Algo mais

Você chegou onde queria
Mas, ainda, há algo mais
Você está bem, como queria
Mas, sempre, há algo mais

Algo mais da vida
Algo mais da gente
Algo por desvendar
Algo que vem, de repente

Você aprendeu a lidar
Com muita coisa que se passou
Você, agora, pode ter acesso
A outros nós que não desatou

Você se fortaleceu
E pode dar conta de si
Você pode arcar com tudo
O que acontecer a partir daqui.

Siga em frente.

Um novo olhar para o que se repete

Tenho pensado nos ciclos que se repetem. Por vezes, me canso deles. Cansaço poderia ser um dos piores sentimentos que me abatem, porque ele me faz desistir. Eu demoro a cansar mas, quando canso, falta pouco, muito pouco, para jogar a tolha, chutar o pau da barraca, me abandonar. Existe coisa pior do que se abandonar? Somos o que escolhemos, somos nossa única e real companhia. Somos responsáveis por nós mesmos. Estes são os reais motivos para que não faça sentido algum se abandonar. Significa que somos responsáveis por tudo o que sentimos, tudo o que pensamos. E como diria Carlos Torres Pastorino, em uma citação de uma mensagem que recebi da minha professora de Português no auge dos meus onze anos de idade: “Tudo nasce do pensamento”.

Pensar nos ciclos que se repetem me faz lembrar que, ainda, não aprendi algo de importante que a vida está tentando dizer. Ontem, mesmo, enquanto conversava com uma amiga no ônibus, sentada nas escadas da porta, que não era a de desembarque, e olhando os lugares passarem rápido, fui me dando conta de relações que não quero mas tolero, sei lá por quê. Poderia ser medo de romper? Poderia ser medo de me sentir só? Poderia. Mas o que me faz pensar que viver só é pior do que viver sofrendo com atitudes de pessoas que não posso mudar? Eu olhei pra o vidro daquela porta, o vento batendo nos meus cabelos, e disse: “devo estar me despedindo das relações tóxicas”. Por alguma razão, esta cena me marcou, assim como a frase de Pastorino a qual, jamais, esqueci. Porque romper, nem sempre, precisa acontecer com palavras. Pode ser gradativo, pode ser um desviar de atenção. Pode ser uma atitude de viver outras coisas. Pode ser o respeito pelo tempo de cada um. E estar só pode não ser ficar consigo buscando equilíbrio para uma nova fase que se deseja ou que se aproxima.

O cansaço, às vezes, pode dizer que é preciso tentar de novo e de uma forma diferente das outras. O cansaço e a tristeza podem chamar para um reflexão mais profunda que não poderia arrumar espaço para surgir enquanto as mudanças ocorrem. Este é o momento em que você cresce enquanto nada ocorre. Este é o momento em que você toma decisões que vêm se arrastando por anos em meio à falta de coragem. Este é o momento em que você decide o que é melhor pra você. É em meio ao meu cansaço e à minha tristeza que digo: há algo que, ainda, não aprendi. Pode ser algo que eu sei há muito tempo mas, ainda, não aprendi. Porque aprender é fazer, seja lá de que jeito for. Não saberemos até fazer.

É em meio ao meu cansaço e à minha tristeza que venho caçando a coragem para não desistir de mim. E olhando por outro ângulo: que bom que as repetições ocorrem. Significa obter uma nova oportunidade. Aquela que, somente, cabe a nós aproveitar porque, somente, nós detemos o poder de modificar nossos pensamentos.

Falemos de mesmice

Vamos refletir sobre a mesmice. Uma vez, visitei uma espécie de oráculo, na internet, uma espécie de livro que se pode abrir de qualquer página em busca de uma mensagem, no site de uma terapeuta portuguesa (Alexandra Solnado). Ao experimentar o que ela chama de conexão, fechei os olhos e fiz uma pergunta sobre a ausência de mudanças em uma área de minha vida. Achei a mensagem vinda como resposta muito interessante. Dizia que muito se fala de mudanças e que muita gente vive mudando de lugar, de aparência, de emprego, adquirindo bens materiais etc. Contudo, segundo aquela mensagem, a mudança que, realmente, interessa é a maneira como olhamos as mesmas coisas. A mensagem continuava exemplificando pessoas que, há anos, possuem o mesmo emprego, a mesma casa, o mesmo carro e, no entanto, continuam mudando, sempre.

Trata-se de um esforço todo nosso que está contido naquele pacote de subjetividade que diz quem nós somos. Contudo, percebo que não é todo mundo que está pronto ou que para para observar este lado.

É preciso coragem para mudar, todos os dias, dentro das mesmas atividades. É preciso autoconhecimento e disciplina. Percebo que queremos mudar mas esmorecemos, durante o trajeto, diante das dificuldades de enfrentar a nós mesmos.

Não é, mesmo, fácil. É o meu e o seu desafio. É o desafio de quem prefere dar resolução aos questionamentos pela raiz. Lidar consigo, na sociedade de hoje, diante da forma como fomos criados é começar do zero em uma vida onde tanto já se andou. Mas tudo contribui. Queiramos paciência para nos observar, para nos conhecer, para sermos sinceros conosco quanto aos nossos quereres. Queiramos paciência para não vivermos com os pesos do passado nem com as ansiedades do futuro. Queiramos o presente, mesmo com mesmices. Forcemos um outro ângulo para observar e tenhamos concentração para estar e viver no agora.