Em nome das grandes mulheres

Um apelo especial em nome de todas as mulheres de baixa estatura e voz suave: não somos frágeis. Não é agradável falar das recorrentes primeiras impressões dos outros, com suas expressões de dúvida, a respeito de a nós ser concedida determinada (ou qualquer) tarefa. Somos capazes. Aos motoristas de coletivos, por favor: temos vozes. Um botão (que funcione) uma vez apertado, aciona uma luz, diante dos senhores, acompanhado de uma sirene que significa: desembarque no próximo ponto de ônibus. Alguma dificuldade com interpretação de sinais ou seguimento de regras? Então, explique: por que “queima” os desembarques quando estamos sozinhas? E por que ouve as reivindicações de uma voz masculina e negligencia uma voz feminina?

Aos queridos desconhecidos aos quais seremos apresentadas: não somos crianças. É incrível (do verbo não se pode crer) que uma mulher se aprisione à ditadura do salto alto para ser ouvida. Gente, tamanho não é documento, já dizia minha avó. Nem atestado de ignorância, nem passe livre para o desrespeito, nem autorização para tratamento no diminutivo, nem prova de doçura excessiva. Já viu uma mulher com M maiúsculo de um metro e cinquenta de altura, inteligente e de personalidade forte? Creia: elas existem. Aos queridos e inseguros colegas de trabalho: não somos bestas. Você pode ter um pênis e achar que isso é motivo suficiente para que seu contracheque venha mais alto. Você pode ter mais testosterona e achar que isso é motivo suficiente para julgamentos infundados. Você pode ter pelos torácicos e achar que isso é motivo suficiente para nos passar a perna mas acredite: nem mesmo nós, que por meio de nossas vaginas somos templo da geração da vida humana, medimos nossa capacidade por hormônios ou órgãos sexuais. Cresça.

E aos homens dotados de imaturidade, conservadorismo e certo grau de altura: não somos escravas. Você pode usar seu melhor desodorante, falar mansinho com voz de criança por puro fetiche, fazer o papel da vítima e achar que isso é suficiente para nos manipular aos seus desejos. Querido: temos quereres. Você pode sentir que, no auge de seus quase dois metros de altura, pode nos tratar com ar de superioridade e eu te digo: grande merda. É preciso que um homem tenha qualidades e atitudes que, provavelmente, você desconhece para merecer uma mulher de verdade. Sair pela tangente e te deixar com cara de tacho é a nossa especialidade.

Não tínhamos carnavais

Nenhuma lembrança específica de como eram nossos carnavais. Eles meio que não existiam. O que existia era um grande feriado, onde fazíamos questão de varar a noite assistindo os desfiles de escolas de samba. Comíamos churrasco, dançávamos no meio da sala. Eu era tímida, mas você me fazia rir. Barbeava metade do rosto e deixava a outra metade barbuda e vinha para o meio da sala mostrar o modelito. Ríamos muito. Eu, meu irmão e minhas primas. Todos crianças.

Quem sabe, em outras casas, não fosse natural ter música ao vivo. Aqui, era esse o nosso cotidiano de feriados e fins de semana. Você montava o som, o teclado, os microfones e passava o dia tocando e cantando. Você me ensinou a gostar de fazer música… Eu tenho orgulho de ter me saído a você.

Não tínhamos carnavais. Tínhamos momentos de continuarmos juntos, em família. Após a tua ida, não tinha mais graça ficar em casa no carnaval. Em alguns, viajamos, em outros, eu trabalhei. Saí três anos seguidos seguindo uma orquestra de frevo. A cada dois pulos, um flash. Nem lembro o quanto foi cansativo porque a alegria da experiência é bem mais marcante. Sabe o que foi difícil? Saber como voltar pra casa tarde da noite. Medo de contratar um carro com motorista desconhecido. Medo de voltar de ônibus. Medo que meus amigos não pudessem me ajudar com isso. Eu lembrava, sempre, que, antes, em qualquer lugar que eu estivesse, se eu estivesse precisando, tinha você pra me buscar. Era estranho não poder pegar o celular e te ligar.

É… nenhum carnaval foi o mesmo sem você, meu pai.

É assim que eu me saboto

Eu estava bem e, sem querer, arrumei um motivo para concentrar toda a minha energia. Um motivo de sofrimento. É injusta a facilidade com que a angústia me pega e me leva e me faz alimentar pensamentos destrutivos. Diferente é a alegria que, quando vem, me pega de uma maneira doce mas, em poucos instantes, me percebo ali e penso como isso é raro. Eu estranho. Diferente da conquista que, quando vem, vem sofrida, vem entre lágrimas que quando não são de alívio com dor misturados, é de surpresa: “mas nossa, isso está acontecendo, mesmo? Porque nunca pensei que pudesse chegar, porque não achava, de verdade, que eu merecia”. Ao resolver o foco do sofrimento, logo o substituo por outro. E é assim que eu me saboto.

Essa nem é a única forma. Existe uma tendência a contaminar as outras áreas da vida com a tristeza de, apenas, uma área. Isso gera uma paralisação do corpo e do movimento da vida. Um dia, eu Te pedi ajuda. Disse que não conseguia perceber as ondas do sofrimento me arrastando como quando percebo as da felicidade (e saio correndo, em querer). Então, perguntei: “o que fazer na hora em que o sofrimento me venda? O que fazer quando eu não consigo enxergar?”. Aí Você me disse que eu sou inteligente, que eu posso utilizar o recurso de observar. Bastava escrever, desenhar, expressar aquilo de alguma forma, colocar pra fora e dar um nome ao sentimento. Ao dar nome ao monstro, eu iria descobrir como lidar com ele. “Mas, e se eu não tiver forças para escrever?”, perguntei, em resposta. “Me chame que eu lhe ajudo a pegar a caneta”, Você respondeu.

Foi assim que eu entendi que tudo partia da forma como eu olhava as dificuldades e da proporção que eu estava dando a elas, em minha vida. Usei ângulos distorcidos e os deixei se apossarem de mim. Tudo bem ter medo desde que não se deixe imobilizar por ele. Fiquei me perguntando se eu conseguiria olhar diferente para a próxima dificuldade até entender que minha mente já a esperava, antes de ela chegar, sem saber se ela iria chegar. Há uns dias, me dei conta do alimento que tenho fornecido à minha saúde mental e espiritual. Olhei para os tipos de elementos que tenho derramado em meu cotidiano através dos pensamentos. Eles não são bons, Jesus…

Não me autorizo a aceitar que está tudo bem, não me entrego ao bem-estar porque, quando menos espero, trago lembranças à tona que me fazem sentir dor, mágoa, ressentimento, sentimento de vitimização, sentimento de vingança. Não limpei, completamente, esses lixos emocionais e eles não me deixaram abrir espaço para o que é bom. Tudo passou, mas os sentimentos permanecem vivos e me fazem reviver tudo o que passei. Entendi que não se trata, apenas, de perdoar as pessoas. Trata-se de me perdoar, todos os dias, e quantas vezes forem necessárias até o perdão brotar seguro do coração. Eu preciso me perdoar por ter permitido que me machucassem, preciso me perdoar pela ingenuidade de outrora, preciso me perdoar pela culpa que joguei nas minhas costas, pela forma que olhei pra mim após ter sido, impiedosamente, vítima pois, ter sido escolhida pelos outros para a prática de ações tão maldosas só me dá informações de quem eles são. A mim, entendo que me acomodei no lugar do sofrimento ao ponto de enxergá-lo como natural, a ponto de não saber como reagir, pois ele é tudo o que conheci, por toda a vida. Mas isso precisa mudar.

Quando eu conseguir me perdoar completamente, sei que a venda cairá de meus olhos me permitindo enxergar uma outra realidade dentro da mesma que vivo. Por vezes, não sei como tentar alcançar este perdão, novamente, como aprender a relaxar e me autorizar ao sentimento de libertação e felicidade. Em outras, não sinto forças de continuar tentando. É aí que eu conto com Você pra isso. Não foi por acaso que descobri tudo isso. Por perto, Você há de me guiar.

O erro que você vê em mim está dentro de você

Vamos colocar os pontos nos is: você se chateou por algo que eu disse. Algo que não tem tanto peso assim, mas que você enxergou como gigantesco por uma atitude de reação aos seus próprios sentimentos e forma de ver a vida e as pessoas. Nós tínhamos uma amizade, mas você se achou no direito de me julgar. Você desconsiderou e desmereceu minha atitude de ir te pedir desculpas. Uma atitude sincera e corajosa demais para o que você poderia suportar porque foi uma atitude de alguém que escolheu valorizar a relação e não uma primeira e única briga pontual.

Essa era a minha versão dos fatos até eu entender que eu não tenho como mensurar o tamanho da sua dor diante de palavras ditas sem a intenção de ofender.

Você não me perdoou. Não conseguiu tirar os olhos do seu ego. Não me deu a liberdade de errar. Não lutou por nossa amizade. Você quis diminuir os meus problemas. Você arrumou tantas justificativas quanto pôde para me dizer que eu não poderia ter errado. Você escolheu atirar pedras e convidou outras tantas pessoas para atirarem junto com você. Você disse se preocupar com o coletivo mas (Cristo!) você não faz a sua parte, criatura! Você acha que eu não posso ser emocional, que eu não posso perder o controle, que eu não posso misturar as coisas. Mas todo mundo misturou, na sua frente, e você só reagiu a mim.

Essa era a minha versão até eu entender que a proporção que você deu às minhas atitudes era proporcional à admiração que você me tinha e eu sinto muito em ter lhe decepcionado.

E você que fez pior dizendo que me entendia? Eu acreditei, eu me abri, eu mostrei meus sentimentos. Mas, pelas minhas costas, você estava compactuando com os atiradores de pedras dizendo que tinha nojo de mim… E você que fez pior tirando de mim o meu direito de escolha e o jogando nas mãos do povo? “Crucifica ou liberta?” Gente…

Essa era a minha versão olhando para o meu sofrimento até eu entender que a sua busca por protagonismo é proporcional à sua insegurança e baixa autoestima, o que também gera muito sofrimento e algumas buscas equivocadas e desesperadas para evitar sensações ruins.

Fala a verdade: o que você não gosta em mim, você tem de sobra só que, diferente de você, eu engulo seco e ajo com a verdade. Amadureci o suficiente para assumir a responsabilidade por meus atos. Fala a verdade: sua maneira ávida de me atingir mascara uma postura que você quer esconder e que não contribui para o bem do coletivo, como diz o seu discurso. Fala a verdade: você quer competir, quer estar em evidência, quer me diminuir perante os outros para se engrandecer.

Outra versão que eu tinha: a de uma pessoa, extremamente, ferida até entender que o meu ressentimento por ter sido julgada não me dá o direito de fazer igual.

Eu tenho uma verdade para todas as suas atitudes: olha, eu não sou perfeita, nem quero ser. Sou do tipo que vive aprendendo e, quando erra, faz o que é certo: admite, pede desculpas, tenta reaver o que julga ter valor. Olha, sua forma de me julgar por um erro que cometi não tira de você os erros que você cometeu, erros que você abomina, inclusive. Olha, eu estou aqui trabalhando com meus sentimentos para me perdoar e te perdoar, completamente, porque eu não mereço carregar mágoa no coração. Estou aqui me perguntando as vezes em que fui injusta com alguém falando pelas costas, julgando, sendo rude… Estou, aqui, me comprometendo a nunca mais ser pra alguém o que você foi pra mim.

Olha, é uma pena que você, ainda, não tenha aprendido sobre isso no seu trajeto, uma pena que não saiba ter empatia e nem se colocar no lugar do outro. Eu posso até te entender, mas o tempo já me fez retirar a capa da culpa e deixá-la no chão. Eu tenho o direito de errar. Tenho o direito de me arrepender. Tenho o direito de seguir em frente.

Esse era o meu esforço racional enquanto a dor pairava. Hoje, tendo a dor se ido, eu tiro três mensagens do que foi vivido:

  1. O silêncio é sábio.
  2. Tenha empatia pelas pessoas. Você não sabe o que elas estão passando. Você não tem o direito de julgá-las.
  3. O perdão liberta.

Querido, você foi, apenas, o cara errado

Como mulher, eu escolhi ceder. Fingi que entendia as tuas necessidades masculinas. “Homem é assim, mesmo”, disseram minhas amigas. Decidi abrir mão do que, antes, jamais, abriria para que desse certo. Decidi calar diante do que, antes, jamais, calaria para continuar tentando. Questionei meus conceitos e vontades a fim de encontrar uma parte de mim que estivesse sendo rígida e incompreensiva. Eu queria achar essa parte. Imaginei estar fazendo a minha parte. Eu gostava mesmo de ti…

Gostava tanto que passei por cima de mim. Eu fui até o máximo do meu limite. Eu queria mais tempo contigo. Eu não queria aceitar que tão pouco tempo era suficiente para ir embora. Eu queria mais tempo para conversar como antes, para sentirmos essa retomada. Eu estava inteira, embora não o expressasse com palavras. Eu queria deixar tudo leve, te deixar à vontade. Eu tentei de verdade.

Mas tu querias mais do que eu podia dar. Tu querias tudo o que atendesse à tua intransigência, arrogância e falta de amor. Tu querias o que fosse fácil e conveniente para ti. Por isso, desprezastes uma escuta atenta à minha fala, desprezastes o respeito que é meu de direito. Ao primeiro não, fostes embora.

Homem tem que ser assim, não. Nem as mulheres devem se contentar em ser tratadas de maneira inferior à que merecem por um conceito bobo que se arraigou na sociedade. Existem homens de verdade. Estou falando de homem com H e não com O. Amar a ti era uma oportunidade de amar a mim, de me ver diferente, de me sentir diferente, de acreditar que a nossa história não havia acabado. Mas eu estava, completamente, errada. Quem foi que disse que eu preciso esperar alguém pôr os olhos em mim para que, então, eu possa me dedicar o amor que mereço? Quem foi que disse que eu preciso chegar ao cúmulo de meus limites numa relação só para que o meu conto de fadas imaginado se concretizasse? Quem foi que disse que me colocar em segundo plano ia fazê-lo se concretizar? Isso foi errado.

Eu errei comigo e tudo bem errar. Tudo bem abrir mão da minha vontade de estar certa sobre ti. Tudo bem fornecer a mim aquilo que te dei de sobra. Como profissional, menti para mim dizendo que queria ajudar. De novo, doei o meu melhor, engoli alguns sapos, investi tempo, investi trabalho e dedicação, chorei algumas horas na cama, no banheiro, na frente do computador lembrando da cantada que você escreveu para aquela mulher no Instagram. Eu só estava trabalhando quando vi… Por que estou fazendo isso?, me perguntei. Por que continuo fazendo isso? Eu não conseguia me responder.

Havia uma mulher ferida habitando a profissional, dedicando benefícios a quem lhe dedicou tanta dor. Uma mulher que gostaria de se proteger, de sair daquele lugar, quem sabe, sem mais uma briga que a rasgasse por dentro. Como mulher, fui usada. Como profissional, fui usada. Mas não queria dedicar a ti nenhuma atitude próxima à que dedicastes a mim porque eu não sou assim. Eu não sabia o que fazer. Eu não sabia como ir embora. Por quê? Não sei.

Tu fostes o ausente amor-próprio. Tu fostes a minha dificuldade de me aprofundar numa relação. Tu fostes as minhas fugas diante daquilo que não sei lidar. Tu fostes a minha intransigência, a minha vontade de não estar enganada. Tu fostes a falta de escuta e de respeito que dediquei a mim. Tu fostes a apresentação de monstros meus que preciso destruir. Tu fostes, principalmente, a pessoa “errada” que veio me mostrar que a minha vontade é ser a pessoa certa para mim.

Início do fim

Oi. Tudo bem? Desculpa mandar mensagem essa hora, mas precisava falar. Eu só queria avisar que você deixou de ser conversa fixada no meu Whatsapp, que todas as nossas fotos juntos foram apagadas e que as nossas playlists do Spotify, também. Sobre a senha da Netflix, pode ficar. Não quero nada que possa me fazer lembrar de você. Você não foi o meu pior erro, mas também não foi um acerto. Vista sua melhor roupa, pois hoje você está saindo da minha vida. E vai, logo! Nem olhe pra trás. Você que causou tudo isso, então nem tente questionar minha decisão. Esse não é o final que sonhei, porém é o que temos pra hoje. Depois dessa mensagem, bloquearei você de tudo e não ouse usar outras contas pra se aproximar. Eu quero ser feliz todos os dias e você só em alguns momentos. Eu quero lutar contra o mundo por esse amor e você não está nem aí. Eu tentei planejar um futuro ao teu lado e você não se importa. Cansei de ser usado para inflar o teu ego, procura outro! Se quer viver de aventuras, viva bem longe de mim. Vai! Teu lugar não é mais ao meu lado.

Texto do estudante de Letras Luan Vasconcelos.

Você, também, pode sugerir o seu e compartilhar na aba Contato, aqui, do Fuá de Clara. Leremos com carinho a sua sugestão que, sendo aprovada, poderá ser publicada na categoria Trombeta, porque aqui a gente toca as trombetas pra você falar =)

Um pedido da alma

Minha infância e pré-adolescência não foram badaladas. Não podia sair de casa, não podia ter muitos amigos. Então eu me enfiava por debaixo dos livros, escrevia, brincava de boneca e assistia televisão. Ah, a televisão… Era minha porta de entrada para o mundo nos anos 2000 antes de eu ter um celular, antes de eu mexer na internet pela primeira vez. Todo domingo à tarde, sintonizávamos o canal do Planeta Xuxa. Ah gente, eu adorava ver a rainha entrevistando os artistas heheheh E gostava, também, da banda LS Jack que ela, praticamente, lançou no programa dela. Gostava da voz rasgada do Marcus Menna.

A música Uma carta foi lançada em 2001, no auge da banda, um ano antes de o Planeta acabar. Tenho uma lembrança muito viva com essa música, de uma viagem escolar que participei. A viagem/aula terminava numa praia. Eu lembro que tirei os sapatos e fiquei descalça com os pés na areia. Não parava de cantarolar essa música. Cantei-a a viagem inteeeeira. Foi a minha trilha sonora secreta para aquele momento. É cantar essa música e eu lembro de tudo como se fosse hoje.

Imaginava uma carta dentro de uma garrafa de vidro vazia sendo colocada no mar e os desdobramentos nunca descobertos que isso poderia ter. Como eu era romântica! kkkkkkk Mas a música dá, exatamente, essa ideia: um náufrago a espera do amor verdadeiro. Quando gravamos esse cover para o canal, pedi ideias a uma amiga. Eu queria mesmo improvisar a cena de uma garrafinha sendo jogada na praia, até que minha amiga falou: “amiga, escolhe uma cena mais ecológica, proteja a natureza” kkkkkkkkkkkkkkkk Desisti, prontamente, da ideia.

Aí vai o cover de Uma carta (gravado a long time ago) para vocês =*


Se eu decidir acreditar #3 – A reviravolta

Luna sabia que precisava dar o primeiro passo. Durante tantos anos, compreendia o quanto isso poderia ser difícil para alguém que se acostumou com as dificuldades. Às vezes, quem se acostuma com o ruim não sabe reconhecer o que é bom. Tudo o que a guiava, no momento, era uma intensa vontade de conseguir se sustentar, financeiramente, por vocação (e não, apenas, por profissão). Para pessoas como ela, não havia sentido esperar para ser feliz. A felicidade é o sentimento de plantar no jardim onde se quer florescer. Dinheiro nenhum consegue pagar a satisfação do verdadeiro eu.

Uma vez, Luna pegou um livro emprestado por indicação de sua amiga, Júlia.

– Amiga, eu juro pra você: esse livro mudou a minha vida. Leia que você vai gostar. – disse Júlia.

Luna fez inúmeras descobertas por entre os ensinamentos de Dinesh Hari, um escritor budista indiano. A cada vez que lia mais uma página, abria a boca em tom de surpresa e fazia uma cara de pamonha como quem olha pra o nada dizendo:

– Isso é tão lógico, tão óbvio, tão simples, mas ninguém me ensinou.

Apesar da terapia e do livro, Luna foi entendendo que o mais intrigante dos aprendizados da vida era que a cabeça não podia entender sozinha. Para que uma mudança ocorra, o combustível modificador é o sentimento. Essa era a explicação pela qual Luna, uma moça tão inteligente, tão batalhadora, sabia de tantas coisas mas parecia não sair do lugar: ela não sentia estar em outro lugar. Lutava, lutava, lutava mas se sentia só, se sentia triste. Lutava, lutava, lutava. Muitas vezes desesperançosa sem aceitar a própria realidade.

Sempre que relia aquele livro de autoajuda do guru Dinesh Hari, Luna relembrava que tudo o que estava vivendo era resultado de escolhas que fez no passado, ou de coisas atraídas por sentimentos nascidos de pensamentos que não foram cuidados.

Naquela tarde, ela quis conhecer um restaurante famoso em Rukam. Aproveitou suas duas horas de almoço do trabalho e foi. Ao chegar lá, pediu seu prato e ficou sozinha aguardando, na mesa. Passados uns dois minutos, ouve testes de passagem de som. O restaurante estava a inaugurar um projeto que contemplaria pequenos grupos com apresentações diárias cujos horários variavam a depender dos dias da semana. Naquela quarta, aconteceria no horário do almoço. Antes de iniciar, a proprietária do local pega o microfone.

– E aí galera! Tudo certo? Olha só, a gente tá adorando receber esses artistas bonitos, aqui no Rukan’s Bar. O projeto está dando tão certo que a gente conseguiu patrocínio pra financiar o primeiro Festival de Música Autoral da nossa cidade!

(aplausos)

Luna quase engasga com as batatas fritas enquanto a mulher falava.

– Então, vê só: a gente publicou todo o regulamento para as inscrições lá no site do restaurante e gostaríamos de pedir o apoio de vocês nessa divulgação. Se você tem um amigo ou amiga que gosta de música e compõe as próprias canções, convida eles pra preencherem os dados no site com o envio da música em MP3, beleza? Outra coisa mega importante é que até o dia do festival, o grupo precisa vir se apresentar aqui, semanalmente, pra que a galera tenha oportunidade de conhecer a música e cantar junto. A gente vai ter um corpo de jurados e as votações do público online, por isso é muito importante preparar o seu pocket show e trazer pra cá, valeu? Qualquer coisa, a Gisele, nossa assistente, tá aqui pra tirar as dúvidas de vocês. Valeu, gente! Fiquem com a apresentação da galera do Tony Jazz.

– Passa a bolsa.

Luna sentiu algo pontudo em sua cintura e gelou ao ouvir aquela frase. Sua cabeça deu três voltas até que ela se virasse pra ver se era verdade. Não era, felizmente. Era Júlia pregando peça de mal gosto. Luna teve um ataque de tosse com o susto. Todo mundo ficou olhando e até o Tony deu uma parada no show pra perguntar no microfone se estava tudo bem.

– Tá tudo bem, gente! A minha amiga se engasgou mas passou, tá? – diz Júlia, completamente gaisa, com sorrisinho amarelo no rosto.

Luna se recompõe pra falar.

– Júlia, peste, que susto da moléstia foi esse que tu me deu, hein? E que mico, fia, todo mundo ficou olhando…

– Sorry, miga, eu só tava brincando. Acalmados os ânimos, até que foi engraçado, diz Júlia rindo.

– Desculpada, responde Luna com cara de enfezada.

– O que tava rolando antes de eu chegar?

– Então, a dona do bar vai promover um Festival de Música Autoral aí… parece que conseguiu patrocínio e vai ser coisa grande, vai dar oportunidade aos compositores de Rukam.

Júlia arregala os olhos, animada.

– Amiiiiigaaaaaa, tua chance. Vamos inscrever alguma das suas músicas!

Luna não se anima.

– Eu não tô pronta pra isso, Júlia. Tenho algumas músicas que nem harmonizei, nem escrevi partitura, nem registrei e só isso vai me dar um trabalhão por falta de prática, sabe? Eu demoraria anos pra deixar tudo pronto. Fora isso, teria que encontrar amizades musicais que comprassem a ideia, tempo pra ensaiar, arranjo pra montar. Ih amiga, não há tempo hábil pra isso.

Júlia ouve com atenção e acena a cabeça dizendo sim, aguardando o seu momento de falar.

– Ô Luna, me diz uma coisa, amiga: por quanto tempo mais você vai se sabotar?

Luna arregala os olhos de susto. Ela esperava que Júlia concordasse com o que disse e mudasse de assunto mas não foi o que aconteceu. Júlia continua.

– É sério, Luna, você tem tantos anos de estudo, é tão aplicada, canta bem, só falta se dar de presente um pouco mais de confiança em si mesma, amiga… Eu conheço suas músicas e já me imagino ouvindo elas na rádio, sabia? Amiga, se dê uma chance! A oportunidade está bem aqui na tua cara. Se você ganha esse prêmio…

Luna interrompe a amiga.

– Júlia, calma, amiga, eu já tô em pânico só de pensar na possibilidade de me inscrever. Daí a ganhar é chão, viu? Eu sou inexperiente, amiga, você sabe, eu sou uma economista…

Júlia interrompe Luna com mais uma brincadeira, falando ironicamente.

– Você é uma economista, tá na metade do curso, não pode desistir, precisa de grana pra se sustentar, e seu pai, e seu irmão… ai, Cristo! Onde que liga o botão do otimismo nessa menina? Cadê?

Luna sai pela tangente.

– Rapidinho, eu vou ao banheiro.

No caminho ao banheiro feminino, Luna escorrega num guardanapo sujo que caiu no chão e quase cai de bunda no chão. Sorte que Tony estava arrumando seu material enquanto a banda fazia um momento de improviso instrumental no palco e, num reflexo, segura Luna a tempo. Sem jeito, morrendo de vergonha, ela agradece e segue para o banheiro. É o tempo que Júlia avista seu colega do tempo da escola. Acena para Tony que se aproxima de sua mesa.

– Eu tava tão entretida na conversa, aqui, com minha amiga que nem te vi! E aí, que sonzasso, hein?

– E aí Julinha, beleza? A galera é do bem, tamo aí apostando nesse repertório novo, caindo na estrada…

– Tu vai participar do festival?

– Vamo sim, vai ser massa.

– Eu tava, aqui, tentando convencer a Luna a participar. Ela tem umas músicas tão bonitas que só vendo, Tony.

– Massa, massa, mas ela não quer participar, não?

– Eu acho que quer mas a bronca é que ela tá preocupada com o tempo pra registrar as canções, arrumar gente pra ensaiar, essas coisas. A Luna é muito planejada, sabe?

– Mas eu acho que dá tempo, pow, pra resolver tudo isso aí.

– É… talvez ela precise de um empurrãozinho. Tô fazendo a minha parte, diz Júlia sorrindo.

Tony retira o seu cartão do bolso.

– Olha só, eu tenho que voltar pra o palco porque o improviso dos caras tá acabando e eu vou cantar a próxima mas fica com meu cartão pra a sua amiga. Se ela precisar de ajuda com essas coisas a gente pode conversar, beleza? Beijo pra tu!

Tony retorna ao palco pelo mesmo corredor por onde Luna está voltando, ainda cheia de vergonha pela quase queda. Os dois se cumprimentam e Luna volta pra a mesa. Júlia não se contém de animação.

– Você tem duas horas de almoço, dá pra juntar o povo e vir tocar aqui. Os ensaios podem rolar nos fins de semana lá em casa. As harmonias e arranjos, você tira as dúvidas com o Tony que tem mil anos de estrada. Tá resolvida a tua vida, vâmo se inscrever nesse negócio!

Luna faz cara de confusa.

– Que povo, Júlia? Que ensaios? Amiga, eu acho muito difícil começar esses malabarismos do nada. Eu preciso de mais tempo para me preparar. Quem sabe na segunda edição do festival?

– Você que sabe mas quem te garante que haverá uma segunda edição? Amiga, o Tony disse que podia te ajudar, ele é super gente boa, se vocês se conhecessem tenho certeza que ia dar certo.

– Tony?

– Oxe, nunca te falei dele, né? A gente estudou junto na quarta série, na época em que, ainda, se chamava quarta série. Tony tem família de músicos, estudou pra isso a vida toda. Agora tá aí com o projeto de jazz dele.

– Ah, massa, diz Luna se sentindo interessada.

– Olha, eu comentei com ele, rapidamente, sobre a tua situação e, antes de voltar pra o palco, ele me pediu pra te repassar o contato dele pra vocês conversarem.

Júlia entrega o cartão de Tony a Luna. Luna fica sem jeito.

– Ai amiga, como é que eu vou falar de umas coisinhas simples que eu faço em casa pra um cara, completamente, monstro no assunto? Eu nem conheço ele! Não me sinto bem, entende?

– Luna, deixe de pantim, pelamor. Fale com ele! Eu te ajudo amiga… mas anda em direção ao teu sonho.

– Preciso voltar pra a empresa. A gente se fala depois, tá?, diz Luna já se levantando da mesa.

Luna está se sentindo insegura sobre participar de um festival por não ter experiência de palco e, também, por não ter os direitos autorais de suas músicas protegidos. O que você acha que vai acontecer?

Leia os outros capítulos desta história, aqui.
Você pode continuar esta história, aqui, nos comentários e acompanhar o desenrolar dos fatos na categoria Pitaque, se quiser. Você vai ver seus pitacos na história. Quem nunca quis criar o rumo de uma novela? Comenta aí!

Ter um sonho todo azul

Quem tem um timbre de voz diferenciado e marcante deve ser grato pelo resto da vida e não deixar passar a chance de utilizar esse dom. Imagina alguém escutar a sua voz, independente do momento, ou de ruídos ocasionais, ou de qualquer melodia desconhecida, e reconhecer você. É sublime. É uma bênção. A voz é um instrumento poderoso capaz de transformar lugares, no interior do ser, inimagináveis. Tim Maia tinha esse dom. E lutou por ele com garra invejável. Ele se foi mas a voz dele continua, inegavelmente reconhecida, na mente das pessoas onde quer que ele seja ouvido. Sua obra é seu legado. Ele se foi e eu era criança mas ouvi Tim Maia minha vida inteira e ouço, ainda, porque adoro.

A música Azul da cor do mar, composição dele lançada em 1970, é uma de minhas prediletas. Ela fica num grupo especial de outras músicas que me ensinam a olhar para a vida de uma maneira mais reflexiva e sábia. Era dom, também, a maneira que ele tinha de falar sobre a vida e ele o aproveitou muito bem. Azul da cor do mar me leva a um lugar de resignação. Muitas vezes, confundi resignação com derrota. Nada disso: resignação é uma postura sábia de gente que não perde a esperança de que o futuro pode ser diferente sem perder, também, a aceitação sobre o momento presente. E aceitar, minha gente, é abraçar tudo o que, hoje, é, do jeito que é, sem tentar modificar forçando soluções que podem gerar novos problemas. Aceitar o presente é tomá-lo como um ponto de partida, é entender que, em tudo, existe uma oportunidade de sermos melhores.

Ao aceitar o presente podemos pretender o futuro e é assim que nossos sonhos se tornam reais: liberamos a carga de insatisfação ao aceitar e abrimos espaço para focar na realidade que queremos. Por isso, é importante sonhar. Nós somos o que sonhamos, somos seres puramente subjetivos, feitos de energia. Nós precisamos sonhar. Ao sonhar, estamos co-criando uma nova realidade para as nossas vidas.

Fiz um cover de Azul da cor do mar (a long time ago). Assistam a seguir =*

 

Na luz e no resgate do sambão que nunca morre

É um som bem acabado, arranjos bem produzidos dando uma cara mais atual a clássicos incansáveis de se ouvir. Primeiro, ficamos atentos a isso. Depois, uma voz aveludada que já conhecemos do Pop e da MPB, com-ple-ta-men-te, confortável no samba. E uma bela surpresa em parte considerável das nove faixas: agudos seguros e encorpados. Som de qualidade, sabe? Ela chega lá e “pá”: manda o recado do jeito que tem que ser.

Ao falarmos “do jeito que tem que ser” podemos nos referir, também, à intencionalidade da interpretação. Quando você começar a prestar a atenção na mensagem que uma música cantada diz transpondo as sensações da melodia e do ritmo e alcançando significado nas emoções traduzidas ali, grave o nome do intérprete (sim, porque é esse o nome do profissional/artista que leva este significado até você). E ela tem isso. Ela é uma danada. Surpreendente. Talentosa. Dona do palco, dona do discurso. Já viu ela cantando ao vivo? Nenhuma de suas performances nega seu estudo e seus mais de trinta anos de vivência com a arte e a Música.

Precisamos falar de Na luz do samba, um CD da cantora Luciana Mello que foi lançado em 2016 em homenagem ao seu pai, Jair Rodrigues que, segundo ela, passou muito tempo insistindo para que a filha gravasse um disco só de “sambões”. Pronto, não precisamos de mais nenhum motivo para nos emocionar, apesar de o trabalho ser, extremamente, alegre e viciante. Para entrar na atmosfera de um CD, é preciso chegar à terceira escuta e ir além dela.

Luciana, que também é compositora, fez a escolha de ser somente intérprete neste CD e escolheu tão assertivamente! Reuniu um time de peso nas regravações incluindo nomes como Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e Jair Rodrigues. Ah, o Jairzinho! Não é difícil se encantar com a delicadeza e a sensibilidade das músicas dele. A faixa de abertura do álbum, mesmo, Estrela sorridente, foi feita para o pai. É bonito sentir o contágio dos sentimentos dele ao ouvir a música. Tão leve e tão linda quanto o amor de um filho que admira um pai. Mas, ainda, não é esta a faixa que fica grudada nas sensações. Há quatro que podemos destacar. Duas delas falam de empoderamento feminino: Brasileira guerreira e Na correria. São discursos de mulheres que lutam por seus objetivos mesmo diante das dificuldades com uma lúcida consciência do seu papel e do que representam, especialmente, para si. Um embalo maravilhoso de autoestima e amor próprio. Já Clementina é uma homenagem a uma grande mulher. Tem um agudão poderoso que a Luciana dá, nessa música, sem piedade. Coisa linda de se ouvir! Sabe quando você fica pensando: quero ver se ela consegue, agora, aí a pessoa vai e consegue pisando sem sacrifício? É, mesmo, assim. E Roda de Baiana traz a participação de Nina Levy, a filha de Luciana que, na época, tinha seis anos de idade. Dá pra lembrar de leve que a música é super alto astral, faz umas referências à escola de samba Mangueira e tal mas o que fica mesmo tocando no juízo é a vozinha da Nina, gente! Que coisa mais fofa de linda e afinada! E quando a Luciana diz: muito obrigada, minha filha, no final da gravação, dá uma vontade de chorar. Sabemos que a Luciana é filha e irmã de dois talentosíssimos músicos, assim como ela, também, é. Nina é a terceira geração desse talento todo. É emocionante, sim.

O disco, ainda, tem a participação de outro ícone da Música Popular Brasileira: a Marrom (a mestra Alcione, diva, poderosa, abriu a boca sai voz pra dar e vender). Um trabalho refinado, bem produzido, bem feito na melhor das redundâncias. Dá vontade de ouvir por mais umas três vezes sem cansar, ou por mais umas dez até cantar tudo junto. Uma boa pedida pra quem gosta de samba, pra quem reuniu as amizades pro churrasco, pro almoço, pra papear e se divertir. Vale a pena ouvir, sim.