Não tínhamos carnavais

Nenhuma lembrança específica de como eram nossos carnavais. Eles meio que não existiam. O que existia era um grande feriado, onde fazíamos questão de varar a noite assistindo os desfiles de escolas de samba. Comíamos churrasco, dançávamos no meio da sala. Eu era tímida, mas você me fazia rir. Barbeava metade do rosto e deixava a outra metade barbuda e vinha para o meio da sala mostrar o modelito. Ríamos muito. Eu, meu irmão e minhas primas. Todos crianças.

Quem sabe, em outras casas, não fosse natural ter música ao vivo. Aqui, era esse o nosso cotidiano de feriados e fins de semana. Você montava o som, o teclado, os microfones e passava o dia tocando e cantando. Você me ensinou a gostar de fazer música… Eu tenho orgulho de ter me saído a você.

Não tínhamos carnavais. Tínhamos momentos de continuarmos juntos, em família. Após a tua ida, não tinha mais graça ficar em casa no carnaval. Em alguns, viajamos, em outros, eu trabalhei. Saí três anos seguidos seguindo uma orquestra de frevo. A cada dois pulos, um flash. Nem lembro o quanto foi cansativo porque a alegria da experiência é bem mais marcante. Sabe o que foi difícil? Saber como voltar pra casa tarde da noite. Medo de contratar um carro com motorista desconhecido. Medo de voltar de ônibus. Medo que meus amigos não pudessem me ajudar com isso. Eu lembrava, sempre, que, antes, em qualquer lugar que eu estivesse, se eu estivesse precisando, tinha você pra me buscar. Era estranho não poder pegar o celular e te ligar.

É… nenhum carnaval foi o mesmo sem você, meu pai.

Um pedido da alma

Minha infância e pré-adolescência não foram badaladas. Não podia sair de casa, não podia ter muitos amigos. Então eu me enfiava por debaixo dos livros, escrevia, brincava de boneca e assistia televisão. Ah, a televisão… Era minha porta de entrada para o mundo nos anos 2000 antes de eu ter um celular, antes de eu mexer na internet pela primeira vez. Todo domingo à tarde, sintonizávamos o canal do Planeta Xuxa. Ah gente, eu adorava ver a rainha entrevistando os artistas heheheh E gostava, também, da banda LS Jack que ela, praticamente, lançou no programa dela. Gostava da voz rasgada do Marcus Menna.

A música Uma carta foi lançada em 2001, no auge da banda, um ano antes de o Planeta acabar. Tenho uma lembrança muito viva com essa música, de uma viagem escolar que participei. A viagem/aula terminava numa praia. Eu lembro que tirei os sapatos e fiquei descalça com os pés na areia. Não parava de cantarolar essa música. Cantei-a a viagem inteeeeira. Foi a minha trilha sonora secreta para aquele momento. É cantar essa música e eu lembro de tudo como se fosse hoje.

Imaginava uma carta dentro de uma garrafa de vidro vazia sendo colocada no mar e os desdobramentos nunca descobertos que isso poderia ter. Como eu era romântica! kkkkkkk Mas a música dá, exatamente, essa ideia: um náufrago a espera do amor verdadeiro. Quando gravamos esse cover para o canal, pedi ideias a uma amiga. Eu queria mesmo improvisar a cena de uma garrafinha sendo jogada na praia, até que minha amiga falou: “amiga, escolhe uma cena mais ecológica, proteja a natureza” kkkkkkkkkkkkkkkk Desisti, prontamente, da ideia.

Aí vai o cover de Uma carta (gravado a long time ago) para vocês =*