Me trazer de volta

Paulista, 13 de junho de 2018

Querido Deus,

Ainda me surpreendo com a Tua forma de falar com as pessoas. Pergunto-me se todas possuem condições de interpretar os Teus sinais e logo me respondo que não. Por isso, imagino eu, o Senhor arruma novas e novas formas de falar a mesma coisa, até que nós ouçamos/percebamos a mensagem. Às vezes, o Senhor fala por intuição, outras vezes por acontecimentos, outras por pessoas, outras, ainda, por repetições. Isso mesmo. O Senhor é tão esperto e a Tua criatividade é tão infinita (assim como a Tua grandeza e bondade) que permite que os mesmos ciclos se repitam, que os mesmos sofrimentos retornem vestidos com outras roupas só para que nós tenhamos a oportunidade de entender o que tanto queres falar.

Eu preciso agradecer. Eu entendi que a gratidão é a força motriz que traz a cura para as dores, clareza para a alma, direcionamento para os objetivos. Eu preciso agradecer por todas as coisas, as boas e as ruins, as presentes e as ausentes, o que se pode ver e o que, ainda, não foi visto. Eu agradeço porque, nos últimos tempos, o Senhor me ensinou que os maiores sofrimentos são os maiores empurrões. A gente sofre e entra em contato com a nossa alma, a gente sofre e não tem controle sobre a sensibilidade, a gente sofre e busca entender. Essa busca é fundamental para nos encontrar com o Teu propósito de evolução.

É tanta coisa que aprendi que é, até, difícil explicar. Repetições me fizeram enxergar que todo aprendizado não é suficiente para nos manter conectados. O que nos conecta são as práticas diárias de ir até Ti, seja por leituras e estudos, reflexões, atividades que nos fazem perder a noção do tempo, ajudar o próximo, meditar, principalmente. Uma desconexão com a nossa essência pode acarretar consequências catastróficas. De repente, de mansinho, uma emoção negativa se aloja e convida outras a entrarem, sorrateiramente. A gente fala uma bobagem, cria uma preocupação, julga sem querer, se vitimiza, vive com pressa e pronto: na hora em que tudo explode, o estrago está feito.

Descobri que uma das atitudes mais difíceis da vida é retornar a se descobrir depois de pensar que já havia feito de tudo. É trilhar, pela segunda vez, o mesmo caminho de volta por ter traído a si. Imagine, Senhor, o que é pensar positivo, fazer por onde alguma coisa mudar e ver nada, absolutamente nada, sair do lugar… É desesperador. Imagine sofrer uma série de perdas simultâneas pra poder sentir uma dor inimaginável pra poder perceber que tudo o que a gente recebe é reflexo de tudo o que a gente emana e, mesmo assim, não saber como faz pra mudar. Perder tudo pra poder entender, pela segunda vez, o quanto é importante agradecer. Perder tudo pra poder entender que as respostas e os suportes estão dentro e não fora. Perder tudo pra poder sofrer, pra poder buscar, pra que alguém me diga que pensar positivo não é o suficiente se o meu sentimento estiver me sabotando…

Imagine, Senhor, ter que voltar a um lugar, dentro de mim, que eu achava já ter preenchido com terra fértil e plantado bem. Quem sabe, florestas poderiam ter sido criadas se eu não tivesse parado de alimentar a minha conexão e priorizado a minha pressa. Passou. Aprendi que não posso mudar o que passou. Não posso mudar o que podem ter feito comigo. Mas eu posso escolher o que fazer com isso. Eu posso decidir como reagir a isso. Posso ir Te encontrar todos os dias e pedir a Tua ajuda para perdoar, para gerar amor, para curar as feridas, para limpar a densidade das emoções ruins, para ser amor. Posso usar as forças que me restam para lutar contra pensamentos que me destroem e que eu permiti que entrassem sem nem perceber por causa da dor, posso medir minhas palavras e fazer um esforço pra deixar de reclamar, de julgar, de me pôr no lugar da vítima. Posso lutar por mim, para ter um coração leve, para entregar, nas Tuas mãos, meus maiores sonhos, para me dedicar ao trajeto de ir ao encontro do que mais preciso.

Essa é a luta silenciosa mais difícil que eu conheço mas sei que é a única que, realmente, vale a pena. A gente não tem o poder de fazer uma mudança exterior acontecer sem, antes, trabalhar para que ela ocorra dentro de nós. É a parte mais difícil da vida: mudar aquilo que a gente sente, aquilo que não nos serve. Quando a gente consegue… a gente chega mais perto de Deus.

Estou tentando de novo, meu Deus. Agradeço por me trazer de volta.

Com amor,
Sua filha.

Tá tudo bem

Paulista, 17 de abril de 2018

Querido Deus,

Lembro-me bem de ver meu priminho de seis anos de idade brincando de cortar e empilhar papéis, em cima de uma mesa que há no quintal da minha casa, achando que era um ajudante Seu. Ele inventou que o Senhor o havia pedido para produzir bolsas para uma grande festa no céu. Vez ou outra, ouço, sempre, ele falando de Ti com a maior naturalidade, como se pudesse, constantemente, se comunicar. Recorre-me, agora, que o nome disso é intimidade. Passo a perguntar-me como vai a minha intimidade Contigo diante de tudo o que estou passando, neste momento.

O que sei é que tento ser forte e, por vezes, saio de mim. Ao voltar, não sei dizer por onde estive, durante tanto tempo. O sofrimento é assim: vem de mansinho, vai desestruturando cada haste pregada com esforço até que toda a atenção é doada a segurar o que sobrou. Não conseguimos perceber que mudanças foram se instalando enquanto estávamos fora de nós. Não conseguimos ver quanto tempo passou entre o tempo em que estava tudo bem até o tempo em que muito se foi perdido.

Perder-se, já analisei, é sinal de que algo, ainda, não foi encontrado no interior. Algo não foi compreendido, aprendido, introjetado de maneira que nos torne uma pessoa melhor. Quem quer ser melhor não olha cada sofrimento que vem da mesma forma. Uma coisa é a cabeça que sabe de tudo isso de cor e salteado. Uma coisa é lembrar disso a cada vez que a roda gigante pega o impulso e volta a subir. Outra coisa é resistir, segurar a casa enquanto a onda passa e leva o que tem de levar, mesmo que doa. A gente fica sem garantias para acreditar, mas escolhe acreditar, mesmo assim, porque sei lá…

Dizer que amo a Ti no meio da dor, já experimentei, é uma sensação que me faz chorar descarregando todo o peso que venho acumulando, sem querer. Querer estar diante de Deus e não saber o que dizer, mas lembrar que escolheu seguir Seus passos, escolheu fazer o bem, querer o bem é, mesmo, libertador. Sinto como se o Senhor reforçasse cada pingo de amor que possa ter sobrevivido, depois de tantos sentimentos devastadores. Às vezes, a gente precisa parar… pra enxergar os outros pontos. Às vezes, a gente precisa começar a andar, se mexer, fazer ou escrever sem rumo para, no meio do caminho, lembrar do que é mais importante: querer o bem, querer se livrar do que não faz bem.

O mais importante é ter amor, dar amor, agradecer. A gente não precisa, mesmo, mostrar que a gente consegue pra ninguém. Ainda que tudo esteja desabando, se a gente sabe que sente amor e se permite seguir com ele, fica tudo bem. A gente chora e diz: tá tudo bem. Porque tá, mesmo.

Com amor,

Sua filha.

Só me diga, Deus…

Só me diga, Deus, se é isso mesmo
Se a gente se encontra à esmo
Quando o sol bater do lado de cá

Só me diga, Deus, se é pra eu me conformar
Se é pra parar de lutar
Já que estou remando contra a maré

Só me diga, Deus, o que posso escrever de bonito
De um sonho que permanece vivo
Mas não tem como sair do papel

Só me diga, Deus, se é ousadia ter esperança
Se minha fé está com temperança
Se o meu destino é só aguentar

Só me diga, Deus, se o amor é um instrumento tão forte
Capaz de sobreviver à morte
Capaz de nascer na escuridão

Só me diga, Deus, se posso ser perdoada
Se o pecado não me empata
De um dia ver paz, no dia…

Continua sendo Deus

Se Deus fizer, Ele é Deus. Se não fizer, Ele é Deus. Se a porta abrir, Ele é Deus. Mas se fechar, continua sendo Deus.

Ela cantava enquanto os maqueiros a levavam para a sala de cirurgia. Olhava para o teto, via o passar das lâmpadas, sentia o momento que mais temia se aproximar, mas cantava. Como se fosse a última vez, como se fosse a última chance. A voz tremia, as lágrimas caíam e molhavam o lençol.
– Ela canta, é?, perguntou um dos maqueiros.
Rapidamente, a mãe dela se aproxima, chorando, e responde:
– Sim, ela é cantora.
Pensou no quanto era deprimente precisar chegar a uma situação de risco para ver a mãe admitindo a profissão que ela havia escolhido para si. Mas pensou também que, se mesmo com a voz trêmula, alguém desconfiou de que ela cantava, é porque ela cantava, mesmo. Pensou no quanto era deprimente vestir uma bata verde como aquela e envolver seus cabelos e pés com aquelas touquinhas. Pela primeira vez, também, havia depilado tudo o que chamava de “checa” porque ia ficar pelada na frente de um monte de gente.

Se a doença vier, Ele é Deus. Se curado for, Ele é Deus. Se tudo der certo, Ele é Deus. Mas se não der…

Não conseguia continuar a música. Tinha medo de que não desse certo. Lembrou de todos aqueles meses de sofrimento, de todos os pressentimentos de que algo de inusitado a poderia levar daqui. Mas, também, lembrou das orações, dos pedidos, da fé. Pedia perdão a Deus porque o medo a estava vencendo.
– Será que ela está tendo reação a algum medicamento, doutora?, pergunta a enfermeira.
Com entonação confiante, como quem sabe que tudo vai dar certo, a anestesista responde:
– Nada, ela nem entrou, ainda. Isso é medo.
– É sua primeira cirurgia?, pergunta a enfermeira segurando a maca.
– Sim, responde ela bem baixinho.
Imediatamente, a enfermeira enxuga suas lágrimas e acaricia seu rosto.
– Não te preocupes. Vai dar tudo certo.
Ela sabia que aquele era o primeiro sinal do cuidado pedido a Deus. Na sala, a agressão de precisar ser despida e anestesiada foi amenizada pelo carinho daquela equipe, que era profissional. Ao sinal avisado a respeito da primeira dose de anestesia, fecha os olhos e, antes de prender a respiração e ficar imóvel para levar a picada, termina a música.

Continua sendo Deus.

Somente, ali, conseguiu fazer o que ansiou por tantos meses: entregar. A hora havia chegado e ela pediu para não ver, não ouvir, não saber. Muito se fala sobre essa coisa de entregar situações, entregar pessoas, entregar sentimentos a um poder ou uma força maior. Ela sabia o que era aquilo, ela havia vivido experiências de entrega, ela lembrava do sentimento. Mas parecia muito difícil voltar àquele estado de confiança diante de um medo diferente. No entanto, era o que ela mais queria. Conseguiu. Tanto pediu que alcançou. Agora, sim, estava tudo nas mãos de Deus. Nada mais poderia ser feito.

Um breve instante e percebeu uma cortina azul em sua frente. Vozes distantes de enfermeiros e médicos pareciam falar sobre séries e filmes americanos. “Está acontecendo e eu estou acordada”, pensou.
– Por favor, eu quero dormir, disse em voz alta.
– Ela quer dormir, doutora, diz uma enfermeira em tom cômico.
Em poucos minutos, seu médico se aproxima.
– Tá tudo bem, só faltam os pontos. Vai poder ter quantos meninos quiser. E sai da sala.
Ela ri de nervoso. Percebe que, na verdade, estava acordando de um sono de cerca de uma hora. Conversa com os enfermeiros. Olha aquilo que saiu de dentro dela. Sente alívio. Parece que a saúde está a salvo. Parece que vai ficar. Parece que Deus ouviu e atendeu. “Como fui tola de sofrer e duvidar”, pensava.

Ao ser retirada da sala, vê sua mãe chorando e repetindo: “Jesus te ama”. A caminho da sala de observação, tenta refletir sobre essa coisa de entregar. Parece que entregar é dar o seu melhor e esperar que a melhor escolha será pautada para o seu destino, seja ela qual for. Seja o que for, entregar é aproveitar a vida, o tempo, o que pode ser feito sem esperas desnecessárias, sem gastos energéticos desnecessários. No entanto, toda experiência, ainda que sofrida, solidifica um aprendizado. Então, vale a pena.

Agora, ela gostaria de fazer tudo o que sentiu falta de ter feito quando achou que não haveria mais tempo. Sabia que não deixaria de ter medo. Mas sabia também que, como diz a letra da música: “haja o que houver, sempre será Deus”.

*Deus é Deus é uma música de Delino Marçal.

Insistir na guerra

Já não sei o que fazer com a espera
Enquanto esses pensamentos invadem o meu presente
Consomem meu paladar cerebral de algo bom
E tomam conta da minha mente

Por todas as vezes me preocupei com o futuro
Que estou criando deixando a paz acabar
E tentei repelir o que sinto e penso
Por tantas e quantas vezes isso fosse durar

Na última tentativa
Falei de novo, despretensiosamente, com Deus
E pedi pelo que me causava medo
Entregando os resultados do destino meu

De repente, o corpo assentou-se em si
E eu soube que Deus acolheu o pedido
Agora, é nisso que quero crer
E é isso que pretendo manter vivo

Sabe o destino? Ele se cumpre

Eu comecei a cantar em 2007 na Capela Cristo Missionário, aqui do bairro onde moro. Meu pai estava morrendo. Eu precisava me apegar em algo antes de me sentir, completamente, só para enfrentar aquela dor cuja chegada eu já pressentia. De maneira concomitante, iniciei uma trajetória cantante nas missas da Universidade Católica de Pernambuco, onde eu estudava. Fiz vários amigos na Pastoral da Universidade. Fiz muitos outros na igreja do meu bairro, também. Amigos de uma vida e para uma vida.

A igreja me ensinou muito sobre ter confiança, especialmente, quando está muito claro que não se tem o controle sobre as situações. A igreja foi a coisa mais certa quando meu pai partiu. Eu fecho os olhos e lembro dos meus amigos ao meu redor e aquilo era tudo o que eu precisava. Carrego em mim, sempre, essa relação de amor construída, refletida e vivida com um Deus que eu nem conhecia e nem conheço, mas faço questão de buscar dentro de mim, todos os dias.

Para me sentir mais próxima do meu pai, que era músico autodidata, foi que eu comecei a estudar Música. Quando eu vou cantar e tocar violão, eu fecho os olhos e me lembro do teclado montado na varanda da minha casa. Eu, tímida, me aproximava e pedia pra cantar. Painho aprendia acordes de músicas gravadas por Sandy e Júnior e Los Hermanos só pra me agradar. Em seguida, ele me pedia pra aprender o repertório de Gal Costa, Caetano, Roberto e, assim, seguia-se a troca. Eu fecho os olhos e lembro de meu pai na sala de minha casa, encostado no sofá, tocando violão e cantando. Ali, compusemos nossa primeira e única música.

Estudar transformou-se num refúgio e, também, num porto seguro para as minhas emoções. Eu me escondi atrás da vida acadêmica. Por mais que eu não quisesse, estava lá dando a ré para chegar no mercado profissional. Aprender a cantar é coisa de gente muito corajosa. Cantar é se expor. No meu caso, aprender a cantar foi destruir uma casa interior montada pra aprender a montar outra. Eu aprendi mas, nem sempre consigo mostrá-la. Essas coisas foram me afetando com o passar do tempo. A opinião de quem não gosta do que ouve foi ficando, apesar de eu saber que tem quem goste, também. Às vezes, isso bateu de maneira mais profunda, agora nem tanto.

Porque, agora, a vida está de cabeça pra baixo, as prioridades mudaram e eu não sei pra onde foram alguns sonhos, alguns projetos, algumas metas. Olho ao meu redor e vejo dificuldades que me abalam. No meio de uma parada na técnica vocal misturada com uma turbulência, foi como se Deus, no susto, me chamasse pra cantar, dizendo: Vai, menina. Eu quis correr, lógico! “Senhor, chame outra pessoa, meu véi. O Senhor não tá vendo como tá essa voz? Não tá vendo como tá essa cabeça? E esse coração? Me chame, não, pai”. Mas, dessa vez, Deus foi teimoso, Ele insistiu, Ele sabe que não me criou pra ser covarde. Ele sabia que eu ia encarar.

Exatos dez anos após aquela pirraia começar a cantar toda desengonçada naquela capela, ela assume seu primeiro compromisso profissional com a Música. E foi pra Ele, bicho. Foi pra Ele que eu cantei. Por Ele comecei a cantar, com Ele prestei o primeiro serviço profissional de cantora da minha vida. Foi como voltar no tempo: depois de tantos anos estudando, até medo de entrar no tom errado deu. Era como se eu, ainda, fosse aquela menina de aparelho na boca e sorriso largo. Mas era, também, como se a mulher que sou hoje estivesse dando a mão pra ela e dizendo: bora, tô aqui, a gente consegue. A oportunidade do jeito que surgiu e, agora, a experiência do que vivi depois disso me dizem que, independente de quem ache feio ou bonito, o que mais me impulsiona a cantar é a necessidade. É como respirar, é como escrever. Eu preciso. Cantar me preenche. Não, é mais que isso. Cantar me alimenta. Não, é mais que isso. Cantar me liberta. Não. É mais que isso. Cantar me cura.