Mais leve que o ar, tão doce de olhar

Agora que fora esquecida, havia a raiva latente. Essa coisa que dava nó na garganta e às vezes queria escorrer pelos olhos, por falta de outra via de escape. A raiva precisava ser escoada por algum lugar, para não consumi-la. Havia a raiva e havia também um pouco de dor, essa coisa que diagnostica que algo como o amor quer pairar por dentro do peito. Por sorte, a dor era pouca. Não houve tempo para tanto drama assim. Mas o amor, não fosse justamente pela falta de tempo e espaço, teria nascido em meio àquela história já findada.

É importante lembrar que a brevidade dos fatos nada podia contra a intensidade das lembranças que lhe foram plantadas na memória. Uma vez jogada a semente e ela germinada, não importa mais o tempo que se levou cavando a terra e depositando-a lá. Ela apenas cumpre seu destino e se abre para que algo brote. Algo prematuro demais para ser nomeado já havia nascido ali. E mesmo prematura, a mudinha de não-se-sabe-o-quê era cheia de vontades: a maior delas era querer ser amor. Mas esse desejo, contido na folha mais bonita do seu caule mirradinho, lhe fora podado logo cedo. Quem mandou germinar assim de pronto? E ainda mais – planta mais besta! -, quem mandou inventar de querer ser amor?

Mas era uma lembrança que ainda afagava os olhos. Foram as pequenas flores que iam surgindo por entre as folhas – se abrindo sempre apesar de – que refrearam a raiva que existia. Sob controle, a raiva foi virando melancolia. Era triste ver uma planta tão pequena, mas ousada ao se encher de flores-promessa, ter de parar ali. Não haveria frutos. Nem novos galhos. Tinha as flores por lembrança e só.

E então, mais calma, depois de uma tarde inteira se revirando por não poder mais adiar o reconhecimento do fim, abraçou aquela coisa pequena, frágil e tão bonita que tinha plantada em sua mente. Fosse o que fosse, estagnada como fosse, era sua e de verdade. Não seria justo deixar de desfrutar do perfume e da beleza deixados, já que os frutos já lhe haviam sido negados. Com o tempo, os pequenos espinhos não mais a machucariam quando quisesse abraçar aquelas flores. O tempo sempre dá leveza às memórias. Agora que fora esquecida, ela não via a hora de poder lembrar em paz.

Natércia-dantas

Repost do blogue Espelho, Espelho Meu da jornalista, cantora e estudante de Psicologia Natércia Dantas.

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Volta livre escrita minha

Volta, livre, escrita minha
Venha do fundo das emoções
Venha das correntes quebradas
Das palavras sufocadas
E da dor daquelas prisões

Volta, livre, escrita minha
Vem, traduz a minha dor
Toca o âmago do meu pranto
E liberta com acalanto
Essa falta de dizer o que for

Volta, livre, escrita minha
E me ajuda a pôr pra fora
Cada gota dessas lágrimas
Guardadas com tanta demora

Volta, livre, minha escrita
Pode usar o que quiser
Todo ai, tu, reticências
Gerúndio, oblíquo, sentença
A moda da vez com boné

Venha, livre, escrita minha
Teu grito, tua voz posso ouvir
Reencontre as mãos arrependidas
Da poetisa contida
Que não deixou de sentir

Vem cá, poesia minha
Me cura, sacode, levanta
Me ensine a não ser mais covarde
A tentar transformar em arte
A dor de qualquer lembrança