Por trás de cada erro

Mexeu com teus sentimentos. Não ficaste bem. Sentiste culpa por mexer na ferida dela. Descobriste que a distância que criaste não é, apenas, um ato de defesa teu. É, também, uma dificuldade de olhar para a dor dela porque dói em ti, também. Ela não quer se ajudar. Talvez por preconceito, medo, falta de recursos. Mas tu querias poder ajudá-la de alguma forma sem te machucares. Todo esse movimento é doloroso. A maior dor da vida dela é a maior dor da tua vida. O sonho que ela, ainda, não realizou é te ver em felicidades e realizações. Tu, sempre, soubeste que, por trás de cada erro dela, existia a vontade e a intenção de acertar. O modus operandi é que é errado. Não é fácil, para ti, vê-la sofrendo e adoecendo, por tantos anos, sem poder ajudar. Um dos teus objetivos é oferecer conforto para a saúde dela. Por muito tempo, atribuíste, aos traumas que sofreste com ela, as tuas dificuldades. Mas, pode ser que, a partir de agora, isso mude. Talvez, a partir de agora, enxergues teus medos de forma diferente.

O erro que você vê em mim está dentro de você

Vamos colocar os pontos nos is: você se chateou por algo que eu disse. Algo que não tem tanto peso assim, mas que você enxergou como gigantesco por uma atitude de reação aos seus próprios sentimentos e forma de ver a vida e as pessoas. Nós tínhamos uma amizade, mas você se achou no direito de me julgar. Você desconsiderou e desmereceu minha atitude de ir te pedir desculpas. Uma atitude sincera e corajosa demais para o que você poderia suportar porque foi uma atitude de alguém que escolheu valorizar a relação e não uma primeira e única briga pontual.

Essa era a minha versão dos fatos até eu entender que eu não tenho como mensurar o tamanho da sua dor diante de palavras ditas sem a intenção de ofender.

Você não me perdoou. Não conseguiu tirar os olhos do seu ego. Não me deu a liberdade de errar. Não lutou por nossa amizade. Você quis diminuir os meus problemas. Você arrumou tantas justificativas quanto pôde para me dizer que eu não poderia ter errado. Você escolheu atirar pedras e convidou outras tantas pessoas para atirarem junto com você. Você disse se preocupar com o coletivo mas (Cristo!) você não faz a sua parte, criatura! Você acha que eu não posso ser emocional, que eu não posso perder o controle, que eu não posso misturar as coisas. Mas todo mundo misturou, na sua frente, e você só reagiu a mim.

Essa era a minha versão até eu entender que a proporção que você deu às minhas atitudes era proporcional à admiração que você me tinha e eu sinto muito em ter lhe decepcionado.

E você que fez pior dizendo que me entendia? Eu acreditei, eu me abri, eu mostrei meus sentimentos. Mas, pelas minhas costas, você estava compactuando com os atiradores de pedras dizendo que tinha nojo de mim… E você que fez pior tirando de mim o meu direito de escolha e o jogando nas mãos do povo? “Crucifica ou liberta?” Gente…

Essa era a minha versão olhando para o meu sofrimento até eu entender que a sua busca por protagonismo é proporcional à sua insegurança e baixa autoestima, o que também gera muito sofrimento e algumas buscas equivocadas e desesperadas para evitar sensações ruins.

Fala a verdade: o que você não gosta em mim, você tem de sobra só que, diferente de você, eu engulo seco e ajo com a verdade. Amadureci o suficiente para assumir a responsabilidade por meus atos. Fala a verdade: sua maneira ávida de me atingir mascara uma postura que você quer esconder e que não contribui para o bem do coletivo, como diz o seu discurso. Fala a verdade: você quer competir, quer estar em evidência, quer me diminuir perante os outros para se engrandecer.

Outra versão que eu tinha: a de uma pessoa, extremamente, ferida até entender que o meu ressentimento por ter sido julgada não me dá o direito de fazer igual.

Eu tenho uma verdade para todas as suas atitudes: olha, eu não sou perfeita, nem quero ser. Sou do tipo que vive aprendendo e, quando erra, faz o que é certo: admite, pede desculpas, tenta reaver o que julga ter valor. Olha, sua forma de me julgar por um erro que cometi não tira de você os erros que você cometeu, erros que você abomina, inclusive. Olha, eu estou aqui trabalhando com meus sentimentos para me perdoar e te perdoar, completamente, porque eu não mereço carregar mágoa no coração. Estou aqui me perguntando as vezes em que fui injusta com alguém falando pelas costas, julgando, sendo rude… Estou, aqui, me comprometendo a nunca mais ser pra alguém o que você foi pra mim.

Olha, é uma pena que você, ainda, não tenha aprendido sobre isso no seu trajeto, uma pena que não saiba ter empatia e nem se colocar no lugar do outro. Eu posso até te entender, mas o tempo já me fez retirar a capa da culpa e deixá-la no chão. Eu tenho o direito de errar. Tenho o direito de me arrepender. Tenho o direito de seguir em frente.

Esse era o meu esforço racional enquanto a dor pairava. Hoje, tendo a dor se ido, eu tiro três mensagens do que foi vivido:

  1. O silêncio é sábio.
  2. Tenha empatia pelas pessoas. Você não sabe o que elas estão passando. Você não tem o direito de julgá-las.
  3. O perdão liberta.