Resistir e ressignificar

Clara, resistir é para os fortes. Você é forte. Eu te vi resistindo naquela madrugada de 31 de dezembro quando o resultado de um vestibular dizia que você não podia ser jornalista, enquanto o resultado de outro vestibular dizia que você podia, mas não tinha dinheiro para aquilo. Lembro, como se fosse hoje, de seu melhor amigo ligando, você chorando e ele te perguntando quais as armas que você tinha para lutar. Olhamos para a cama desarrumada, o travesseiro molhado de lágrimas, os papéis de ofício em branco e a caneta. Você queria escrever. Você ousou escrever e usou isso como a única arma que tinha para lutar pelo seu sonho. Uma menina tabacuda e franzina no auge da adolescência foi lá e pediu uma bolsa para o reitor. “Me deixa estudar”, ela disse. Pronto. Hoje, é bacharel em Comunicação, há mais de dez anos.

Eu te vi resistindo naquela outra tarde de dezembro quando sua mãe veio correndo te buscar, no trabalho e, ao te abraçar, falou: “painho se foi”. Eu te vi resistindo naquela tarde de um mês que não lembro qual, quando você deitou debaixo da cama e não conseguia comer, não conseguia levantar, não conseguia abrir os olhos porque só conseguia chorar. Ali, resistimos muito. Segurei seu braço direito e te fiz levantar, te fiz colocar pra fora, te fiz pedir, te fiz cantar. Deus ouviu. Tem ouvido desde sempre. A gente faz uma burrada atrás da outra, mas Deus não desiste. É por isso que a gente resiste. A gente vai resistir.

A gente sabe que a instabilidade anda rondando a nossa vida financeira, a nossa vida sentimental, a nossa saúde, a nossa sanidade mental, as nossas amizades e relações. Mas a gente resiste. A gente aprende a resistir com paciência, com fé. A gente aprende que resistir é confiar, é dar o que há de melhor, um dia de cada vez. A gente aprende a esperar o melhor e, de repente, o desconhecido não é mais tão temeroso. A gente sente as tripas dançarem dentro do estômago, mas a gente não joga a toalha. A gente é forte. A gente sabe que os nossos sonhos são maiores que a gente. Por isso, eles merecem viver. A gente merece viver. Foi por isso que você teve vontade de bater a cabeça no chão quando soube que seu pai partiu, mas não bateu. Foi por isso que você quis desistir do Jornalismo quando o diploma caiu, mas não desistiu. Foi por isso que você quis parar, por várias vezes, e se esconder debaixo da cama. Mas não parou. Você ressignifica. Você escreve. Você canta. Você resiste.

É resistindo que você diz para a vida que ela é difícil mas a sua escolha é o bem. É resistindo que você espera o melhor enquanto cuida que a cabeça e o coração esvaziem-se e preencham-se do que vale a pena. É resistindo que a gente sente que não está sozinho e que algo maior está por vir. É resistindo que a gente se mantém de pé para tentar mais uma vez.

Perdoe-se

Clara, foi no Facebook que eu vi algo sobre as pessoas irem e voltarem, mas nós (que vivemos dentro de nós) permanecemos. Nós devemos ficar, independente do que aconteça, nós devemos ficar. Não podemos nos ausentar da tarefa de cuidar de nós, não podemos nos omitir da nossa responsabilidade e aprendizado com os erros, não podemos nos dar (por muito tempo) ao direito de ser impacientes conosco. Tem coisas que a gente demora, mesmo, para aprender. Tem erros advindos de traumas fortíssimos que a gente demora, mesmo, a quebrar, de vez. As pessoas não são obrigadas a compreenderem o nosso interior mas nós (que moramos dentro de nós) devemos ser a base forte, a base certa que, mesmo aos pedaços, não vai desistir da vida, enquanto houver vida.

Portanto, Clara, eu estarei aqui quando o mundo desabar. Também, estarei aqui quando tudo for dando certo. Quando isso acontecer, segurarei sua mão direita e direi que está tudo bem. Tudo bem ter medo quando não se sabe ser só otimismo. Tudo bem se autossabotar quando não se sabe o que é viver com felicidade. Tudo bem se sentir sufocada. Tudo bem sentir que o corpo está paralisando. Estamos aqui para aprender a ver luz na escuridão. Estamos aqui para aprender a ver sentido em cada dificuldade que a gente vence. Está tudo bem. Estamos caminhando.

Tudo bem querer desistir, de vez em quando. Tudo bem achar que tentar por muito tempo sem obter o sucesso almejado é inútil. Quando isso acontecer, eu estarei aqui para segurar a sua mão e esperarei, ao seu lado, a tempestade passar. Tomaremos, juntas, atitudes assertivas quando o caos se for. É para isso que servimos: para nos acolher e para nos amar. Amor próprio é condição para outros amores. Perdoe-se, Clara. Eu estou, aqui. Não sairei daqui até você voltar.

Do eu para o ego.

Lembre-se de respirar

Clara, querer ter mais tempo para se dedicar a projetos há muito sonhados, lamentar o investimento pessoal e de energia em tanto tempo gasto com deslocamento e produção, segundo a Consolidação das Leis do Trabalho, é o dilema de muitas pessoas. Você não está sozinha nessa. Portanto, não se culpe quando o cansaço for maior do que você. Não se culpe quando o corpo pedir para dormir. Eu sei que você está dando o seu melhor. Acho justo que aproveite o que pode segundo as leis do seu corpo, em conformidade com o seu ritmo. Não sabemos se a vida vai mudar. Não sabemos se os sonhos serão realizados. Sei que tudo isso te amedronta. Sei que você quer fazer mais do que pode. Mas tentemos pensar que tudo o que, realmente, temos é o dia de hoje. Viva um dia de cada vez. Tenha momentos felizes em cada um desses dias e faça o que você puder. Prometa-me.

Jamais estaremos livres das más consequências advindas da interação com as pessoas. Eu entendo o longo caminho que você vem percorrendo para ser alguém melhor para si. Entendo a vontade de aprender a se proteger e admiro a escolha pelo caminho do bem, ainda que a situação seja a mais adversa. Eu entendo o movimento racional de querer perdoar e querer não se deixar atingir. Pode ser injusto não conseguirmos mandar nos nossos sentimentos e tentar encontrar lógica neles como é com o pensamento racional. O que posso dizer é que, de tanto você buscar isso que você acredita, um dia é isso que você será. Portanto, não desista. A vida vai fluir no tempo certo de ser.

Dizem que, ao servir o próximo, estamos multiplicando bênçãos em nossas vidas. Eu admiro tua forma de pensar, teu projeto de querer seguir uma série de práticas louváveis que sabes que podem te fazer bem. Compreendo a pressa de querer realizar aquilo que foi planejado. Devo compreender essa pressa de viver mais e pensar menos já que pensar é uma atividade tão mais corriqueira. Pressa de não abrir espaço para se sentir mal… Calma, Clara. Deixa o dia amanhecer no tempo do nascer do sol… Deixa a tua natureza trabalhar, dia após dia, no ritmo de encarar uma etapa por vez. Deixa a vida ser ao invés de só ser na vida. Para um pouco. Deixa o equilíbrio te achar, também.

Lembre-se de respirar, respirar, respirar… Lembre-se de recomeçar, não importa o que aconteça. Lembre-se de que eu estou aqui.

Do eu para o ego.

Não se abandone

Clara, eu vi você decidindo ser uma pessoa nova. Vi você, às custas de muita dor, abandonar um amor que te fazia morrer, aos poucos, por dentro. Vejo você percebendo, observando, conhecendo, lidando com o seu movimento de ansiedade. Eu vejo a sua luta para alcançar o silêncio. Eu vejo a sua luta para alcançar o movimento, sem perder o silêncio. Isso é coisa para os fortes. Percebo que você cai e é natural cair diante das dificuldades. Você conhece a importância de chorar, de desabafar, de jogar fora o que sufoca por dentro. Eu já te vi debilitada, emocionalmente, mas tenho orgulho de lembrar de todas as vezes que você decidiu levantar. Todas as vezes que você não desistiu de si.

Eu vejo você matutando, refletindo, ressignificando as relações complicadas, procurando o que pode ser modificado, em si, para ter paz. Acho justo e assertivo que teu maior objetivo, na vida, seja ter paz de espírito. Vejo você lutando, arduamente, para ser livre. Não importa se obteve ou não sucesso, até aqui. Permita-me dizer o quanto é lindo uma pessoa se esforçar e querer, com todas as forças, a liberdade.

Reconheço o longo caminho, reconheço o sentido que, muitas vezes, não se vê. Reconheço os passos duvidosos que não são dados. Essa coisa de se conhecer, de se tornar dono de si depois de tanto tempo sendo vulnerável à vontade de segundos ou terceiros é uma aventura assustadora. Eu estou contigo em cada imprevisto, em cada topada, em cada choro.

Estamos, juntas, lutando para viver, contemplar, ser feliz no hoje, no agora. Estamos enfrentando, por uma primeira vez, o desafio de descobrir cada mínimo sinal da ansiedade que prejudica, que rouba nosso tempo, no dia a dia. Queremos acolhê-la, entendê-la, entregá-la para o poder maior. Queremos dar conta do que a nós compete. Queremos confiar o que não entendemos ao poder universal que, sempre, sabe o que fazer. Queremos construir um relacionamento de confiança, de consistência, de beleza. Oramos por paciência, resiliência, força, sabedoria, coragem e serenidade.

Eu vi você frágil diante de um problema difícil. Mas vi você forte no momento crucial de entrega. Eu não vou te abandonar, Clara.

Do eu para o ego.

Mas acontece que você é forte

Clara, somente eu sei, com exatidão, as dificuldades pelas quais estás passando. Reconheço e respeito a tua luta por se manter bem. Apesar de um pouco perdida, tens certeza de que o caminho de volta, o caminho de ida, o caminho de saída acontece de dentro para fora. Estás tentando se encontrar e eu estou do teu lado. Percebo que existe uma luta para que tudo não seja tão racional. O mundo é acelerado e racional. A racionalidade, às vezes, nos ajuda a fugir dos nossos sentimentos. Sentimento nem sempre tem explicação.

A gente não escolhe a hora em que vai sentir, Clara. A gente sente e pronto. A gente não sabe se vai se machucar. A gente arrisca e pronto. Eu sei, você não gosta que eu fale assim, você tem consciência sobre o que está acontecendo, mas não sabe onde girar a chave. Por mais uma vez, você sente que está mecanizando todo e qualquer movimento com medo de sofrer. Você quer fazer diferente, você quer aprender a se proteger das dores do mundo, você quer ser seu próprio suporte. Sem perceber, na verdade, você está se preparando para uma nova dor (e não vivendo de verdade). Já doeu tanto e por tantas vezes, inesperadamente, que você tem medo de que doa de novo. Você quer criar resistência, você quer ser madura e forte.

Mas, Clara, és forte. Uma das pessoas mais fortes que eu conheço. Resistente à dor e corajosa o suficiente para pedir ajuda e para encarar a dor e os próprios defeitos de frente, a fim de consertá-los. Não posso deixar que carregues, consigo, um ideal de perfeição, por mais forte que isso seja, em ti, a ponto de não enxergares. De tanto mecanizarmos nossas vivências a fim de ficar bem, podemos acabar por não sentir o que, realmente, importa. Então, te perdoes… Planta um pouquinho de um lado e deixa a vida fluir do outro. Receba o que vier e enfrente como puder. Aceite-se. Está tudo bem e tudo bem seja lá o que acontecer.

Encontrarás o equilíbrio, Clara.

Do eu para o ego.