Uma observação injusta

Nada pra escrever quando tenho tempo de sobra. Tempo de escrever quando não sobra tempo para nada. Que sentido e que justiça possui a dinâmica da vida dos assalariados do século XXI estando entre fazer o que se gosta e morrer de fome; ou encher o prato e viver infeliz? Enquanto, deitada, brincava com a caneta perpassando-a entre os dedos, diante da folha de caderno vazia e o silêncio do quarto, era isso que eu pensava ao mesmo tempo que gostaria de escrever.

O ar quente do ventilador deixava o cômodo mais abafado e os vinte e oito graus que faziam, lá fora, só concordavam com a cabeça fervilhando em pensamentos. Tempo é ouro, é o que dizem. Deve ser porque tempo é produção, é criatividade, é força de trabalho. Tempo é aquilo que se deixa passar em nome da necessidade enquanto não se corre atrás do que, realmente, se deseja. O tempo é precioso demais para que seja desperdiçado com infelicidade.


Ser feliz é a arte de deixar coexistir

Olá, meninos! Olá, meninas! Olá, menines! Vamos finalizar essa trilogia com uma frase maravilhosa que eu mesma inventei (mas cujo conceito você já deve ter visto em muitos lugares): ser feliz é a arte de deixar coexistir. Eu comecei a refletir sobre isso há um tempo, assistindo a um vídeo da Cecilia Dassi (conhece o canal dela? Recomendo!). No vídeo, a Cecilia comenta o livro A Parte que Falta, do Shel Silverstein (lembra daquele livro infantil que bombou nas redes sociais e esgotou nas livrarias depois que a Jout Jout o leu, em seu canal? Então: é esse).

Esse vídeo clareou boa parte da minha escuridão a partir de uma informação valiosa que a Cecilia me deu: o lugar da falta e o lugar do preenchimento podem coexistir. Essa situação pode ser permanente e, ainda assim, tudo bem. Do contrário, corremos o risco de estar, sempre, correndo atrás do que falta e isso pode nos roubar as condições e os momentos de sermos felizes, hoje. Ao mesmo tempo que falta alguma coisa (e precisamos ser fortes para lidar com isso) outras partes estão sendo preenchidas.

Há beleza nisso: a falta é necessária. Ela nos faz aprender. Ela nos faz evoluir. Ela nos faz sensíveis o suficiente para estarmos prontos para ouvir. Ouvir Deus. Ouvir o universo. Ouvir a nós. Ela nos prepara para as descobertas das quais necessitamos. Por isso, ela precisa existir. Essa informação me deu uma certa paz mas, ao pensar sobre isso, eu relacionava com coisas ou com pessoas. Lindo mesmo, foi quando comecei a pensar nisso como um estado de ser.

Você pode ficar triste. Você tem esse direito. Mas você não é essa tristeza. Você, também, é a alegria de poder fazer o que gosta. Você pode ficar frustrado. Mas você não é frustração. Você, também, é todas as conquistas que já teve, na vida. Você pode ficar com raiva. Mas você não é essa raiva. Você, também, é a paz de chegar no seu lugar favorito e poder descansar. Consegue perceber a grandeza disso? Não precisamos correr como desvairados atrás de resolver o que é dor. A dor pode ter o seu lugar. Ela pode conviver com o que é alegria, paz, felicidade, satisfação. Está tudo bem. Ela existe por alguma razão. Ela tem um tempo certo para sair, para se resolver. Você não é dor. Você é (e deve ser) o seu próprio suporte, o seu próprio amor (ou amor próprio), o seu próprio cuidado, a sua própria satisfação, admiração. Você pode dar conta de si.

Ao ter plena consciência disso, ao viver isso, nada que venha de fora de você vai poder te derrubar. Você pode, até, envergar, mas não vai quebrar, como escreveu Lenine. Porque você terá o máximo de conhecimento possível a seu próprio respeito e isso vai te facilitar a cuidar e a proteger a si. Você poderá sentir a energia de quem está olhando troncho ou, até mesmo, de quem não gostaria de te ver nessa sintonia. Mas como você estará focado em si, nada que não se encontre dentro de si terá força para te atingir (mentalizar uma luz branca protetora ao seu redor, também, é bom e não custa nada. Funciona, viu?).

É isso amados. Que os vossos corações sejam seus guias.

A procura de novos horizontes

Das certezas do que quer, ela sabe. Sabe, também, que nenhum sonho nasce, assim, com a facilidade de se realizar, mas luta. Todo dia, luta um pouquinho mais, investe um pouquinho mais, estuda um pouquinho mais. Seu sonho é, um dia, poder se sustentar fazendo o que gosta.

Quando aquele trabalho com carga horária de oito horas diárias apareceu, não sabia se ficava feliz ou triste. Por um lado feliz pois, apesar de estar trabalhando para os outros, estaria aprendendo sobre coisas que precisaria para os seus projetos. Por outro lado, que tempo haveria para investir nesses tais projetos que são a fonte de sua essência e felicidade? Mesmo com tantas renúncias ficou com a primeira opção. Afinal, que escolha tem o brasileiro pobre do século XXI se não fazer um jogo de cintura brabo se quiser sobreviver e se realizar, ao mesmo tempo? Por vezes, pensava nessa injustiça: “minhas qualidades, capacidades, meu intelecto estão a serviço de enriquecer o outro que não paga metade do que mereço por renunciar à minha felicidade. Tudo isso em nome da sobrevivência…”

O plano não saiu bem como esperava. Havia algo de errado naquele ambiente. Era tudo muito pesado, a começar pela chefia. O primeiro sinal de que não aprenderia o que gostaria deu-se, logo, nos primeiros dias: foi deslocada de sua função originária de sua real profissão. Aceitou isso na ilusão de que teria acesso a outras ferramentas. Mas não teve. Deu de cara com uma chefia, extremamente, centralizadora que guarda toda a intelectualidade dos projetos para si e delega tarefinhas de casa para os seus subordinados. Tudo isso mascarado de longas e milhares de reuniões gerais de equipe que serviam mais para atrasar os trabalhos em andamento do que, verdadeiramente, para resolver alguma coisa. Ela pescava as boas ideias de sua equipe mas, no fim, levava o crédito por todo o trabalho pois fazia questão de realizar todos os planejamentos. Não conseguia, realmente, delegar. Após sofrer, consideravelmente, com as atitudes daquela mulher, alguém a fez abrir os olhos e entender que o nome daquele tipo de atitude é insegurança.

Seus santos não bateram. É o tipo de falta de sintonia que não tem explicação. A doutrina espírita diria que é uma antipatia carregada de vidas passadas. Mas esforçou-se. Encontrou outros inseguros, no caminho. Esforçou-se. Precisou render-se a não pensar (logo ela que amava colocar as ideias para fora!). Limitou-se a fazer o que lhe era pedido. Foi ficando opaca, sem cor, sem vida. Ela nunca se colocou naquele tipo de pensamento onde havia separação entre trabalho e pessoa. Acreditava que trabalhar era uma parte de si, uma parte de quem ela era. Por isso, doía não poder exercer a si, não poder contribuir como sabia que poderia, contudo, se submeteu em nome da hierarquia.

Quis sair daquele ambiente, quis afastar-se da forma como estava sendo vista e reduzida. Tentou. Procurou. Nada. Após alguns meses, houve uma reconfiguração na equipe e uma troca de chefia. Dentro da reconfiguração, assumiu o posto que sabia mexer, aquele para o qual havia estudado. O trabalho fluiu. Mostrou resultados. Todos viram e reconheceram.

Um belo dia, recebeu uma proposta:
– Você ganhou uma promoção. Mas precisamos lhe demitir deste contrato para fazer outro. Não se preocupe. Essa prática é recorrente, aqui.

Que felicidade! Fez planos, criou expectativas com o aumento, colocou algumas coisas na ponta do lápis. Enfim, reconhecimento. Mas, quando veio a demissão, algo se demonstrou errado dentro do seu coração. Foi ficando com medo. Foi achando estranha a ausência de detalhes na comunicação, a ausência de documentos que pudessem comprovar uma proposta realizada, apenas, verbalmente. Contudo, nada poderia, de fato, fazer. Conversar? Conversou! Incertezas começaram a apontar no novo discurso.
– Está tudo preparado. Dependemos de uma autorização. Fique no aguardo.

A demissão aconteceu. Todo aquele processo de rescisão, exame demissional, FGTS, documentação, seguro desemprego foi apagando o seu brilho. Buscou informação? Buscou! Recebeu as mesmas respostas vagas de sempre. Entendeu que a tal autorização não viria, a tal promoção não aconteceria. Sabia do seu valor mas não deixava de doer a tentativa de lhe reduzirem a nada, a alguém que não teria direito, ao menos, à verdade. Foi enganada. Foi seguindo adiante, na luta por refazer sua vida financeira.

Semanas após, recebeu a intervenção de uma pessoa amiga (uma, graças a Deus, dentre tantas amizades que fez mas que não se pronunciaram). Soube, por debaixo dos panos, que a antiga chefia (aquela que o santo não batia) havia retornado, ao setor, com gostinho de vingança. Fez sua caveira, disse que não produzia, que não trabalhava. “Mas, como, meu Deus? Todos viram os resultados! Está tudo lá, nos relatórios!”, pensou. Mas ninguém lhe defendeu. Ninguém.

Foi sofrendo que entendeu o ponto de vista de algumas pessoas que conhecia há muito tempo mas, na verdade, mesmo, conhecia era nada. O mais importante, para alguns perfis, não é executar um trabalho bom e ético. Às vezes, o mais importante é ter influência. Chorou. Sofreu. Por dentro, tudo se revirou. Mas continuou a procurar novos clientes e horizontes.

Me perdoe por não poder lhe julgar, julgando

Colega, por algum tempo, eu te chamei de amigo… Eu me doei e me atirei a me importar contigo como é praxe de minha personalidade com novas relações. Tenho reparado que as pessoas muito se defendem. Eu não. Eu pago pra ver, até que me provem o contrário. Que besteira é essa de não me dar uma chance de ter um amigo? Que besteira é essa de não me dar uma chance de ser um amigo para alguém? Tenho reparado que o universo emocional das pessoas anda meio adoentado e tudo pode ser motivo para alguma desconfiança.

Colega, não acho que este seja o nosso caso. O que eu acho é uma realidade muito dura de dizer. No entanto, uma vez dita, se torna algo simples como uma pena que cai no chão, vagarosamente.

Eu acho que afinidade e bem-querer não se escolhe com a cabeça. Até hoje, nunca se descobriu o motivo real que nos leva a gostar de alguém querendo compartilhar felicidade. A gente gosta e pronto. Por isso, não posso te julgar…

Não posso te julgar pelo abandono que eu sinto. Não posso te julgar por essa sensação inadequada de injustiça. Não posso te julgar pela minha escolha de ter te acolhido no círculo de doação da minha mais carinhosa amizade. Compreenda que sou humana e meu nível de evolução, ainda, não me permite enxergar com naturalidade estes momentos em que tanto precisei de ti e tu, sabendo que eu não estava bem, nada fez. Não cresci tanto a ponto de não sentir falta de um feliz aniversário, no início do mês passado. Sendo que fulano ficou doente e todo mundo caiu em cima de preocupação. Sendo que sicrano fez aniversário e todo mundo se mobilizou para comemorar. Não sou tão madura para admitir que doei mais do que o necessário e que tu, também, podes estar galgando teus níveis de evolução.

Foi barra, colega… É uma barra esses desencontros da vida que brigam com as nossas carências. É muito difícil não querer se fechar para o mundo, não tomar uma postura vingativa, não querer se proteger de quem te desmerece, mesmo que esse alguém não tenha culpa. Quem não fecha o coração diante das frustrações dessa vida é que é forte, mesmo.

Não espere para ser feliz

O que eu aprendi com onze dias de molho, em casa, e o que eu descobri a respeito do propósito de cada dificuldade

Dois dos autores que mais admiro escreveram que em toda dificuldade está contida uma oportunidade. Sendo assim, os acontecimentos vistos como ruins, na realidade, nos convidam a enxergar a situação por um ângulo diferente, aquele que está nos empurrando para um lugar mais adiante. Portanto, cada dificuldade nos causa uma mudança de lugar e nos ajuda a chegar mais perto de onde deveríamos estar. Confesso que tudo isso faz muito sentido mas também é um exercício árduo de reprogramação da mente.

Eu, por exemplo, não conseguia ver vantagem nesta gripe que peguei, recentemente. Já são onze dias. Fiz uma viagem a trabalho e ganhei este presente. Chamar de gripe seria eufêmico de minha parte. Primeiro veio a coriza de toda gripe junto com uma moleza no corpo, um ar de quentura por dentro e uma dorzinha leve na garganta. Na volta da viagem, a coriza evoluiu tanto que me obrigou a respirar pela boca, a dorzinha leve na garganta evoluiu para uma infecção, o ar de quentura me deixou febril e, quando não esperava mais nada, fui pega de surpresa com dores nos ouvidos (um deles acabou tapando) e conjuntivite (creia!).

Em cinco dias de trabalho, só consegui estar presente em um (e nem o deveria ter feito, o esforço de andar em pé dentro de um ônibus cheio em um trânsito caótico de uma viagem intermunicipal pode ter me ajudado a piorar). Repousei muito mas, a cada dia, acordava pior (pode isso, gente?). Dormir, que é tão bom, transformou-se em uma atividade dolorosa (quem é que dorme com o nariz escorrendo, o ouvido doendo, a garganta em fogo que nem engolir a pessoa pode?).

Fora todas as atividades que ficaram pendentes, todas aquelas coisas que tenho vontade de fazer no meu tempo livre e o cansaço nunca me deixou, um semestre de estudos prestes a recomeçar, alguns médicos de outras especialidades para remarcar, exames a se fazer… A rotina, de repente, foi se transformando em horário controlado de remédios, emergências médicas, comer, obrigatoriamente, nos horários certos mesmo sem sentir o gosto, Netflix e cochilos. Bem que eu queria fazer outras coisas mas não havia energia. A saúde é, mesmo, nossa maior riqueza…

Na minha cabeça, o tempo todo, rondava uma pergunta: por que, meu Deus? (É, por quê?). Por que ficar doente de um monte de doenças, ao mesmo tempo? Por que tanto tempo em casa sem utilidade alguma? Por que tantas dores diferentes e concomitantes no corpo? Eu estava de saco cheio neste décimo primeiro dia de doente quando, enfim, me lembrei que essas doenças me levaram até este blogue (aquilo que eu estava dizendo no primeiro parágrafo…). Ter um blogue é um sonho antigo, bem de antes de eu me tornar uma jornalista (e olhe que já são alguns anos de carreira, viu?). Em anos, tentei torná-lo real. Mas eu sou exigente. Queria chegar chegando. Queria começar com capital pra investir, oferecer um visual lindo e profissional, um conteúdo maravilhoso.

Em anos, só pude aprimorar o conteúdo, mesmo (kkkkkk não falemos de capital). Como não gosto de iniciar projetos sem planejamentos, havia esboços engavetados, milhões de ideias guardadas e um vozinha latejando na minha intuição me pedindo para passar por cima de todas as dores que estou sentindo, pegar o notebook e fazer um blogue. Sabe, foi do nada.

Dizem que arriscar atendendo a voz da intuição, nunca, dá errado.

Eu procuro, sempre, me conectar. Vou fazer um blogue, disse eu para mim mesma. Em três dias, tudo fluiu como nunca aconteceu nesses anos todos. De repente, desfiz um projeto de site salvo na internet que eu estava montando e refiz outro com ideias prontas e possíveis de aplicar. Nem me decepcionei com o que encontrei na plataforma gratuita. Tudo o que eu queria, eu consegui colocar. Foi como reger uma orquestra. Um daqueles meus autores prediletos chama isso de ação correta espontânea que, na nossa língua, se chama o momento certo.

A vontade de escrever era tanta que diminuí minhas exigências. Gente, eu não tenho dinheiro para me comprometer com um domínio (creia, jornalistas não ganham tão bem e, neste momento, tenho algumas prioridades financeiras. Sim, eu estou justificando essa minha escolha porque eu sei que um domínio é barato, pelo menos, é o que dizem, pois nem me lembro a última vez que pesquisei a respeito. Sim, eu estou me importando com o que você vai pensar, principalmente se você me conhece. Não faça isso, em casa!) muito menos para um desenvolvedor de site. Tenho planos maravilhosos para criar um site para mim mas não é o momento de colocá-los em prática. Estou morrendo de vontade de voltar a escrever!

Sabe, antes de aprender a escrever dentro do gênero jornalístico, eu enchia meus cadernos de poesia, textos em prosa, crônicas, histórias. Eu amo Literatura, eu amo ficção, eu amo a arte de brincar com as palavras. O Jornalismo meio que me castrou, mas ele não tem culpa, tadinho… Hoje, vejo que o Jornalismo me deu de presente muitas coisas e, atualmente, eu sou a soma de todas elas (o assunto do primeiro parágrafo voltando, novamente). Contudo, eu nunca deixei o diário (vai, me julga, mas vou explicar, mesmo assim). Ter a prática de escrever em um diário significa, para muitas pessoas, uma atitude juvenil de garotas que precisam desabafar seu segredos. Para mim, sempre, significou uma maneira de viver um pouco da minha intensa necessidade de escrever (como você pode perceber, se chegou até aqui, eu escrevo muito kkkk).

Eu amo escrever. Acima disso, eu preciso escrever, entende?

Por isso, o Jornalismo, os anos de perfeccionismo, os planos engavetados e a gripe, nada disso foi em vão. Todas essas fases me trouxeram até este momento onde estou passando por cima da dor, da agonia do ouvido tapado e da tosse seca para escrever o meu primeiro e longuíssimo post. Por que estou feliz?, pergunto eu para mim mesma. Sabe como é, um blogue gratuito, sem investimento de divulgação, o brasileiro nem lê tanto assim…

A resposta é simples: eu estou feliz porque pus em prática a ideia de um sonho antigo com as armas que eu tenho, neste momento.

Agora, estou na pista e viverei as dificuldades que todo aspirante a blogueiro vive e meterei a cara.

Sabe, esperar as condições ideais para ser feliz pode fazer a felicidade fugir pelos dedos. Eu aprendi que a felicidade vem da verdade interior, ser verdadeiro e coerente consigo mesmo, ter consciência de quem você é e do que você pode, ser satisfeito com o que você tem e, nunca, esquecer que, ao seu redor, existe um mundo de possibilidades. Eu sei que a vida é muito difícil e, às vezes, procurar as cores nas pequenas coisas parece besteira mas nem tudo é só cinza. Este é o meu convite e a minha dica pra você no post de hoje: não espere para ser feliz.