Em nome das grandes mulheres

Um apelo especial em nome de todas as mulheres de baixa estatura e voz suave: não somos frágeis. Não é agradável falar das recorrentes primeiras impressões dos outros, com suas expressões de dúvida, a respeito de a nós ser concedida determinada (ou qualquer) tarefa. Somos capazes. Aos motoristas de coletivos, por favor: temos vozes. Um botão (que funcione) uma vez apertado, aciona uma luz, diante dos senhores, acompanhado de uma sirene que significa: desembarque no próximo ponto de ônibus. Alguma dificuldade com interpretação de sinais ou seguimento de regras? Então, explique: por que “queima” os desembarques quando estamos sozinhas? E por que ouve as reivindicações de uma voz masculina e negligencia uma voz feminina?

Aos queridos desconhecidos aos quais seremos apresentadas: não somos crianças. É incrível (do verbo não se pode crer) que uma mulher se aprisione à ditadura do salto alto para ser ouvida. Gente, tamanho não é documento, já dizia minha avó. Nem atestado de ignorância, nem passe livre para o desrespeito, nem autorização para tratamento no diminutivo, nem prova de doçura excessiva. Já viu uma mulher com M maiúsculo de um metro e cinquenta de altura, inteligente e de personalidade forte? Creia: elas existem. Aos queridos e inseguros colegas de trabalho: não somos bestas. Você pode ter um pênis e achar que isso é motivo suficiente para que seu contracheque venha mais alto. Você pode ter mais testosterona e achar que isso é motivo suficiente para julgamentos infundados. Você pode ter pelos torácicos e achar que isso é motivo suficiente para nos passar a perna mas acredite: nem mesmo nós, que por meio de nossas vaginas somos templo da geração da vida humana, medimos nossa capacidade por hormônios ou órgãos sexuais. Cresça.

E aos homens dotados de imaturidade, conservadorismo e certo grau de altura: não somos escravas. Você pode usar seu melhor desodorante, falar mansinho com voz de criança por puro fetiche, fazer o papel da vítima e achar que isso é suficiente para nos manipular aos seus desejos. Querido: temos quereres. Você pode sentir que, no auge de seus quase dois metros de altura, pode nos tratar com ar de superioridade e eu te digo: grande merda. É preciso que um homem tenha qualidades e atitudes que, provavelmente, você desconhece para merecer uma mulher de verdade. Sair pela tangente e te deixar com cara de tacho é a nossa especialidade.

Você sabe como me ajudar

Paulista, 11 de agosto de 2018

Se eu fizer o pedido certo, Você vai me atender. Eu sei. Também, sei que posso te chamar de Você porque Você não está, somente, perto do meu corpo em onipresença, Você está perto da minha alma, Você ouve meu coração, Você sabe do que preciso e em quê acredito. É assim que eu vejo Você, é assim que eu sinto Você, é assim que eu acredito em Você: um Deus que me ouve sem me julgar, um Deus que me entende sem eu pedir, um Deus que me aceita, exatamente, como eu sou e que vai me aceitar quando eu decidir mudar. Um Deus que me ajuda a mudar.

Guerreiros espirituais não se apoiam no que se pode pegar. Nossa luta é subjetiva. Nossas dores são escancaradas, para nós mesmos, com coragem. Nossas questões são tratadas em conversas que decidimos ter Contigo. Daí, nascem as decisões, nascem novas posturas, nasce uma confiança maior nessa relação que iniciou-se antes de nascermos e que vem se desenrolando em fatos e situações cujas causas estão muito além da nossa compreensão. Eu tenho o papel de criar responsabilidade e trazer para a consciência o máximo de informações que eu puder sobre mim. Para cuidar melhor de mim. Para caminhar melhor para os meus objetivos. E sei que Deus tem o papel de acolher tudo aquilo que foge do meu controle e que não cabe a mim entender ou contestar. Certas coisas são como são. Em outras coisas podemos interferir. Eu quero ajudar no que eu puder, eu quero ver mudar o que eu puder, a começar por mim.

Peguei-me, hoje (Você lembra?) a pedir-Te por aceitação. Não para que Você me aceite, não para que os outros me aceitem (porque eles não aceitam, mesmo) mas para que eu me aceite. Completamente. Sem deixar espaços. Porque a medida que me incomodo com o que os outros não aceitam ou julgam em mim, devo entender que algo, dentro de mim, também, acredita naquilo (do contrário eu não me incomodaria…). Então, eu pedi a Você para eu me aceitar. Eu disse a Você que eu preciso me aceitar. Ao me aceitar, cumprirei o pré-requisito essencial para me amar. Em completude. Sem deixar espaços. Eu preciso me amar.

É com o coração que pretendo decidir. Os modelos lógicos, já constatei, são falhos. É de Você que vem a inspiração. O futuro é incerto e sobre ele não sabemos. É Você quem me faz saber. Um pedido genuíno do fundo da minha alma para Aquele que sabe quem eu sou, o que quero e do que, realmente, preciso. Um pedido honesto de quem criou coragem para chorar, parando de fugir dos maus sentimentos. Alguém que está se permitindo à exposição para obter a cura e a paz. Você deve ter ouvido. Se pedi certo, como espero ter pedido, Você vai me atender. Você sabe como me ajudar.

Com amor,
Sua filha.

Me perdoe por não poder lhe julgar, julgando

Colega, por algum tempo, eu te chamei de amigo… Eu me doei e me atirei a me importar contigo como é praxe de minha personalidade com novas relações. Tenho reparado que as pessoas muito se defendem. Eu não. Eu pago pra ver, até que me provem o contrário. Que besteira é essa de não me dar uma chance de ter um amigo? Que besteira é essa de não me dar uma chance de ser um amigo para alguém? Tenho reparado que o universo emocional das pessoas anda meio adoentado e tudo pode ser motivo para alguma desconfiança.

Colega, não acho que este seja o nosso caso. O que eu acho é uma realidade muito dura de dizer. No entanto, uma vez dita, se torna algo simples como uma pena que cai no chão, vagarosamente.

Eu acho que afinidade e bem-querer não se escolhe com a cabeça. Até hoje, nunca se descobriu o motivo real que nos leva a gostar de alguém querendo compartilhar felicidade. A gente gosta e pronto. Por isso, não posso te julgar…

Não posso te julgar pelo abandono que eu sinto. Não posso te julgar por essa sensação inadequada de injustiça. Não posso te julgar pela minha escolha de ter te acolhido no círculo de doação da minha mais carinhosa amizade. Compreenda que sou humana e meu nível de evolução, ainda, não me permite enxergar com naturalidade estes momentos em que tanto precisei de ti e tu, sabendo que eu não estava bem, nada fez. Não cresci tanto a ponto de não sentir falta de um feliz aniversário, no início do mês passado. Sendo que fulano ficou doente e todo mundo caiu em cima de preocupação. Sendo que sicrano fez aniversário e todo mundo se mobilizou para comemorar. Não sou tão madura para admitir que doei mais do que o necessário e que tu, também, podes estar galgando teus níveis de evolução.

Foi barra, colega… É uma barra esses desencontros da vida que brigam com as nossas carências. É muito difícil não querer se fechar para o mundo, não tomar uma postura vingativa, não querer se proteger de quem te desmerece, mesmo que esse alguém não tenha culpa. Quem não fecha o coração diante das frustrações dessa vida é que é forte, mesmo.