afiada que recebeu menção honrosa no III Prêmio Pernambuco Literário de 2015. Você, também, pode sugerir o seu e compartilhar na aba Contato, aqui, do Fuá de Clara. Leremos com carinho a sua sugestão que, sendo aprovada, poderá ser publicada na categoria Trombeta, porque aqui a gente toca as trombetas pra você falar =)

Encare a rejeição com naturalidade

Ninguém gosta de ser rejeitado, mas qual é o problema? A rejeição deveria ser encarada como algo tão natural quanto comer arroz com feijão, na segunda, e bife acebolado, na terça. Pelo amor de nosso Senhor Jesus Cristo, quem se conhece e se ama, quem sabe o seu valor, não pode esmorecer diante de uma rejeição, não pode deixar de acreditar no amor por causa de uma rejeição, nem pode se desvalorizar nem sofrer, infinitamente, por causa de uma rejeição.

Presta a atenção, gente: rejeição é coisa natural da vida. Neste mundo de afinidades e competências, estamos propícios a encontros e desencontros. Os desencontros NÃO SÃO o fim do mundo. São, só, desencontros. Não morram de tristeza por isso. Fiquem tristes, no máximo. Depois, de posse da sua essência e dos seus ideais, continue lutando pelo que faz sentido pra você. Pronto.

As pessoas têm o direito de serem diferentes e pensarem diferente, de terem gostos diferentes. Ninguém precisa brigar ou humilhar por causa disso. Tem gente que faz isso, mas aí a gente pede a Deus por esses seres humanos tão carentes de evolução como nós. O fato de uma ou, até, mais pessoas, em um universo de sete bilhões, não te querer quer dizer, absolutamente, nada. Não diminui o seu potencial nem faz esvair a tua essência. Você, com sua maturidade, tenha respeito por esses seres e siga em frente, sem tristeza ou raiva disso. Siga vazio ou pleno de amor por si mesmo e vá fazer o seu plantio. Isso é normal. Nem bom nem ruim. Normal. Não diminui e nem aumenta. Normal. Não vamos mudar para provar que aquela pessoa está enganada a nosso respeito se a única motivação existente para esta mudança for uma rejeição. Isso é normal. Não vamos detonar a pessoa e rotulá-la de todos os adjetivos denegridores e obscenos do mundo por causa de uma rejeição. Pelo amor de Deus, isso é normal. Ou você, também, nunca rejeitou alguém na sua vida?

Algo mais

Você chegou onde queria
Mas, ainda, há algo mais
Você está bem, como queria
Mas, sempre, há algo mais

Algo mais da vida
Algo mais da gente
Algo por desvendar
Algo que vem, de repente

Você aprendeu a lidar
Com muita coisa que se passou
Você, agora, pode ter acesso
A outros nós que não desatou

Você se fortaleceu
E pode dar conta de si
Você pode arcar com tudo
O que acontecer a partir daqui.

Siga em frente.

Por trás de cada erro

Mexeu com teus sentimentos. Não ficaste bem. Sentiste culpa por mexer na ferida dela. Descobriste que a distância que criaste não é, apenas, um ato de defesa teu. É, também, uma dificuldade de olhar para a dor dela porque dói em ti, também. Ela não quer se ajudar. Talvez por preconceito, medo, falta de recursos. Mas tu querias poder ajudá-la de alguma forma sem te machucares. Todo esse movimento é doloroso. A maior dor da vida dela é a maior dor da tua vida. O sonho que ela, ainda, não realizou é te ver em felicidades e realizações. Tu, sempre, soubeste que, por trás de cada erro dela, existia a vontade e a intenção de acertar. O modus operandi é que é errado. Não é fácil, para ti, vê-la sofrendo e adoecendo, por tantos anos, sem poder ajudar. Um dos teus objetivos é oferecer conforto para a saúde dela. Por muito tempo, atribuíste, aos traumas que sofreste com ela, as tuas dificuldades. Mas, pode ser que, a partir de agora, isso mude. Talvez, a partir de agora, enxergues teus medos de forma diferente.

Em nome das grandes mulheres

Um apelo especial em nome de todas as mulheres de baixa estatura e voz suave: não somos frágeis. Não é agradável falar das recorrentes primeiras impressões dos outros, com suas expressões de dúvida, a respeito de a nós ser concedida determinada (ou qualquer) tarefa. Somos capazes. Aos motoristas de coletivos, por favor: temos vozes. Um botão (que funcione) uma vez apertado, aciona uma luz, diante dos senhores, acompanhado de uma sirene que significa: desembarque no próximo ponto de ônibus. Alguma dificuldade com interpretação de sinais ou seguimento de regras? Então, explique: por que “queima” os desembarques quando estamos sozinhas? E por que ouve as reivindicações de uma voz masculina e negligencia uma voz feminina?

Aos queridos desconhecidos aos quais seremos apresentadas: não somos crianças. É incrível (do verbo não se pode crer) que uma mulher se aprisione à ditadura do salto alto para ser ouvida. Gente, tamanho não é documento, já dizia minha avó. Nem atestado de ignorância, nem passe livre para o desrespeito, nem autorização para tratamento no diminutivo, nem prova de doçura excessiva. Já viu uma mulher com M maiúsculo de um metro e cinquenta de altura, inteligente e de personalidade forte? Creia: elas existem. Aos queridos e inseguros colegas de trabalho: não somos bestas. Você pode ter um pênis e achar que isso é motivo suficiente para que seu contracheque venha mais alto. Você pode ter mais testosterona e achar que isso é motivo suficiente para julgamentos infundados. Você pode ter pelos torácicos e achar que isso é motivo suficiente para nos passar a perna mas acredite: nem mesmo nós, que por meio de nossas vaginas somos templo da geração da vida humana, medimos nossa capacidade por hormônios ou órgãos sexuais. Cresça.

E aos homens dotados de imaturidade, conservadorismo e certo grau de altura: não somos escravas. Você pode usar seu melhor desodorante, falar mansinho com voz de criança por puro fetiche, fazer o papel da vítima e achar que isso é suficiente para nos manipular aos seus desejos. Querido: temos quereres. Você pode sentir que, no auge de seus quase dois metros de altura, pode nos tratar com ar de superioridade e eu te digo: grande merda. É preciso que um homem tenha qualidades e atitudes que, provavelmente, você desconhece para merecer uma mulher de verdade. Sair pela tangente e te deixar com cara de tacho é a nossa especialidade.

Ter um sonho todo azul

Quem tem um timbre de voz diferenciado e marcante deve ser grato pelo resto da vida e não deixar passar a chance de utilizar esse dom. Imagina alguém escutar a sua voz, independente do momento, ou de ruídos ocasionais, ou de qualquer melodia desconhecida, e reconhecer você. É sublime. É uma bênção. A voz é um instrumento poderoso capaz de transformar lugares, no interior do ser, inimagináveis. Tim Maia tinha esse dom. E lutou por ele com garra invejável. Ele se foi mas a voz dele continua, inegavelmente reconhecida, na mente das pessoas onde quer que ele seja ouvido. Sua obra é seu legado. Ele se foi e eu era criança mas ouvi Tim Maia minha vida inteira e ouço, ainda, porque adoro.

A música Azul da cor do mar, composição dele lançada em 1970, é uma de minhas prediletas. Ela fica num grupo especial de outras músicas que me ensinam a olhar para a vida de uma maneira mais reflexiva e sábia. Era dom, também, a maneira que ele tinha de falar sobre a vida e ele o aproveitou muito bem. Azul da cor do mar me leva a um lugar de resignação. Muitas vezes, confundi resignação com derrota. Nada disso: resignação é uma postura sábia de gente que não perde a esperança de que o futuro pode ser diferente sem perder, também, a aceitação sobre o momento presente. E aceitar, minha gente, é abraçar tudo o que, hoje, é, do jeito que é, sem tentar modificar forçando soluções que podem gerar novos problemas. Aceitar o presente é tomá-lo como um ponto de partida, é entender que, em tudo, existe uma oportunidade de sermos melhores.

Ao aceitar o presente podemos pretender o futuro e é assim que nossos sonhos se tornam reais: liberamos a carga de insatisfação ao aceitar e abrimos espaço para focar na realidade que queremos. Por isso, é importante sonhar. Nós somos o que sonhamos, somos seres puramente subjetivos, feitos de energia. Nós precisamos sonhar. Ao sonhar, estamos co-criando uma nova realidade para as nossas vidas.

Fiz um cover de Azul da cor do mar (a long time ago). Assistam a seguir =*

 

Querido, pode ir, apesar de tudo

Quanto tempo faz que você terminou comigo sem dizer uma palavra? Quanto tempo faz que eu fiquei, ali, como se estivesse a espera de uma resposta, uma explicação, uma confirmação que fosse, sem entender? Quanto tempo faz que eu fiquei me culpando, procurando o erro em mim, forçando a minha barra para não ficar com raiva de você? Quanto tempo faz isso? Não vou contar nos dedos. Para mim, foi tempo suficiente pra eu me reestruturar no meio do caos.

Nós fomos uma repetição desnecessária para minha coleção de traumas e necessária para a minha evolução de alma. Em você, encontrei, gratuitamente, o que eu precisava modificar em mim. Por isso, para quê vou te responsabilizar por não aguentar ouvir um “não” ou sair correndo, sem dar explicações diante de uma situação contrária ao que você quer se eu era, exatamente, assim? Quando é o outro cometendo os nossos erros é mais fácil apontar e julgar. Difícil mesmo é tomar a responsabilidade, engolir seco e dizer: eu estou olhando para mim quando olho para ele, eu estou recebendo, exatamente, o que emanei.

A culpa não é sua… Não te faz, suficientemente, inocente para me ter de volta, mas isso não é sobre você. Sou eu. Eu sei o que é estar no corpo de alguém que se defende fugindo. Eu sei o que é não saber lidar com aquilo que não planejei. Eu sei o que é ir embora sem dizer uma palavra. Você não foi homem pra mim: não me disse adeus, não me disse porque acabou, simplesmente seguiu sem mim depois de tanto tempo me seguindo. Mas eu não vou perder meu tempo te responsabilizando pelo que eu atraí. Não se inicia qualquer envolvimento com sentimentos negativos no peito. Eu fiquei com você porque não tinha mais esperanças de encontrar quem me merecesse, eu fiquei com você sentindo medo de sofrer, eu fiquei com você me sentindo insegura, eu fiquei com você querendo acreditar nas minhas mentiras. Eu não vou te culpar por ter correspondido às minhas más expectativas.

Eu te deixei ir embora e me despedi com amor e carinho naquela noite, em frente à praça, depois de um dia normal, sem você saber. Eu amo você, apesar disso não mudar fato de que não servimos um para o outro (e como é ruim admitir isso). Eu quero que você seja feliz. Sempre que o ciúme e a saudade baterem, eu vou cancelá-los e tentar preencher o vazio com amor-próprio.

Cheia de mim

Tenho descoberto aquilo que me faz bem
Não precisei perguntar pra ninguém
Eu sabia que era assim, mas não sabia como fazer
É natural buscar e, na busca, se perder

Tenho convivido com menos amigos
E a solidão tem me feito feliz
Estou cheia de mim
Estou cheia do que me agrada
Estou pronta pra usar essa força motriz

E viver querendo essa alegria do agora
Por dentro, não precisa vir de fora
Durante, não preciso esperar
Fazendo aquilo que me faz sonhar

Tenho andado mais silenciosa
As dores saíram e eu passei um curativo
A vista, hoje, está maravilhosa!
Vejo espaço pra dançar no meio de um dia lindo

Tenho carregado esse silêncio
Durante as coisas que eu tenho pra fazer
Tenho escolhido os meus momentos
E agradecido por, simplesmente, ser

E viver querendo essa alegria do agora
Por dentro, não precisa vir de fora
Durante, não preciso esperar
Fazendo aquilo que me faz sonhar

Que seja amor

Ontem, sonhei com o perdão que eu ia te dar
Abri a porta e te vi tão compenetrado
Esperei ver teu olhar, teu rosto
Depois, eu me perguntei o por quê
O medo é aquilo que não nos deixa mostrar

Naquela sala, senti pressão e exclusão
Lembro esperar o momento de ser ouvida
Quis despejar o erro alheio
Eu quis culpar alguém da minha dor
A mágoa é aquilo que se volta para nós

Por isso, a gente sente aquilo que emana
A gente perde o equilíbrio com a dor
A gente perde a noção de quem a gente é
Quando mergulha em emoções ruins

Por isso, devemos ser protagonistas
Devemos tomar responsabilidade
Devemos ter o poder de nos consertar

O amor é o fluxo
Ele está dentro de nós
O amor é o caminho
Procuremos até encontrar!

O amor deve ser o reflexo das nossas ações
O amor é o lugar onde não existe medo
E, onde há medo, não há amor
Um deles precisa vencer
A gente age conforme o que sente
Que seja amor nossa forma de ser

Não pare

Só respire fundo e prossiga
Feche seus olhos e ouça
As mensagens estão implícitas
Só entenderá pouco a pouco

Não pense que é tempo perdido
Cada escolha guarda uma promessa
Apenas, caminhe para a frente
E os bons sentimentos preserve

Descanse por tempo preciso
E não se desalinhe de orar
De se conectar consigo
E de continuar a buscar