Querido, pode ir, apesar de tudo

Quanto tempo faz que você terminou comigo sem dizer uma palavra? Quanto tempo faz que eu fiquei, ali, como se estivesse a espera de uma resposta, uma explicação, uma confirmação que fosse, sem entender? Quanto tempo faz que eu fiquei me culpando, procurando o erro em mim, forçando a minha barra para não ficar com raiva de você? Quanto tempo faz isso? Não vou contar nos dedos. Para mim, foi tempo suficiente pra eu me reestruturar no meio do caos.

Nós fomos uma repetição desnecessária para minha coleção de traumas e necessária para a minha evolução de alma. Em você, encontrei, gratuitamente, o que eu precisava modificar em mim. Por isso, para quê vou te responsabilizar por não aguentar ouvir um “não” ou sair correndo, sem dar explicações diante de uma situação contrária ao que você quer se eu era, exatamente, assim? Quando é o outro cometendo os nossos erros é mais fácil apontar e julgar. Difícil mesmo é tomar a responsabilidade, engolir seco e dizer: eu estou olhando para mim quando olho para ele, eu estou recebendo, exatamente, o que emanei.

A culpa não é sua… Não te faz, suficientemente, inocente para me ter de volta, mas isso não é sobre você. Sou eu. Eu sei o que é estar no corpo de alguém que se defende fugindo. Eu sei o que é não saber lidar com aquilo que não planejei. Eu sei o que é ir embora sem dizer uma palavra. Você não foi homem pra mim: não me disse adeus, não me disse porque acabou, simplesmente seguiu sem mim depois de tanto tempo me seguindo. Mas eu não vou perder meu tempo te responsabilizando pelo que eu atraí. Não se inicia qualquer envolvimento com sentimentos negativos no peito. Eu fiquei com você porque não tinha mais esperanças de encontrar quem me merecesse, eu fiquei com você sentindo medo de sofrer, eu fiquei com você me sentindo insegura, eu fiquei com você querendo acreditar nas minhas mentiras. Eu não vou te culpar por ter correspondido às minhas más expectativas.

Eu te deixei ir embora e me despedi com amor e carinho naquela noite, em frente à praça, depois de um dia normal, sem você saber. Eu amo você, apesar disso não mudar fato de que não servimos um para o outro (e como é ruim admitir isso). Eu quero que você seja feliz. Sempre que o ciúme e a saudade baterem, eu vou cancelá-los e tentar preencher o vazio com amor-próprio.

Perdoe-se

Clara, foi no Facebook que eu vi algo sobre as pessoas irem e voltarem, mas nós (que vivemos dentro de nós) permanecemos. Nós devemos ficar, independente do que aconteça, nós devemos ficar. Não podemos nos ausentar da tarefa de cuidar de nós, não podemos nos omitir da nossa responsabilidade e aprendizado com os erros, não podemos nos dar (por muito tempo) ao direito de ser impacientes conosco. Tem coisas que a gente demora, mesmo, para aprender. Tem erros advindos de traumas fortíssimos que a gente demora, mesmo, a quebrar, de vez. As pessoas não são obrigadas a compreenderem o nosso interior mas nós (que moramos dentro de nós) devemos ser a base forte, a base certa que, mesmo aos pedaços, não vai desistir da vida, enquanto houver vida.

Portanto, Clara, eu estarei aqui quando o mundo desabar. Também, estarei aqui quando tudo for dando certo. Quando isso acontecer, segurarei sua mão direita e direi que está tudo bem. Tudo bem ter medo quando não se sabe ser só otimismo. Tudo bem se autossabotar quando não se sabe o que é viver com felicidade. Tudo bem se sentir sufocada. Tudo bem sentir que o corpo está paralisando. Estamos aqui para aprender a ver luz na escuridão. Estamos aqui para aprender a ver sentido em cada dificuldade que a gente vence. Está tudo bem. Estamos caminhando.

Tudo bem querer desistir, de vez em quando. Tudo bem achar que tentar por muito tempo sem obter o sucesso almejado é inútil. Quando isso acontecer, eu estarei aqui para segurar a sua mão e esperarei, ao seu lado, a tempestade passar. Tomaremos, juntas, atitudes assertivas quando o caos se for. É para isso que servimos: para nos acolher e para nos amar. Amor próprio é condição para outros amores. Perdoe-se, Clara. Eu estou, aqui. Não sairei daqui até você voltar.

Do eu para o ego.