É de um instante pra outro que a vida muda

Era dezembro. Ela caminhava pela Rua da Aurora meio que sem rumo. Tanto havia acreditado que já não acreditava mais. Tanto havia feito que nada funcionou. Tanto, tanto, tanto e tanto… Agora, chega. Mas chega pra onde? Pra onde o chega a levaria? Não sabia. Apenas caminhava pela rua quase que deserta, naquela tarde de domingo.

Ponte vai, ponte vem, Recife Antigo. Os bares estavam animados com gente bacana conversando e música ao vivo. Não queria saber. “É melhor eu ir pra o ponto de ônibus”, pensou. Como que num rompante, sente um movimento brusco a puxar seu braço.

– Ô, peste, onde é que tu tava, hein? Queres me matar de susto, amiga?

Era a companhia que  ela havia esquecido no caminho de ida. Enquanto ela falava, um embaçado invadiu sua visão. Só via os próprios pensamentos que a assombravam em forma de medo. É, já não acreditava mais.

– Eu liguei que só a murrinha, carregasse o celular, não foi? Tu tá me ouvindo? Vem, senta aqui com a gente que depois a gente vai pra casa.

Foi como quem não sabia o que queria. Não conseguia ver ninguém nem evitava parar de lembrar de tudo o que havia lhe ocorrido. Como a vida muda de um instante pra outro… Era o tempo de erguer os cabelos no alto pra fazer um coque por causa do calor e pronto: a vida lhe ocorreu em frente aos olhos. Roupa pra pôr na máquina, casa pra lavar, comida pra cozinha, desânimo pra lidar, trabalho que procurar, meio pra se sustentar, solidão pra acompanhar. “Foi boa ideia sair, não”, pensou. Precisava dar um jeito na vida. Era estranho se acostumar com a desesperança, era estranho não acreditar. Sentiu um gelado na mão esquerda.

– Toma, peguei pra tu.

Era… era quem, mesmo? Aquela face era novata na roda. Ficou olhando com cara de espanto.

– Relaxa, eu não sou nenhum bandido. Trabalhei aqui na Cultura durante anos até a bichinha fechar. E tu era freguesa nossa. Lembra de mim?

Eita, a Cultura, véi… O mundo tava tão de cabeça pra baixo que até a Cultura acabou.

– Lembro. Obrigada.

Ele continuou.

– Eu conheço uma parte dessa galera com quem tu tá andando. Te vi aí tão jururu que pensei: vou ali comprar um suco pra alegrar aquela menina.

Ela riu. Assim, espontaneamente. Tava nem querendo rir, mas riu e desatou a conversar com ele. Conversaram sobre Meredith e De Luca, mas não haviam assistido à 15ª temporada para opinar profundamente. Conversaram sobre os casarões antigos e abandonados e em como sofreriam as pessoas que, um dia, precisassem fazer uma faxina neles. Conversaram sobre o nada e sobre o tempo que ora passa depressa, ora passa devagar. Qualquer assunto era assunto e era bom conversar.

“Gente, que estranho”, pensou. Após uma volta inteira no mundo dos assuntos mais frívolos, uma troca de números.

– Tu tem whatsapp?
– Uhum
– E eu posso te chamar pra conversar lá, mais tarde?
– Pode.

Foi pra a parada de ônibus com as amigas, logo depois. Não lembrava como se paquera e nem sabia da continuação. Só sabia que havia algo a mais que roupa suja para se pensar. Havia possibilidades. Foi o tempo de erguer os cabelos no alto para refazer o coque, e a vida já tinha mudado. Mas rapaz, que coisa, não?



O ano virou só pra te lembrar disso

Quantos recomeços já desejamos? Você daí de onde busca motivos para sentir esperança e eu daqui do lugar onde desejo te reencontrar? Por quantas coisas já passamos? Você daí se recusando a dar mais um passo sem encontrar sentido e eu daqui de posse de todos os sentidos tentando arrumar uma forma de te fazer enxergar. Eu sou você e você sou eu. Ninguém mais do que eu entende o que você sente. Daqui, por isso, preciso que você acredite: vai passar. Não sei se hoje, não sei se amanhã, mas passa. Tem mais vida por aí e o ano virou só pra te lembrar disso.

Fizemos um bom trabalho: aprendemos a abrir mão. Abrimos mão da dor, do cansaço, da insistência numa vida que você deixou que desejassem por você. Sabemos que há mais além, embora não saibamos o quanto e o quê. Mas sabemos o principal: nem tudo aquilo que aprendemos a acreditar como certo é o certo para nós. Mesmo que a vida possa estar sendo dura, te peço, como alguém que é você num futuro melhor: apenas, continue. Não pensemos nas seguranças materiais que gostaríamos de ter, não pensemos no valor que os outros dão baseados em status ou em conta bancária, não pensemos em idade, no vão do passar do tempo. Não… pensemos no hoje. Um hoje que renasce em um grande ciclo de mais de trezentos dias, mas não pensemos nesses dias. Pense no dia primeiro. O primeiro dia de quê? Sonhe sem medo. Imagine, crie a sua imagem holográfica e a entregue ao vento certo. Ventos de gratidão, de coragem, de amor, de vontade de ser feliz.

Fizemos grandes coisas em um grande ano do qual nos despedimos com amor e gratidão. Ele nos trouxe até aqui e nos levará a um lugar diferente. Por mais um dia primeiro eu te peço: acredita! Tudo o que precisava sair, saiu. Tudo o que precisava chorar, chorou. Tudo o que precisava curar, curou. Agora deixa ir… Deixa ver o que tem. Aceita, mesmo sem ter certeza do que vai servir. Vai descobrindo no caminho, vai driblando as dificuldades com vontade de fazer as coisas que você gosta, vai mostrando pra a vida que você não vai desistir, ainda que não consiga hoje porque fazer o que se ama é bem maior do que cumprir uma meta material. Cumprir um propósito espiritual engrandece mais do que pensar no que os outros pensam.

Daqui do futuro, eu seguro a tua mão e te digo: vem! Estou te esperando mais madura, mais bonita, mais leve, mais feliz e mais realizada. Hoje é o nosso dia primeiro e eu prometo que vamos nos reencontrar.

Do eu para o ego.

Só me diga, Deus…

Só me diga, Deus, se é isso mesmo
Se a gente se encontra à esmo
Quando o sol bater do lado de cá

Só me diga, Deus, se é pra eu me conformar
Se é pra parar de lutar
Já que estou remando contra a maré

Só me diga, Deus, o que posso escrever de bonito
De um sonho que permanece vivo
Mas não tem como sair do papel

Só me diga, Deus, se é ousadia ter esperança
Se minha fé está com temperança
Se o meu destino é só aguentar

Só me diga, Deus, se o amor é um instrumento tão forte
Capaz de sobreviver à morte
Capaz de nascer na escuridão

Só me diga, Deus, se posso ser perdoada
Se o pecado não me empata
De um dia ver paz, no dia…