Sobre se perder

Paulista, 1º de maio de 2018

Pai,

Eu gostaria de ter um sentimento diferente para partilhar contigo, para te deixar feliz mas, a verdade é que, hoje, estou me sentindo um fracasso. Um fracasso profissional, um fracasso familiar, um fracasso de amiga, um fracasso de pessoa. Tenho uma sensação muito forte de estar remando contra a maré quando tento insistir em pensamentos positivos estando rodeada de circunstâncias difíceis que insistem em me dizer o contrário. Sinto-me falida, emocionalmente. Em guerra com a vida. Traída. Enganada.

Minhas leituras sobre autoconhecimento fazem-me lembrar que não devemos nos colocar na posição de vítimas. Não devemos incitar mania de perseguição. Não devemos entrar em sintonia com pensamentos que não fazem-nos bem. Minha cabeça sabe de tudo isso. Às vezes, é muito difícil parar e tentar enxergar outra resposta. Desculpa, pai… Tua filha é daquelas pessoas que cai e levanta por diversas e diversas e diversas vezes. Daquelas que pode, até, chegar no fundo do poço mas não se permite ficar porque não se acostuma a ser infeliz e ficar parada. Contudo, os momentos difíceis não deixam de vir e o desespero é inevitável.

Desta vez, eu achei que tudo estava, espiritualmente, bem encaminhado. Boas sensações, fortes orações, fortes atitudes. De repente, os rumos foram mudados e eu me perdi no meio do caminho. Continuo tentando sobreviver agarrada ao último destroço do navio que afundou. À deriva, buscando manter a vida através da respiração. Tento remar mas, logo, canso. Queria, realmente, uma forma de promover qualquer movimento que me dê mais energia. Queria o novo nessa imensidão de nada que ficou.

Eu queria poder chegar em casa e assistir TV com você… Queria poder me aninhar no seu braço e chorar. Queria poder te dizer que eu estou me sentindo uma merda. Queria poder ouvir tua doce voz me dizendo que vai passar, que vai melhorar, que preciso me reerguer, de vez. Desculpa, pai. Eu queria que não fosse tão difícil, assim.

Com amor,

Tua filha.

Não se abandone

Clara, eu vi você decidindo ser uma pessoa nova. Vi você, às custas de muita dor, abandonar um amor que te fazia morrer, aos poucos, por dentro. Vejo você percebendo, observando, conhecendo, lidando com o seu movimento de ansiedade. Eu vejo a sua luta para alcançar o silêncio. Eu vejo a sua luta para alcançar o movimento, sem perder o silêncio. Isso é coisa para os fortes. Percebo que você cai e é natural cair diante das dificuldades. Você conhece a importância de chorar, de desabafar, de jogar fora o que sufoca por dentro. Eu já te vi debilitada, emocionalmente, mas tenho orgulho de lembrar de todas as vezes que você decidiu levantar. Todas as vezes que você não desistiu de si.

Eu vejo você matutando, refletindo, ressignificando as relações complicadas, procurando o que pode ser modificado, em si, para ter paz. Acho justo e assertivo que teu maior objetivo, na vida, seja ter paz de espírito. Vejo você lutando, arduamente, para ser livre. Não importa se obteve ou não sucesso, até aqui. Permita-me dizer o quanto é lindo uma pessoa se esforçar e querer, com todas as forças, a liberdade.

Reconheço o longo caminho, reconheço o sentido que, muitas vezes, não se vê. Reconheço os passos duvidosos que não são dados. Essa coisa de se conhecer, de se tornar dono de si depois de tanto tempo sendo vulnerável à vontade de segundos ou terceiros é uma aventura assustadora. Eu estou contigo em cada imprevisto, em cada topada, em cada choro.

Estamos, juntas, lutando para viver, contemplar, ser feliz no hoje, no agora. Estamos enfrentando, por uma primeira vez, o desafio de descobrir cada mínimo sinal da ansiedade que prejudica, que rouba nosso tempo, no dia a dia. Queremos acolhê-la, entendê-la, entregá-la para o poder maior. Queremos dar conta do que a nós compete. Queremos confiar o que não entendemos ao poder universal que, sempre, sabe o que fazer. Queremos construir um relacionamento de confiança, de consistência, de beleza. Oramos por paciência, resiliência, força, sabedoria, coragem e serenidade.

Eu vi você frágil diante de um problema difícil. Mas vi você forte no momento crucial de entrega. Eu não vou te abandonar, Clara.

Do eu para o ego.