Um pedido da alma

Minha infância e pré-adolescência não foram badaladas. Não podia sair de casa, não podia ter muitos amigos. Então eu me enfiava por debaixo dos livros, escrevia, brincava de boneca e assistia televisão. Ah, a televisão… Era minha porta de entrada para o mundo nos anos 2000 antes de eu ter um celular, antes de eu mexer na internet pela primeira vez. Todo domingo à tarde, sintonizávamos o canal do Planeta Xuxa. Ah gente, eu adorava ver a rainha entrevistando os artistas heheheh E gostava, também, da banda LS Jack que ela, praticamente, lançou no programa dela. Gostava da voz rasgada do Marcus Menna.

A música Uma carta foi lançada em 2001, no auge da banda, um ano antes de o Planeta acabar. Tenho uma lembrança muito viva com essa música, de uma viagem escolar que participei. A viagem/aula terminava numa praia. Eu lembro que tirei os sapatos e fiquei descalça com os pés na areia. Não parava de cantarolar essa música. Cantei-a a viagem inteeeeira. Foi a minha trilha sonora secreta para aquele momento. É cantar essa música e eu lembro de tudo como se fosse hoje.

Imaginava uma carta dentro de uma garrafa de vidro vazia sendo colocada no mar e os desdobramentos nunca descobertos que isso poderia ter. Como eu era romântica! kkkkkkk Mas a música dá, exatamente, essa ideia: um náufrago a espera do amor verdadeiro. Quando gravamos esse cover para o canal, pedi ideias a uma amiga. Eu queria mesmo improvisar a cena de uma garrafinha sendo jogada na praia, até que minha amiga falou: “amiga, escolhe uma cena mais ecológica, proteja a natureza” kkkkkkkkkkkkkkkk Desisti, prontamente, da ideia.

Aí vai o cover de Uma carta (gravado a long time ago) para vocês =*


Ter um sonho todo azul

Quem tem um timbre de voz diferenciado e marcante deve ser grato pelo resto da vida e não deixar passar a chance de utilizar esse dom. Imagina alguém escutar a sua voz, independente do momento, ou de ruídos ocasionais, ou de qualquer melodia desconhecida, e reconhecer você. É sublime. É uma bênção. A voz é um instrumento poderoso capaz de transformar lugares, no interior do ser, inimagináveis. Tim Maia tinha esse dom. E lutou por ele com garra invejável. Ele se foi mas a voz dele continua, inegavelmente reconhecida, na mente das pessoas onde quer que ele seja ouvido. Sua obra é seu legado. Ele se foi e eu era criança mas ouvi Tim Maia minha vida inteira e ouço, ainda, porque adoro.

A música Azul da cor do mar, composição dele lançada em 1970, é uma de minhas prediletas. Ela fica num grupo especial de outras músicas que me ensinam a olhar para a vida de uma maneira mais reflexiva e sábia. Era dom, também, a maneira que ele tinha de falar sobre a vida e ele o aproveitou muito bem. Azul da cor do mar me leva a um lugar de resignação. Muitas vezes, confundi resignação com derrota. Nada disso: resignação é uma postura sábia de gente que não perde a esperança de que o futuro pode ser diferente sem perder, também, a aceitação sobre o momento presente. E aceitar, minha gente, é abraçar tudo o que, hoje, é, do jeito que é, sem tentar modificar forçando soluções que podem gerar novos problemas. Aceitar o presente é tomá-lo como um ponto de partida, é entender que, em tudo, existe uma oportunidade de sermos melhores.

Ao aceitar o presente podemos pretender o futuro e é assim que nossos sonhos se tornam reais: liberamos a carga de insatisfação ao aceitar e abrimos espaço para focar na realidade que queremos. Por isso, é importante sonhar. Nós somos o que sonhamos, somos seres puramente subjetivos, feitos de energia. Nós precisamos sonhar. Ao sonhar, estamos co-criando uma nova realidade para as nossas vidas.

Fiz um cover de Azul da cor do mar (a long time ago). Assistam a seguir =*

 

Não somos o que queríamos ser

Não somos o que queríamos ser. Somos um breve pulsar em um silêncio antigo com a idade do céu. 
(Paulinho Moska)

Já viu letra mais linda que essa? Já viu reflexão mais assertiva sobre a existência humana? Quem somos, afinal? Quem somos diante da grandeza de todo o universo? Quem somos para interferir ou pensar que obtém o controle sobre o seu funcionamento? Eu sempre viajei na letra de Idade do céu. Música linda, lançada em 2003. Composição de Jorge Drexler com versão em português de Paulinho Moska. Eu queria tê-la cantado em espanhol, também, mas a versão em português toca tão fundo quanto.  Como o Moska é sensível, né? Não é de hoje que venho observando as composições dele. Melodias encantadoras, letras cheias de sentimentos. Algumas me marcaram no coração como Pensando em você, Tudo novo de novo e Meu nome é saudade de você.

Mas voltando a Idade do céu, sabe que eu não sei quando essa música entrou e ficou na minha cabeça? Eu tenho uma lembrança muito viva da Simone cantando-a com a Zélia. Um dueto liiiindo e ouvir me trazia muita paz. A voz doce da Simone e a mensagem da música foram a fórmula certeira para que eu repetisse essa música no Youtube um zilhão de vezes  para ouvir. Que mensagem, bicho! Quem somos nós, minha gente? Quem é você? Do que você dá conta? Você é parte. Para quê se aperrear? É tão simples mas é tão rico. Encaramos a vida com outro olhar a partir do momento em que decidimos cuidar do que está sob o nosso controle e reconhecer o que não está. Ao reconhecer, dimensionar a questão e relaxar quando nada se pode fazer a respeito. Felicidade é, também, o que a gente aprende a poupar, a diluir, a desatentar. Felicidade é, também, abrir espaço. Deixar de focar energia  em causas desnecessárias e usar essa mesma força para causas que interessam, que contribuem, que transformam.

Fiquei feliz quando meu amigo Alisson Fernando propôs essa música pra a gente fazer no canal. Outro TBT das antigas pelo qual tenho muito carinho. Assista :*

Podia ter vivido um amor Grand’ Hotel.

Grand’ Hotel é uma música que foi lançada em 1991 pela banda Kid Abelha. Foi escrita pelo trio George Israel, Lui Farias e Paula Toller. Eu não diria que, necessariamente, tenho uma história com essa canção (muito bela, por sinal!). Ela estava ali fazendo a trilha ambiente da minha infância, sem que eu me atentasse para isso. Anos 1990 e meu tio adolescente colocava as fitas cassete pra rodar no gravador. Fã das bandas de rock dos anos 1980 e exímio apreciador de música nas alturas, meu tio não deixaria faltar Kid Abelha em sua playlist. Estava lá a Paulinha cantando enquanto eu brincava de pique esconde com as minhas primas, no quintal.

Kid Abelha é assim: um caso curioso de músicas que sei cantar sem lembrar direito como e nem por quê. Só sei que é bom! Mais tarde, meu amigo violonista e cavaquinista Brown Sousa a sugeriria para a fazermos juntos pra o canal. Eu (que nem gosto de receber indicações de coisas pra ouvir e cantar de mentira que eu adoro, sim) me amarrei na ideia! Principalmente porque, mais tarde, também, a Paula Toller seria uma grande inspiração pra mim. Nossos timbres se assemelham em leveza e alcance de agudos. Ela sabe muito bem o que fazer com a voz e ouvi-la é aprender e me espelhar nisso.

Grand’ Hotel é a descrição do típico amor imaturo que não cultiva o tempo certo para plantios e colheitas. São os impulsos do ego que falam mais alto sem se importarem com as consequências. É a tradução poética da dor do arrependimento, das dúvidas sobre ter feito diferente. É a preferência pelos extremos: se amar como eu amo não dá certo, então, será que é melhor não amar? É aquele sentimento, sabe, tão intenso que não questiona o que é o amor, que não aceita outras condições, que não enxerga o que a inexperiência não pode mostrar. É uma melodia doce e melancólica de uma história que poderia ter sido mas não foi.

Sorte nossa que as coisas têm um tempo certo para acontecer, né? Tudo o que vem é reflexo do que sentimos e de como sabemos lidar, até aquele momento. Atraímos situações e pessoas em sintonia com a nossa sintonia. Dor é oportunidade. Dor é evolução.

Aí vai o cover que fizemos (a long time ago) de Grand’ Hotel :*


Minha história com Brigas nunca mais

Brigas nunca mais  é uma música de 1959. Foi lançada no lendário álbum Chega de saudade, um marco na história da Música Popular Brasileira pois trazia ao público a primeira apreciação do movimento Bossa Nova quando sua ilustre tríade, representada por Tonzinho (Tom Jobim), João Gilberto e o Poetinha (Vinicius de Moraes), se juntou para apresentar os primeiros resultados daquela parceria. Nossa, como eu amo o Vinicius! Tudo começou quando decidi montar um projeto com as músicas que ele letrou no ano de seu centenário. Fui até a biblioteca pública da cidade mais próxima e arranjei a biografia dele para ler. Devorei aquele livro, de nome Vinicius de Moraes: O poeta da paixão: Uma biografia, de José Castello. Após cinco anos daquela leitura, ainda, lembro de tantas passagens, tantos sentimentos ao entrar em contato com aquelas histórias, tanta vontade de ter sentido os ares da Bossa Nova, a época em que Vinicius vivia… Eu me apaixonei pelo jeito errante e romântico dele, pelos poemas, pela maravilhosa maneira de escrever as letras daquelas músicas, beirando à perfeição em algumas e, em outras, sendo, honestamente, perfeito! A prosódia, completamente, condizente com as melodias. Vinicius é um amor e um ideal na Literatura e na Música, para mim. Sempre, será. Penso nele, ouço a obra dele e, sempre, me emociono. Consequentemente, e por tabela, amei e amo os parceiros de composição dele. Certamente, ao ler suas biografias, o amor só aumentará, também. Esse povo, inegavelmente, fez história.

Pois bem, ao entrar em contato com as primeiras pesquisas da disciplina de Canto Popular, no curso técnico do Conservatório de Música, eu sabia que deveria cantar Bossa Nova. Trouxe Vinicius e Tom comigo. Eu, tão verde, nunca havia pisado em um palco de verdade pra cantar. Havia cantado em salas, mesmo quando cantei em eventos, eram grandes salas. O Conservatório tem um auditório que imita um teatro, tem um palquinho com direito a escadas pra alcançar. Foi neste dia que tomei a decisão de nunca mais cantar de salto. Minhas pernas tremiam e parecia que havia um grande parafuso em cada salto pois não saíram do mesmo lugar durante as quatro músicas que cantei. E Brigas nunca mais estava entre elas. Uma música fofa, sabe? Que transmite a sensação de um amor leve, com briguinhas à toa, e doces reconciliações. Chega a ser um pouco cômica a forma de se falar de amor, nela mas, sem dúvida, uma forma linda onde o mesmo amor se demonstra forte e inabalável às tempestades.

Tempos depois, durante o curso de Violão Popular em outro Centro Musical, sugeri ao meu professor tocá-la na audição de alunos. Aí pude cantar e me acompanhar tocando. Pense numa coisa gostosa! O violão me dava uma sensação de segurança, o gosto pela música me fazia ter vontade de dar o meu melhor. Não que eu seja uma Brastemp, mas pense num sentido que esse fazer me traz! Foi com Brigas nunca mais que me estreei tocando e cantando no canal. Postei e saí correndo. Não divulguei em canto nenhum até a escrita deste post que levará o vídeo em anexo. Quando gravado, era pós São João mas, no Nordeste, vocês sabem, o São João só acaba quando chega agosto. Então, havia som nas alturas na casa dos vizinhos, menino estourando os fogos que sobraram da noite de festas, etc. Eu estava criando coragem para gravar. Gravei e postei como uma maneira de dizer pra mim que faz sentido começar, mesmo que não esteja perfeito, mesmo com vergonha. Deixei a sonoplastia dos fogos sobreviverem ao vídeo pois quando eu poderia imaginar que depois que eu cantasse a palavra “chegou” haveria uns fogos, estourando? Foi como uma sonoplastia contratada: “olha, quando eu cantar que a moça chegou, solta uns fogos aí, beleza?”.

Gosto desse vídeo. Após ele, não voltei a gravar (kkkk). Mas vou voltar porque sei que o sentido é a trajetória e não o resultado. O sentido é aquilo que a gente sente enquanto faz o que se ama e como nos projetamos para superar os desafios que surgem, no caminho. Aí foi a minha história com Brigas nunca mais. Aí vai meu cover dessa música para vocês assistirem :*