Lembre-se de respirar

Clara, querer ter mais tempo para se dedicar a projetos há muito sonhados, lamentar o investimento pessoal e de energia em tanto tempo gasto com deslocamento e produção, segundo a Consolidação das Leis do Trabalho, é o dilema de muitas pessoas. Você não está sozinha nessa. Portanto, não se culpe quando o cansaço for maior do que você. Não se culpe quando o corpo pedir para dormir. Eu sei que você está dando o seu melhor. Acho justo que aproveite o que pode segundo as leis do seu corpo, em conformidade com o seu ritmo. Não sabemos se a vida vai mudar. Não sabemos se os sonhos serão realizados. Sei que tudo isso te amedronta. Sei que você quer fazer mais do que pode. Mas tentemos pensar que tudo o que, realmente, temos é o dia de hoje. Viva um dia de cada vez. Tenha momentos felizes em cada um desses dias e faça o que você puder. Prometa-me.

Jamais estaremos livres das más consequências advindas da interação com as pessoas. Eu entendo o longo caminho que você vem percorrendo para ser alguém melhor para si. Entendo a vontade de aprender a se proteger e admiro a escolha pelo caminho do bem, ainda que a situação seja a mais adversa. Eu entendo o movimento racional de querer perdoar e querer não se deixar atingir. Pode ser injusto não conseguirmos mandar nos nossos sentimentos e tentar encontrar lógica neles como é com o pensamento racional. O que posso dizer é que, de tanto você buscar isso que você acredita, um dia é isso que você será. Portanto, não desista. A vida vai fluir no tempo certo de ser.

Dizem que, ao servir o próximo, estamos multiplicando bênçãos em nossas vidas. Eu admiro tua forma de pensar, teu projeto de querer seguir uma série de práticas louváveis que sabes que podem te fazer bem. Compreendo a pressa de querer realizar aquilo que foi planejado. Devo compreender essa pressa de viver mais e pensar menos já que pensar é uma atividade tão mais corriqueira. Pressa de não abrir espaço para se sentir mal… Calma, Clara. Deixa o dia amanhecer no tempo do nascer do sol… Deixa a tua natureza trabalhar, dia após dia, no ritmo de encarar uma etapa por vez. Deixa a vida ser ao invés de só ser na vida. Para um pouco. Deixa o equilíbrio te achar, também.

Lembre-se de respirar, respirar, respirar… Lembre-se de recomeçar, não importa o que aconteça. Lembre-se de que eu estou aqui.

Do eu para o ego.

Onde não posso ir

Paulista, 17 de janeiro de 2018

Supremo Deus,

Tenho pensado em minha falta de paciência. Andei reparando na facilidade sob a qual perco o equilíbrio diante de situações cotidianas que, geralmente, não se realizaram como eu gostaria. Considero-me uma pessoa resiliente e complacente em grande parte de minha existência, portanto, devo dizer que posso sentir que alcancei o limite da paciência quando uma quantidade considerável de situações cotidianas me desapontam. Não só isso. Tenho reparado que minha paz de espírito pouco tem se recarregado. Embora eu recorra às melhores intenções em meditações, leituras e desabafos, comprometendo-me comigo mesma, todos os dias, a ser alguém melhor, devo dizer, com pesar, que a paz de espírito me faz falta em situações de provação.

É como se cada pequena insatisfação não se desfizesse sem grande luta, dentro de mim. Antes que dê tempo de reassumir as rédeas e continuar, outra insatisfação se segue me fazendo, assim, sentir vontade de parar e, até, de me afundar em outros tantos poços antigos de insatisfação, como uma bola de neve que engorda e derruba tudo o que encontra pela frente. É com humildade que peço-lhe, por favor, ajude-me. Sei que a raiz de qualquer solução não está, simplesmente, em evitar as insatisfações. As insatisfações precisam ser trabalhadas, entendidas, refletidas para, assim, serem enfrentadas. A aceitação completa e total de todas as coisas é, também, um trabalho árduo. Todo e qualquer sentimento está sob o domínio de quem o sente.

A mudança parte de uma decisão. Toda decisão implica luta. As lutas internas são as mais difíceis. Dentro de todo esse processo de autorreflexão, sinto-me perdida. Como se não soubesse que passo dar. Eu sei que não é sempre que o racional fornece o que precisamos. Muitas vezes, é o coração quem mostra o caminho. Coração é conexão. É com humildade, Deus, que peço-te conexão. Ajude-me a reencontrar meu mundo interior de forma que situações externas não me abalem com tanta facilidade. De forma que eu entenda e saiba, mesmo sem saber, onde achar confiança.

Eu sei que Deus vai nos lugares onde não podemos chegar. Eu peço-te acesso. Que toda impaciência seja entendida mas que qualquer mínimo passo para um olhar profundo para o lado de dentro possa ser realizado mediante a Sua guia. Eu peço-te persistência, principalmente, para todos os momentos em que passar pela minha cabeça que não vale mais a pena por hoje. Não deixe-me desistir. Não deixe-me enganar por meus próprios pensamentos.

Um abraço forte,

Sua filha.

Mas acontece que você é forte

Clara, somente eu sei, com exatidão, as dificuldades pelas quais estás passando. Reconheço e respeito a tua luta por se manter bem. Apesar de um pouco perdida, tens certeza de que o caminho de volta, o caminho de ida, o caminho de saída acontece de dentro para fora. Estás tentando se encontrar e eu estou do teu lado. Percebo que existe uma luta para que tudo não seja tão racional. O mundo é acelerado e racional. A racionalidade, às vezes, nos ajuda a fugir dos nossos sentimentos. Sentimento nem sempre tem explicação.

A gente não escolhe a hora em que vai sentir, Clara. A gente sente e pronto. A gente não sabe se vai se machucar. A gente arrisca e pronto. Eu sei, você não gosta que eu fale assim, você tem consciência sobre o que está acontecendo, mas não sabe onde girar a chave. Por mais uma vez, você sente que está mecanizando todo e qualquer movimento com medo de sofrer. Você quer fazer diferente, você quer aprender a se proteger das dores do mundo, você quer ser seu próprio suporte. Sem perceber, na verdade, você está se preparando para uma nova dor (e não vivendo de verdade). Já doeu tanto e por tantas vezes, inesperadamente, que você tem medo de que doa de novo. Você quer criar resistência, você quer ser madura e forte.

Mas, Clara, és forte. Uma das pessoas mais fortes que eu conheço. Resistente à dor e corajosa o suficiente para pedir ajuda e para encarar a dor e os próprios defeitos de frente, a fim de consertá-los. Não posso deixar que carregues, consigo, um ideal de perfeição, por mais forte que isso seja, em ti, a ponto de não enxergares. De tanto mecanizarmos nossas vivências a fim de ficar bem, podemos acabar por não sentir o que, realmente, importa. Então, te perdoes… Planta um pouquinho de um lado e deixa a vida fluir do outro. Receba o que vier e enfrente como puder. Aceite-se. Está tudo bem e tudo bem seja lá o que acontecer.

Encontrarás o equilíbrio, Clara.

Do eu para o ego.