Se eu decidir acreditar #2 – As possibilidades

Notas do capítulo anterior:
Rukam é uma cidade fictícia que fica ao norte de algum país. Lá, moram Luna, seu pai e seu irmão mais novo. Luna está na metade do curso de Economia e tem um trabalho fixo de carteira assinada e carga horária de oito horas diárias na área. Ela, também, toca teclado e arrisca umas notas cantando. Na verdade, arrisca nada, ela estuda pra isso e é bem dedicada. Só que seu pai não pode saber pois ele não compartilha de ideias e atitudes onde os sonhos podem se tornar realidade. Luna sofre, coitada… estuda no conservatório estadual escondido, à noite, e inventa desculpas para que ninguém da família descubra. Sempre que pode, ela desabafa com o seu diário (a pedido do seu psicólogo).

“Rukam, 17 de julho

Parece que o dinheiro dá o tom da maioria das nossas decisões. Assisti uma palestra que afirmava não ser bem assim: fomos condicionados a pensar que é. No meu caso, mesmo, vontade, nunca faltou de jogar quase tudo para o alto e viver feliz, fazendo o que eu gosto, me sentindo útil, me sentindo bem. A grande questão é se eu teria condições financeiras de fazer isso… como é sofrida essa vida de quem necessita de dinheiro para sobreviver… é como escolher entre se manter sendo infeliz ou ser feliz sem ter como se manter. Injusto.

Meu trabalho paga minhas contas. É algo que eu domino mas não é o que faz meu coração vibrar, não é o que me desafia, não é o que me faz levantar da cama de manhã. Não é fácil viver assim… adicione a isso as cobranças de meu pai pra eu ser a pessoa que ele sempre quis ser e nunca foi, sei lá por quê. Também, sinto que não dá pra viver pela metade. É como se eu me obrigasse a passar tempo no meu trabalho para ter como me sustentar. É como se eu, nunca, tivesse tempo para ser feliz, entende? Cansaço é bóia…

Já que largar a estabilidade de uma renda mensal, ainda, não é uma opção plausível, eu vou tentar arrumar um trabalho que me dê mais tempo, com uma carga horária menor. Foi a Rayanne que me deu esse toque. Não que arrumar um emprego seja coisa fácil nos dias de hoje, mas preciso tentar uma mudança, antes que eu enlouqueça. A Preta me alertou para a possibilidade de dar tudo certo se eu tentar. Não posso, mesmo, só me entregar às possibilidades negativas, né? A longo prazo, a Laís me disse que eu posso juntar, também. Quem sabe, o suficiente pra alugar um quartinho por um tempo ou viver sem trabalhar por alguns meses de tentativas em outros projetos… tô pensando e vendo o que é melhor tentar”.

Ajude Luna com possibilidades. O que ela poderia fazer para ter mais tempo e investir nos seus sonhos? Onde ela poderia arrumar esse tal emprego?

Você pode continuar esta história, aqui, nos comentários e acompanhar o desenrolar dos fatos na categoria Pitaque, se quiser. Já pensou se a sua sugestão for aprovada? Você vai ver seu nome e seus pitacos na história. Quem nunca quis criar o rumo de uma novela? Comenta aí!

A procura de novos horizontes

Das certezas do que quer, ela sabe. Sabe, também, que nenhum sonho nasce, assim, com a facilidade de se realizar, mas luta. Todo dia, luta um pouquinho mais, investe um pouquinho mais, estuda um pouquinho mais. Seu sonho é, um dia, poder se sustentar fazendo o que gosta.

Quando aquele trabalho com carga horária de oito horas diárias apareceu, não sabia se ficava feliz ou triste. Por um lado feliz pois, apesar de estar trabalhando para os outros, estaria aprendendo sobre coisas que precisaria para os seus projetos. Por outro lado, que tempo haveria para investir nesses tais projetos que são a fonte de sua essência e felicidade? Mesmo com tantas renúncias ficou com a primeira opção. Afinal, que escolha tem o brasileiro pobre do século XXI se não fazer um jogo de cintura brabo se quiser sobreviver e se realizar, ao mesmo tempo? Por vezes, pensava nessa injustiça: “minhas qualidades, capacidades, meu intelecto estão a serviço de enriquecer o outro que não paga metade do que mereço por renunciar à minha felicidade. Tudo isso em nome da sobrevivência…”

O plano não saiu bem como esperava. Havia algo de errado naquele ambiente. Era tudo muito pesado, a começar pela chefia. O primeiro sinal de que não aprenderia o que gostaria deu-se, logo, nos primeiros dias: foi deslocada de sua função originária de sua real profissão. Aceitou isso na ilusão de que teria acesso a outras ferramentas. Mas não teve. Deu de cara com uma chefia, extremamente, centralizadora que guarda toda a intelectualidade dos projetos para si e delega tarefinhas de casa para os seus subordinados. Tudo isso mascarado de longas e milhares de reuniões gerais de equipe que serviam mais para atrasar os trabalhos em andamento do que, verdadeiramente, para resolver alguma coisa. Ela pescava as boas ideias de sua equipe mas, no fim, levava o crédito por todo o trabalho pois fazia questão de realizar todos os planejamentos. Não conseguia, realmente, delegar. Após sofrer, consideravelmente, com as atitudes daquela mulher, alguém a fez abrir os olhos e entender que o nome daquele tipo de atitude é insegurança.

Seus santos não bateram. É o tipo de falta de sintonia que não tem explicação. A doutrina espírita diria que é uma antipatia carregada de vidas passadas. Mas esforçou-se. Encontrou outros inseguros, no caminho. Esforçou-se. Precisou render-se a não pensar (logo ela que amava colocar as ideias para fora!). Limitou-se a fazer o que lhe era pedido. Foi ficando opaca, sem cor, sem vida. Ela nunca se colocou naquele tipo de pensamento onde havia separação entre trabalho e pessoa. Acreditava que trabalhar era uma parte de si, uma parte de quem ela era. Por isso, doía não poder exercer a si, não poder contribuir como sabia que poderia, contudo, se submeteu em nome da hierarquia.

Quis sair daquele ambiente, quis afastar-se da forma como estava sendo vista e reduzida. Tentou. Procurou. Nada. Após alguns meses, houve uma reconfiguração na equipe e uma troca de chefia. Dentro da reconfiguração, assumiu o posto que sabia mexer, aquele para o qual havia estudado. O trabalho fluiu. Mostrou resultados. Todos viram e reconheceram.

Um belo dia, recebeu uma proposta:
– Você ganhou uma promoção. Mas precisamos lhe demitir deste contrato para fazer outro. Não se preocupe. Essa prática é recorrente, aqui.

Que felicidade! Fez planos, criou expectativas com o aumento, colocou algumas coisas na ponta do lápis. Enfim, reconhecimento. Mas, quando veio a demissão, algo se demonstrou errado dentro do seu coração. Foi ficando com medo. Foi achando estranha a ausência de detalhes na comunicação, a ausência de documentos que pudessem comprovar uma proposta realizada, apenas, verbalmente. Contudo, nada poderia, de fato, fazer. Conversar? Conversou! Incertezas começaram a apontar no novo discurso.
– Está tudo preparado. Dependemos de uma autorização. Fique no aguardo.

A demissão aconteceu. Todo aquele processo de rescisão, exame demissional, FGTS, documentação, seguro desemprego foi apagando o seu brilho. Buscou informação? Buscou! Recebeu as mesmas respostas vagas de sempre. Entendeu que a tal autorização não viria, a tal promoção não aconteceria. Sabia do seu valor mas não deixava de doer a tentativa de lhe reduzirem a nada, a alguém que não teria direito, ao menos, à verdade. Foi enganada. Foi seguindo adiante, na luta por refazer sua vida financeira.

Semanas após, recebeu a intervenção de uma pessoa amiga (uma, graças a Deus, dentre tantas amizades que fez mas que não se pronunciaram). Soube, por debaixo dos panos, que a antiga chefia (aquela que o santo não batia) havia retornado, ao setor, com gostinho de vingança. Fez sua caveira, disse que não produzia, que não trabalhava. “Mas, como, meu Deus? Todos viram os resultados! Está tudo lá, nos relatórios!”, pensou. Mas ninguém lhe defendeu. Ninguém.

Foi sofrendo que entendeu o ponto de vista de algumas pessoas que conhecia há muito tempo mas, na verdade, mesmo, conhecia era nada. O mais importante, para alguns perfis, não é executar um trabalho bom e ético. Às vezes, o mais importante é ter influência. Chorou. Sofreu. Por dentro, tudo se revirou. Mas continuou a procurar novos clientes e horizontes.