A Disputa

De repente formou-se uma confusão incontrolável na porta do falecido.

Sebastião Miguel de Oliveira dos Santos legítimo pedreiro de profissão diferente dos meia-colheres encontrados amiúde bem casado com uma cabocla do pé da Serra da Mata Virgem da graça Margarida de tal a quem não faltavam os bons olhos e os desejos dos namoradores do arruado achara de sem aviso prévio mudar-se desta pra outra ou como no dizer-se enfático do populacho bater a caçoleta! Como se desconvém o inesperado dá-se com as maiores inconveniências no despreparo do entorno das pessoas pois fôra isso tudo verdade porquanto nem bem aguardara o final da madrugada sequer vislumbrando as fraldas da manhã do dia 8 de dezembro do ano de Nosso Senhor e Nossa Senhora de 1959.

– Miguel morreu!

A viúva estremeceu atônita ao lado de um corpo entesado imóvel esticado na cama e deu alarme pra vizinhança.

– Meu Miguelzinho acorda! Esbaforida em berros alardeou aos quatro ventos e com as mãos pros céus tomou o rumo da rua.

Por sorte ou por desdita os filhos não lhe haviam chegado e não foi por falta de trabalhos diários deixando-a ainda com o frescor da juventude em suas pernas torneadas e seios firmes mas de momento desgrenhada naquele alvoroço e decorrente em susto retido nos olhos disso nada se lhe evidenciava. A curiosidade da vizinhança fizera o resto propagando a notícia incluindo maledicências atribuindo aos desditosos excessos cometidos em destemperos na alcova.

Correram na cidade próxima a contratar os serviços funerários e foi aí onde nasceu o desencontro. De um lado parentes do pedreiro acorreram ao Caminho de Nós Todos e pelo outro um tio de Margarida pastor evangélico acertou com a Jesus Me Chama tendo ambas seguido para o lugar da desdita uma mais às pressas no diferente da outra com caixão velas castiçais além de flores para enfeitar o morto. Tudo no atender aos costumes.

Quando a Caminho de Nós Todos chegou à residência da viúva encontrou nos finalmente quase de saída a Jesus Me Chama cuja eficiência fora colocada à prova com o corpo já embalsamado empacotado em caixão azul com ornamentação prateada na sala principal da casa ladeado por quatro grandes castiçais onde as velas faziam tremular línguas de fogo com uma luminosidade embaçada e ainda por terminar os detalhes da ornamentação do finado penteando-se Sebastião com brilhantina em últimos retoques para seguir viagem derradeira com ares de decência.

Isso foi o suficiente para um bate boca desmesurado entre os papa-defuntos. A disputa custou as pernas quebradas de cinco cadeiras enquanto um castiçal entortou nas costas do proprietário da Funerária Caminho de Nós Todos.

Dos círios esparramados pelo chão apenas dois teimavam em queimar e espraiar a cera derretida pelo assoalho.

– Valha-me Deus! Gritava a viúva antevendo a possibilidade de rebentar-se pela sala caixão com o defunto dentro.

Quando o comissário de polícia chegou com um soldado raso de companhia para botar ordem no velório o estrago já estava feito.

Sebastião jazia em decúbito dorsal num recanto onde se via a urna funerária espedaçada e as flores espezinhadas espargindo-se pelo cenário tétrico. Por finalmente após o furdunço jamais presenciado naquele lugarejo a ordem fora restabelecida sob ameaça de todo mundo parar na delegacia. Foi santo remédio o vozeirão do homem da lei com seu bigode hirsuto pança avantajada batendo com o cassetete em altas pancadas na porta aos rugidos tão em voga repetindo a lei do mais brabo sempre ecoando sábias palavras:

– Comigo é na porrada! Quem levou bofete muchicões munhecada no pé d’ouvido sarrabulho esfrega rabo tapa olho rabo de arraia canelada cutucada ou entra num acordo ou o cancão vai piar! Remédio para doido é outro na porta (!) asseverou o legítimo representante do Direito e da Ordem abaixo de Deus. Quero ver o Atestado de Óbito! Gritou.

Não se tinha.

– Quem é o responsável pelo defunto? Sem contar com a pobre viúva!

– Quem contratou a funerária?

Foi de se chegarem Severino com o olho esquerdo roxo pois se metera na briga pela parte do pedreiro e o pastor Joaquim com a Bíblia debaixo do braço com a voz rouca de tanto implorar em nome de Deus para acabarem aquela contenda pois pagariam muito caro pelo desrespeito à imagem e semelhança do Senhor morto ali representado sem a ninguém ter ofendido.

— Foi a gente eu e ele num uníssono responderam a meia voz.

– Os dois cuidem de limpar a casa esbravejou Epaminondas comissário temido pelas sentenças truculentas mão pesada braço forte e trabuco. As duas funerárias me arregimentem um doutor para dar o veredito senão o enterro daqui não sai destemperou. A Caminho de Nós Todos pegue seu caixão novinho em folha encaixote o pedreiro com tudo de ter direito e nesse obedecer de seguir as ordens em quinze minutos retirados os cacos de uns bisquis e de um pinguim despencado de cima da geladeira tudo voltou ao dantes viúva chorando desconsolada duas velhas carpideiras encomendando o corpo e o povoado todo aglomerado pra ver o ocorrido e saber minudências do quiproquó.

O comissário de um lado e o soldado do outro na porta de entrada da casa disciplinavam o fluxo de curiosos apinhados no recinto e nesse momento Dona Zefinha fez um estardalhaço sem tamanho.

– O defunto mexeu a perna!

A casa por pouco não veio abaixo. Correram todos assombrados e levaram de um sopapo só Epaminondas e o soldado Palito e eles aos trancos e barrancos numa verdadeira enxurrada desceram a ladeira a se perder de vista desmoralizando a fama de valentões tanto apregoada.

Quando o médico chegou para examinar o cadáver Sebastião estava sentado no caixão em estado de choque e o ambiente vazio com Margarida sem entender nada enquanto o povão formado dentro e fora da residência se via ainda a correr alguns deles blasfemando como coisa do diabo.

– Pedreiro infame resmungava Jesuíno em disparada num misto de revolta e de espanto.

O doutor foi taxativo e sem meias palavras arrematou:

– Um ataque cataléptico! A pessoa vê e ouve tudo no seu redor e não reage paralisado. É um fato raro mas acontece.

Somente meia dúzia de meses depois tudo se acomodara e os dias entraram na rotina de sempre. No entanto Sebastião não conseguira esquecer Jesuíno compadre de fogueira já de muitos anos por ele no tumulto de sua quase morte ficar roçando pelo traseiro de Margarida num pra lá e pra cá sem vergonha consolando a viúva em fazer de conta de ajudar.

Pelo sabido até hoje as duas empresas funerárias procuram esquecer esse episódio sem o menor sucesso a Caminho de Nós Todos mudou até de nome agora é Deus nos Salve.

Este conto foi escrito pelo editor chefe do jornal Correio do Agreste, Fernando Farias Guerra. Você, também, pode sugerir o seu e compartilhar na aba Contato, aqui, do Fuá de Clara. Leremos com carinho a sua sugestão que, sendo aprovada, poderá ser publicada na categoria Trombeta, porque aqui a gente toca as trombetas pra você falar =)

Faca de ponta afiada

Salustiano de Zequinha aparentado ainda de Felício das Grotas da Tapera-Ribeiro Grande abaixo meia légua farinha do mesmo saco de Tomázio carregador de jerimum e pegador de fura-melancias do Sítio Capim de Baixo assuntando de tudo um pouco falador contumaz silente de momentos apenas pegador de burro brabo de não levar desaforo pra casa falou: pirraça comigo não tem cabimento cisca-cisca é perda de tempo não sou de briga nem procuro mas não abro parada pra ninguém!

Disse isso enquanto bebericava aguardente de cabeça com raiz de cura bem curtida no boteco de estrada égua baixeira apeada na porta tardinha mortiça de sol entreaberto espiando por meias nuvens porosas e esvoaçantes.

Teimosia de tempo quente se quedava com o sol ouvindo o apito entrecortado de espanta–boiada entocado em moitas braçadas por trás da casa do bodegueiro.

Faz tempo Salustiano de olho fincado em cabra vadio afiava lâmina cortante de faca peixeira.

Não perde por esperar consigo dizia tirintando os dentes parecendo queixada velha acuada e pouco sabendo de como um graveto verde açoitado pelo vento tanto assim tremia.

Quem não viu porco do mato com onça na frente desconhece a valentia do bicho.

De costume Salu como era conhecido fervia por dentro e vez por outra o pacto com o demo pulava na vista. E seu corpo se entregava ao capeta endiabrado saltava de lado pra outro pra cima e pra baixo primeiro no dentro no imaginoso mas tudo no aguardo da ação do fato.

Remoía as coisas todas na alma enquanto serena a faca corria de lado pro outro da pedra de afiar.

Feliço da bodega o Felício a tudo via enquanto o vento da tarde soprava já frio roçando a parede onde Baleia a cachorra vadia se espreguiçava morosa.

A tarde deitava e a noite alvoroçava-se com os espíritos despertos.

Pouco a pouco na venda chegavam os trabalhadores do eito: Zé Cotia vaqueiro João de Cima cortador de avelós e ninguém mais das grotas a se dar respeito deixava de vir Joca Zeferino Soca-Soca Jacaré-de-Papo Amarelo Sumaúma Tembu-Capenga Jovino-Fedegoso Pé–de-Coento Supapo-Frouxo Jerimum e Zeca-Mocó a tropa toda chegava um a um.

Tamborete-beliscador de bunda gemia mas o banco de braúna grosseira aguentava o repuxo de gente sentada a rir no salão soltando baforadas de fumo enquanto a marvada e cheirosa branquinha descia goela adentro.

As tardes todas se repetiam molengas de como quem madorna.

Fazia jeito de sonolência mas aquela boca de noite parecia botar tocaia no bico da faca de Salu disposto mastigando um talo de raiz restado no fundo do copo.

Conversa vai conversa vem feito serrote chiador num prá lá e prá cá desfibrando uma estória sem fim. Chico-Pé-de-Boi levou carreira danada de vaca parida e passou em buraco de cerca onde raposa só passa espremida. Risada geral. Chico não tava ali pra se defender. Correr de vaca é coisa de menino! O fundo da calça rasgou-se na unha de gato! O bafo da remosa fez assombração pro Chico pois até hoje ainda corre estrada afora. Risada geral. Salu de pouco foi perdendo a raiva enroscada nas meias conversas. E a faca pontuda não perfurava mais a bainha inquieta apenas se resguardava dos cortes acomodada no couro cru amansada e calma. Estórias e mais estórias fluíam e o compadre Tomázio não veio nem o cabôco que acordara o demo no peito do amansador de burros passara na estrada. O diabo pediu sossego e de Salu quando se foi já bem tarde engolido na noite montado na égua castanha se ouvia apenas o sacolejar das patas no chão pedregoso num patatá patatá misturando-se pouco a pouco com o coaxar dos sapos da lagoa e os assobios da Comadre Fulozinha-fiuuuuiiii..i..iii….

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O dia nasceu e encontrou Salustiano atravessado de bala na estreiteza de caminho de voltar pra casa pois vingança não se afia em ponta de faca no aberto das pessoas mas sim no mais secreto das confabulações com o demônio.

Foto: Dodó Félix



Este conto foi escrito pelo editor chefe do jornal Correio do Agreste, Fernando Farias Guerra. Ele dá nome ao livro Faca de Ponta Afiada que recebeu menção honrosa no III Prêmio Pernambuco Literário de 2015. Você, também, pode sugerir o seu e compartilhar na aba Contato, aqui, do Fuá de Clara. Leremos com carinho a sua sugestão que, sendo aprovada, poderá ser publicada na categoria Trombeta, porque aqui a gente toca as trombetas pra você falar =)

É de um instante pra outro que a vida muda

Era dezembro. Ela caminhava pela Rua da Aurora meio que sem rumo. Tanto havia acreditado que já não acreditava mais. Tanto havia feito que nada funcionou. Tanto, tanto, tanto e tanto… Agora, chega. Mas chega pra onde? Pra onde o chega a levaria? Não sabia. Apenas caminhava pela rua quase que deserta, naquela tarde de domingo.

Ponte vai, ponte vem, Recife Antigo. Os bares estavam animados com gente bacana conversando e música ao vivo. Não queria saber. “É melhor eu ir pra o ponto de ônibus”, pensou. Como que num rompante, sente um movimento brusco a puxar seu braço.

– Ô, peste, onde é que tu tava, hein? Queres me matar de susto, amiga?

Era a companhia que  ela havia esquecido no caminho de ida. Enquanto ela falava, um embaçado invadiu sua visão. Só via os próprios pensamentos que a assombravam em forma de medo. É, já não acreditava mais.

– Eu liguei que só a murrinha, carregasse o celular, não foi? Tu tá me ouvindo? Vem, senta aqui com a gente que depois a gente vai pra casa.

Foi como quem não sabia o que queria. Não conseguia ver ninguém nem evitava parar de lembrar de tudo o que havia lhe ocorrido. Como a vida muda de um instante pra outro… Era o tempo de erguer os cabelos no alto pra fazer um coque por causa do calor e pronto: a vida lhe ocorreu em frente aos olhos. Roupa pra pôr na máquina, casa pra lavar, comida pra cozinha, desânimo pra lidar, trabalho que procurar, meio pra se sustentar, solidão pra acompanhar. “Foi boa ideia sair, não”, pensou. Precisava dar um jeito na vida. Era estranho se acostumar com a desesperança, era estranho não acreditar. Sentiu um gelado na mão esquerda.

– Toma, peguei pra tu.

Era… era quem, mesmo? Aquela face era novata na roda. Ficou olhando com cara de espanto.

– Relaxa, eu não sou nenhum bandido. Trabalhei aqui na Cultura durante anos até a bichinha fechar. E tu era freguesa nossa. Lembra de mim?

Eita, a Cultura, véi… O mundo tava tão de cabeça pra baixo que até a Cultura acabou.

– Lembro. Obrigada.

Ele continuou.

– Eu conheço uma parte dessa galera com quem tu tá andando. Te vi aí tão jururu que pensei: vou ali comprar um suco pra alegrar aquela menina.

Ela riu. Assim, espontaneamente. Tava nem querendo rir, mas riu e desatou a conversar com ele. Conversaram sobre Meredith e De Luca, mas não haviam assistido à 15ª temporada para opinar profundamente. Conversaram sobre os casarões antigos e abandonados e em como sofreriam as pessoas que, um dia, precisassem fazer uma faxina neles. Conversaram sobre o nada e sobre o tempo que ora passa depressa, ora passa devagar. Qualquer assunto era assunto e era bom conversar.

“Gente, que estranho”, pensou. Após uma volta inteira no mundo dos assuntos mais frívolos, uma troca de números.

– Tu tem whatsapp?
– Uhum
– E eu posso te chamar pra conversar lá, mais tarde?
– Pode.

Foi pra a parada de ônibus com as amigas, logo depois. Não lembrava como se paquera e nem sabia da continuação. Só sabia que havia algo a mais que roupa suja para se pensar. Havia possibilidades. Foi o tempo de erguer os cabelos no alto para refazer o coque, e a vida já tinha mudado. Mas rapaz, que coisa, não?



A invasão

Ele a olhava com o olhar de quem quer. Olhava ela com as suas primas. Em determinado momento, tomou coragem e se levantou:

– Vem cá – disse ele.

Ele a levou, pela mão, para um beco. Sentou-se e ela permaneceu de pé. Pôs a mão direita em seu ombro e respirou fundo. Depois, arriou seu short, sua calcinha e acoplou sua boca à vagina dela. Enfiou a língua. Lambuzou tudo o que pôde, o quanto pôde. Saciou sua vontade. Em seguida, a vestiu e a vida continuou para ambos.

Os encontros no beco foram se tornando sistemáticos. Após a vagina, ele, agora, avançava para os seios, para a boca. Dizia:

– Peito, boca… – enquanto chupava todo o corpo dela, de maneira sistemática.

Naquele dia, quase ocorreu um flagra. Ele se abaixou um pouco mais, a agarrou pelos braços e disse:

– Não é pra contar pra ninguém, está escutando? ESTÁ ESCUTANDO? – disse, elevando o volume da voz.

Ele tinha vinte e um anos. Ela tinha cinco. Ele é primo de segundo grau dela. Cometeu pedofilia dentro da casa dela, escondido, enquanto os adultos responsáveis por ela estavam nos afazeres cotidianos, sem fazer ideia de que, no mesmo ambiente, sua filha, sua neta, sua sobrinha estava sendo molestada por um criminoso.

Ela cresceu mas não saía de casa. Ela se trancava no quarto quando ele aparecia. Ela cresceu e descobriu, nas aulas de educação sexual da escola, o que era aquilo, que aquilo era errado. Ela não escolheu. Ela não quis. Aos nove anos, ela joga uma pilha de livros, na última tentativa de estupro, na cara dele, e ameaça contar para Deus e o mundo. Mas ela não conseguia contar… Estava do outro lado da estatística. Ela se sentia suja, impotente, indefesa, culpada, invadida contra a sua vontade. Ela sentia vergonha, se sentia manchada, sem condições de amar. Ela não aceitava. Ela não sabia… Ela não tinha seios. Não tinha pêlos. Não era, ainda, uma mulher.

Na adolescência, ela sonhava com um príncipe encantado num cavalo branco. No início da vida adulta, com alguém que a pudesse salvar de memórias tão traumáticas. Mas ela não conseguia se entregar, se aprofundar em nenhum relacionamento. Ela sofreu muito mais do que poderia imaginar. Acordava, em todas as madrugadas, por meses seguidos, com a respiração ofegante, assustada. Acordava com as lembranças ruins, com a sensação daquela língua em sua vagina. Ela se colocava em posição fetal e tapava a vagina com as mãos. Ela queria ter se defendido, se pudesse… Ela queria que alguém a tivesse defendido.

Ela chorava, chorava, chorava enquanto desejava esquecer as memórias. Chorava, chorava, chorava enquanto não sabia se contaria tudo para a sua mãe, depois de tanto tempo. Ela sentia raiva de si. Ela não teve condições de se proteger mas queria ter se protegido. Ela teve a vida roubada. Não aguentou e contou. Pense num choro compartilhado em dor, em mágoa, em raiva, em sofrimento. A mãe, mesmo sem saber de nada, sentia culpa.

– Eu teria lhe defendido, eu teria tomado providências, eu não teria deixado impune. – disse enquanto a abraçava chorando.

Pensou em fazer uma denúncia. Pensou e despensou diversas vezes. Não sabia se iria aliviar ou sofrer muito mais durante o processo de depoimentos, pesquisa de provas, encará-lo por mais uma vez. Sua vida foi roubada. Ela não sabe o que fazer. Mas pensa nisso, até hoje, depois de mais de vinte anos.

Pedofilia é crime. Denuncie.

A procura de novos horizontes

Das certezas do que quer, ela sabe. Sabe, também, que nenhum sonho nasce, assim, com a facilidade de se realizar, mas luta. Todo dia, luta um pouquinho mais, investe um pouquinho mais, estuda um pouquinho mais. Seu sonho é, um dia, poder se sustentar fazendo o que gosta.

Quando aquele trabalho com carga horária de oito horas diárias apareceu, não sabia se ficava feliz ou triste. Por um lado feliz pois, apesar de estar trabalhando para os outros, estaria aprendendo sobre coisas que precisaria para os seus projetos. Por outro lado, que tempo haveria para investir nesses tais projetos que são a fonte de sua essência e felicidade? Mesmo com tantas renúncias ficou com a primeira opção. Afinal, que escolha tem o brasileiro pobre do século XXI se não fazer um jogo de cintura brabo se quiser sobreviver e se realizar, ao mesmo tempo? Por vezes, pensava nessa injustiça: “minhas qualidades, capacidades, meu intelecto estão a serviço de enriquecer o outro que não paga metade do que mereço por renunciar à minha felicidade. Tudo isso em nome da sobrevivência…”

O plano não saiu bem como esperava. Havia algo de errado naquele ambiente. Era tudo muito pesado, a começar pela chefia. O primeiro sinal de que não aprenderia o que gostaria deu-se, logo, nos primeiros dias: foi deslocada de sua função originária de sua real profissão. Aceitou isso na ilusão de que teria acesso a outras ferramentas. Mas não teve. Deu de cara com uma chefia, extremamente, centralizadora que guarda toda a intelectualidade dos projetos para si e delega tarefinhas de casa para os seus subordinados. Tudo isso mascarado de longas e milhares de reuniões gerais de equipe que serviam mais para atrasar os trabalhos em andamento do que, verdadeiramente, para resolver alguma coisa. Ela pescava as boas ideias de sua equipe mas, no fim, levava o crédito por todo o trabalho pois fazia questão de realizar todos os planejamentos. Não conseguia, realmente, delegar. Após sofrer, consideravelmente, com as atitudes daquela mulher, alguém a fez abrir os olhos e entender que o nome daquele tipo de atitude é insegurança.

Seus santos não bateram. É o tipo de falta de sintonia que não tem explicação. A doutrina espírita diria que é uma antipatia carregada de vidas passadas. Mas esforçou-se. Encontrou outros inseguros, no caminho. Esforçou-se. Precisou render-se a não pensar (logo ela que amava colocar as ideias para fora!). Limitou-se a fazer o que lhe era pedido. Foi ficando opaca, sem cor, sem vida. Ela nunca se colocou naquele tipo de pensamento onde havia separação entre trabalho e pessoa. Acreditava que trabalhar era uma parte de si, uma parte de quem ela era. Por isso, doía não poder exercer a si, não poder contribuir como sabia que poderia, contudo, se submeteu em nome da hierarquia.

Quis sair daquele ambiente, quis afastar-se da forma como estava sendo vista e reduzida. Tentou. Procurou. Nada. Após alguns meses, houve uma reconfiguração na equipe e uma troca de chefia. Dentro da reconfiguração, assumiu o posto que sabia mexer, aquele para o qual havia estudado. O trabalho fluiu. Mostrou resultados. Todos viram e reconheceram.

Um belo dia, recebeu uma proposta:
– Você ganhou uma promoção. Mas precisamos lhe demitir deste contrato para fazer outro. Não se preocupe. Essa prática é recorrente, aqui.

Que felicidade! Fez planos, criou expectativas com o aumento, colocou algumas coisas na ponta do lápis. Enfim, reconhecimento. Mas, quando veio a demissão, algo se demonstrou errado dentro do seu coração. Foi ficando com medo. Foi achando estranha a ausência de detalhes na comunicação, a ausência de documentos que pudessem comprovar uma proposta realizada, apenas, verbalmente. Contudo, nada poderia, de fato, fazer. Conversar? Conversou! Incertezas começaram a apontar no novo discurso.
– Está tudo preparado. Dependemos de uma autorização. Fique no aguardo.

A demissão aconteceu. Todo aquele processo de rescisão, exame demissional, FGTS, documentação, seguro desemprego foi apagando o seu brilho. Buscou informação? Buscou! Recebeu as mesmas respostas vagas de sempre. Entendeu que a tal autorização não viria, a tal promoção não aconteceria. Sabia do seu valor mas não deixava de doer a tentativa de lhe reduzirem a nada, a alguém que não teria direito, ao menos, à verdade. Foi enganada. Foi seguindo adiante, na luta por refazer sua vida financeira.

Semanas após, recebeu a intervenção de uma pessoa amiga (uma, graças a Deus, dentre tantas amizades que fez mas que não se pronunciaram). Soube, por debaixo dos panos, que a antiga chefia (aquela que o santo não batia) havia retornado, ao setor, com gostinho de vingança. Fez sua caveira, disse que não produzia, que não trabalhava. “Mas, como, meu Deus? Todos viram os resultados! Está tudo lá, nos relatórios!”, pensou. Mas ninguém lhe defendeu. Ninguém.

Foi sofrendo que entendeu o ponto de vista de algumas pessoas que conhecia há muito tempo mas, na verdade, mesmo, conhecia era nada. O mais importante, para alguns perfis, não é executar um trabalho bom e ético. Às vezes, o mais importante é ter influência. Chorou. Sofreu. Por dentro, tudo se revirou. Mas continuou a procurar novos clientes e horizontes.

O dia em que eu conheci Colt Brothers

Querer empreender quando nada se tem de recurso é um grande desafio para o pobre brasileiro (ou brasileiro pobre) do século XXI. A vida, para quem não tem tantas oportunidades, pode ser difícil, pode ser dura. Mas eu sou daquelas que, também, é difícil com a vida. Enquanto a marca da mordida do mosquitinho da persistência e do sonho estiver cravada em minha alma, eu vou ser difícil com a vida. Quer me derrubar? Vou dar trabalho. Quer me fazer desistir? Vou dar trabalho. Quer me fazer parar? Vou dar trabalho.

Naquela tarde de sábado, eu só precisava do meu VEM Estudante para me locomover, de uma boa companhia e de muita força de vontade. Quem quer empreender e não tem dinheiro, amor, frequenta palestras e eventos gratuitos, não é verdade? Não nego que deu vontade de ficar na minha casa, mas eu quis mostrar pra a vida que não tenho postura de perdedora. Fomos lá, eu e minha amiga, para o outro lado da cidade (um lugar que desconhecíamos mas que podemos, aqui, apelidar de “puta que pariu” ou “fiofó do maior bairro da cidade”). Eu e minha amiga somos seres, profissionalmente e geralmente, comunicadores e espontâneos mas, naquela tarde, mais interessante seria se segurássemos o momento de honrar o cobrador do ônibus com nossas belas vozes sedutoras a direcionar uma dúvida e olhar o aplicativo de mapas do celular, afinal, isso é, extremamente, mais empolgante (só para constar, pedir informação ao cobrador não mudou o curso desta história. Continue a ler).

Nossa aventura começa descendo na parada de ônibus errada.
– Amiga, o ônibus parou num lugar diferente do que está mostrando, aqui, no aplicativo. Suspeito que vamos andar bastante -, diz a minha amiga muito calmamente.
– Certo, a gente se acha. Só preciso comprar alguma coisa pra comer. Eu não almocei -, digo eu sentindo a barriga roncar.
– Tem uma mercearia, logo ali, – diz a minha amiga – vamos logo, já estamos atrasadas.

Comprei um pacote enorme de salgadinho industrializado (bem maior que minha capacidade de comer), uma garrafinha de refrigerante e uma cocada cremosa (sabe aquelas crocantes por fora e cremosas por dentro? Amo!). Em seguida, pedimos informação à atendente do caixa. Certamente, ela saberia nos ajudar.
– Como é, mesmo, o nome do lugar para onde vocês querem ir? – diz ela (comecei a me desesperar, intimamente, sem demonstrar) – Ah, deve ser aqui atrás, perto do terminal de ônibus. Quer dizer, não sei direito, não me lembro, é que eu não conheço muito bem essas bandas… (faz cara de pensativa e olha para o além, leia-se além como o alto, o nada, o vento em movimento).

De repente, surge à porta da mercearia, o que parecia ser o nosso salvador da pátria: um senhor baixinho de chapéu, todo solícito a entrar no meio da conversa. Diante daquela lua cheia (leia-se o sol do meio dia sem nenhuma nuvem no céu) ele nos orientou, com toda a certeza deste mundo acomodada dentro dele, que fôssemos direto, eternamente direto, sem dobrar em lugar algum.
– Olhe, lá no final é o terminal do ônibus. Esse lugar fica bem pertinho, aí lá você pergunta -, disse o homem confiante.

Fomos, lindas e calmas, iniciar nossa jornada em busca do lugar da palestra enquanto eu comia os salgadinhos, sujava meus dedos, lambia-os e tomava o refrigerante (e vice-versa). Depois de muito andar, minha amiga percebeu algo estranho.
– Amiga, nós estamos nos afastando do lugar. Olha, aqui, no aplicativo.

“Fudeu”, pensei. Mas, antes de ir acrescentando, a este pensamento, outros tantos semelhantes como “puta merda, véi, e agora?”, eis que surge a segunda salvadora da pátria: uma mulher passando no meio da rua.
– A senhora sabe onde fica esse lugar, aqui? -, pergunto eu, torcendo, positivamente, e mostrando o endereço – o moço disse que fica perto do terminal de ônibus.
– Ah, é perto do terminal, é? Eu tô indo pra lá, bora?
Caminhamos mais algumas léguas debaixo daquele sol de Deserto do Saara até que chegamos em um canal e… E? Exatamente: e? Adivinha: a mulher não sabia mais para onde ficava o terminal e o aplicativo indicava o lugar como mais distante do ponto almejado (só que foram os olhos da minha amiga que trocaram as bolinhas do mapa. Estávamos no lugar certo, porém, levemente apavoradas). Esperamos a mulher telefonar para um grande amigo seu, morador do bairro, que, certamente, nos daria uma informação segura.
– Ele disse que não conhece, não, esse lugar aí -, disse ela.
– Sério? -, digo eu, triste – até que minha amiga diz a tal frase iluminada.
– É não, é não, estamos na direção correta, é pra lá -, diz ela apontando.

Após confirmarmos com as moças do bar perto do canal, seguimos a jornada a pé observando aquele lugar desconhecido. Finalmente, havíamos nos encontrado após algumas léguas aterrorizantes sem saber se estávamos perdidas. O sol continuava quente de lascar e eu estava acabando de tomar todo o refrigerante daquela garrafa quando, de repente encontramos (adivinha quem?) o moço baixinho de chapéu que nos havia ensinado o lugar errado.
– Oxente, vocês não foram por onde eu disse, não? -, pergunta ele.
– Nada, o lugar é logo ali – diz a minha amiga, pacientemente (porque se fosse eu podia ter-lhe causado intenso sofrimento físico, naquele momento).

A palestra foi meia boca, mas deu pra salvar algumas informações do que nos interessava. O sentimento de “eu fiz e não deixei para amanhã” estava presente. Ele me faz bem. Seguimos para a estação de metrô mais próxima para voltar para casa. Quando mais nada poderíamos esperar daquela tarde, eis que surgem eles: eles, minha gente, eles! Colt Brothers. Dois cabras lindos com um violão, um cajón, um caixinha de som e dois microfones se preparando para entrar no metrô. Tivemos a sorte de ficar no mesmo vagão que o deles.

Eles não eram mais uma dupla de músicos indo tocar em algum lugar, como pensávamos. Nós éramos a sua platéia naquela tarde de sábado. Eles montaram os equipamentos e começaram a tocar e cantar suas músicas autorais de língua inglesa. Um estilo único, particular. Uma personalidade artística bem definida. Um timbre rasgado, forte. Um trabalho bem feito, podes crer! Eu poderia, muito bem, me casar com o brother barbudo de tatuagem de cruz no pescoço (brincadeirinha! Mentira, eu poderia sim. Brincadeirinha!). Eu termino este conto dizendo que aquele dia valeu a pena por causa da música deles (e por causa de sua beleza, também. Brincadeirinha!).

Eu vou deixar as redes deles, aqui, para vocês conhecerem, tá?
Instagram: @coltbrothersoficial
Fanpage: facebook.com/coltbrothersoficial

Continua sendo Deus

Se Deus fizer, Ele é Deus. Se não fizer, Ele é Deus. Se a porta abrir, Ele é Deus. Mas se fechar, continua sendo Deus.

Ela cantava enquanto os maqueiros a levavam para a sala de cirurgia. Olhava para o teto, via o passar das lâmpadas, sentia o momento que mais temia se aproximar, mas cantava. Como se fosse a última vez, como se fosse a última chance. A voz tremia, as lágrimas caíam e molhavam o lençol.
– Ela canta, é?, perguntou um dos maqueiros.
Rapidamente, a mãe dela se aproxima, chorando, e responde:
– Sim, ela é cantora.
Pensou no quanto era deprimente precisar chegar a uma situação de risco para ver a mãe admitindo a profissão que ela havia escolhido para si. Mas pensou também que, se mesmo com a voz trêmula, alguém desconfiou de que ela cantava, é porque ela cantava, mesmo. Pensou no quanto era deprimente vestir uma bata verde como aquela e envolver seus cabelos e pés com aquelas touquinhas. Pela primeira vez, também, havia depilado tudo o que chamava de “checa” porque ia ficar pelada na frente de um monte de gente.

Se a doença vier, Ele é Deus. Se curado for, Ele é Deus. Se tudo der certo, Ele é Deus. Mas se não der…

Não conseguia continuar a música. Tinha medo de que não desse certo. Lembrou de todos aqueles meses de sofrimento, de todos os pressentimentos de que algo de inusitado a poderia levar daqui. Mas, também, lembrou das orações, dos pedidos, da fé. Pedia perdão a Deus porque o medo a estava vencendo.
– Será que ela está tendo reação a algum medicamento, doutora?, pergunta a enfermeira.
Com entonação confiante, como quem sabe que tudo vai dar certo, a anestesista responde:
– Nada, ela nem entrou, ainda. Isso é medo.
– É sua primeira cirurgia?, pergunta a enfermeira segurando a maca.
– Sim, responde ela bem baixinho.
Imediatamente, a enfermeira enxuga suas lágrimas e acaricia seu rosto.
– Não te preocupes. Vai dar tudo certo.
Ela sabia que aquele era o primeiro sinal do cuidado pedido a Deus. Na sala, a agressão de precisar ser despida e anestesiada foi amenizada pelo carinho daquela equipe, que era profissional. Ao sinal avisado a respeito da primeira dose de anestesia, fecha os olhos e, antes de prender a respiração e ficar imóvel para levar a picada, termina a música.

Continua sendo Deus.

Somente, ali, conseguiu fazer o que ansiou por tantos meses: entregar. A hora havia chegado e ela pediu para não ver, não ouvir, não saber. Muito se fala sobre essa coisa de entregar situações, entregar pessoas, entregar sentimentos a um poder ou uma força maior. Ela sabia o que era aquilo, ela havia vivido experiências de entrega, ela lembrava do sentimento. Mas parecia muito difícil voltar àquele estado de confiança diante de um medo diferente. No entanto, era o que ela mais queria. Conseguiu. Tanto pediu que alcançou. Agora, sim, estava tudo nas mãos de Deus. Nada mais poderia ser feito.

Um breve instante e percebeu uma cortina azul em sua frente. Vozes distantes de enfermeiros e médicos pareciam falar sobre séries e filmes americanos. “Está acontecendo e eu estou acordada”, pensou.
– Por favor, eu quero dormir, disse em voz alta.
– Ela quer dormir, doutora, diz uma enfermeira em tom cômico.
Em poucos minutos, seu médico se aproxima.
– Tá tudo bem, só faltam os pontos. Vai poder ter quantos meninos quiser. E sai da sala.
Ela ri de nervoso. Percebe que, na verdade, estava acordando de um sono de cerca de uma hora. Conversa com os enfermeiros. Olha aquilo que saiu de dentro dela. Sente alívio. Parece que a saúde está a salvo. Parece que vai ficar. Parece que Deus ouviu e atendeu. “Como fui tola de sofrer e duvidar”, pensava.

Ao ser retirada da sala, vê sua mãe chorando e repetindo: “Jesus te ama”. A caminho da sala de observação, tenta refletir sobre essa coisa de entregar. Parece que entregar é dar o seu melhor e esperar que a melhor escolha será pautada para o seu destino, seja ela qual for. Seja o que for, entregar é aproveitar a vida, o tempo, o que pode ser feito sem esperas desnecessárias, sem gastos energéticos desnecessários. No entanto, toda experiência, ainda que sofrida, solidifica um aprendizado. Então, vale a pena.

Agora, ela gostaria de fazer tudo o que sentiu falta de ter feito quando achou que não haveria mais tempo. Sabia que não deixaria de ter medo. Mas sabia também que, como diz a letra da música: “haja o que houver, sempre será Deus”.

*Deus é Deus é uma música de Delino Marçal.