Minhas impressões sobre Sense8

Na primeira vez em que ouvi falar de Sense8, eu estava assistindo ao canal da Jout Jout Prazer quando me deparei com um vídeo dela tentando explicar a série. Durante a ocasião, Jout Jout mostrou vários comentários e mensagens recebidas de fãs pedindo para que ela falasse a respeito. Lembro que a youtuber se saiu muito bem em sua explicação, o que me deixou curiosa para conhecer o produto.

Na época, eu não tinha assinatura com a Netflix e, sim, eu não deveria ter feito aquilo mas assisti a primeira temporada em um site da internet que disponibilizava os doze episódios (sorry!). Não espere que eu vá te dar detalhes técnicos ou analisar a linha de atuação ou a trilha sonora da série. Neste espaço, aqui, eu quero poder expor o que me toca, o que me chama a atenção, o que eu acho interessante porque tenho uma trajetória de não conseguir me envolver, facilmente, com as coisas que assisto. Contudo, Sense8 é, também, uma exceção a esta regra. Lembro que me apaixonei. Segui página em rede social, li um monte de matérias sobre bastidores, me dei conta da legião de fãs que o produto já tinha (e eu passava a ser um deles!). Lembro da felicidade que senti ao receber a notícia de estreia da segunda temporada, justamente porque, agora, eu tinha Netflix (kkkkk).

Sense8 é uma quebra de paradigmas e crenças. Sabe aquilo que a gente acredita desde quando nasceu? Sabe aquilo que a gente nunca buscou mas já estava lá quando chegamos? Sense8 destrói tudo isso através de uma trama bem feita, um trabalho minucioso de continuidade, movimentos de câmera, imagens, ângulos, cenários, trabalho com a luz, extremamente, bem feitos mas, principalmente (principalmente!), por conseguir nos fazer envolver com os personagens e torcer para que eles fiquem bem.

Não dá para explicar o enredo para quem nunca assistiu. Eu só sei que nunca aconteceu de eu me conformar em assistir um episódio e ir fazer outras coisas. Assistia até cansar, fazia minhas refeições em frente à tela, nem tomava banho pra começo de conversa. Ao final de cada episódio, com seus cerca de cinquenta minutos, estava lá eu ofegante, me perguntando se eu estava entendendo, retomando a história, mentalmente, ou, como diria a Jout Jout, sem saber como existir!

Sense8 fala de uma outra espécie de ser humano. Fico pensando que é mais fácil explicar a aceitação pelas diferenças e a extinção do preconceito quando se fala de uma outra espécie. Trata-se de união, grupos que se veem, se sentem, se conectam independente da distância. Penso que também pode falar, metaforicamente, dos vários eus existentes dentro de uma pessoa que, em diferentes momentos da vida, vai buscar, dentro de si, uma atitude mais assertiva. Fala de relações e do quanto elas dizem sobre nós, o tanto de nós que encontramos no outro e vice versa. Somos capazes do que quisermos se acreditarmos. Sense8 fala de uma luta antiga que pleiteia a união livre daqueles que se amam. Fala de tolerância, de respeito, de convivência.

Não é difícil se envolver e se apaixonar por aqueles oito protagonistas, cada um com sua história, seus costumes, seu tipo físico, sua cultura, sua língua. Não é difícil querer que, surpreendentemente, na hora do perigo, alguém tome conta do nosso corpo e resolva tudo pra nós. Não é difícil entender que dentro de nós pode estar tudo o que precisamos. Não é difícil entender que, às vezes, nosso pior inimigo mora dentro da nossa cabeça.

A procura de novos horizontes

Das certezas do que quer, ela sabe. Sabe, também, que nenhum sonho nasce, assim, com a facilidade de se realizar, mas luta. Todo dia, luta um pouquinho mais, investe um pouquinho mais, estuda um pouquinho mais. Seu sonho é, um dia, poder se sustentar fazendo o que gosta.

Quando aquele trabalho com carga horária de oito horas diárias apareceu, não sabia se ficava feliz ou triste. Por um lado feliz pois, apesar de estar trabalhando para os outros, estaria aprendendo sobre coisas que precisaria para os seus projetos. Por outro lado, que tempo haveria para investir nesses tais projetos que são a fonte de sua essência e felicidade? Mesmo com tantas renúncias ficou com a primeira opção. Afinal, que escolha tem o brasileiro pobre do século XXI se não fazer um jogo de cintura brabo se quiser sobreviver e se realizar, ao mesmo tempo? Por vezes, pensava nessa injustiça: “minhas qualidades, capacidades, meu intelecto estão a serviço de enriquecer o outro que não paga metade do que mereço por renunciar à minha felicidade. Tudo isso em nome da sobrevivência…”

O plano não saiu bem como esperava. Havia algo de errado naquele ambiente. Era tudo muito pesado, a começar pela chefia. O primeiro sinal de que não aprenderia o que gostaria deu-se, logo, nos primeiros dias: foi deslocada de sua função originária de sua real profissão. Aceitou isso na ilusão de que teria acesso a outras ferramentas. Mas não teve. Deu de cara com uma chefia, extremamente, centralizadora que guarda toda a intelectualidade dos projetos para si e delega tarefinhas de casa para os seus subordinados. Tudo isso mascarado de longas e milhares de reuniões gerais de equipe que serviam mais para atrasar os trabalhos em andamento do que, verdadeiramente, para resolver alguma coisa. Ela pescava as boas ideias de sua equipe mas, no fim, levava o crédito por todo o trabalho pois fazia questão de realizar todos os planejamentos. Não conseguia, realmente, delegar. Após sofrer, consideravelmente, com as atitudes daquela mulher, alguém a fez abrir os olhos e entender que o nome daquele tipo de atitude é insegurança.

Seus santos não bateram. É o tipo de falta de sintonia que não tem explicação. A doutrina espírita diria que é uma antipatia carregada de vidas passadas. Mas esforçou-se. Encontrou outros inseguros, no caminho. Esforçou-se. Precisou render-se a não pensar (logo ela que amava colocar as ideias para fora!). Limitou-se a fazer o que lhe era pedido. Foi ficando opaca, sem cor, sem vida. Ela nunca se colocou naquele tipo de pensamento onde havia separação entre trabalho e pessoa. Acreditava que trabalhar era uma parte de si, uma parte de quem ela era. Por isso, doía não poder exercer a si, não poder contribuir como sabia que poderia, contudo, se submeteu em nome da hierarquia.

Quis sair daquele ambiente, quis afastar-se da forma como estava sendo vista e reduzida. Tentou. Procurou. Nada. Após alguns meses, houve uma reconfiguração na equipe e uma troca de chefia. Dentro da reconfiguração, assumiu o posto que sabia mexer, aquele para o qual havia estudado. O trabalho fluiu. Mostrou resultados. Todos viram e reconheceram.

Um belo dia, recebeu uma proposta:
– Você ganhou uma promoção. Mas precisamos lhe demitir deste contrato para fazer outro. Não se preocupe. Essa prática é recorrente, aqui.

Que felicidade! Fez planos, criou expectativas com o aumento, colocou algumas coisas na ponta do lápis. Enfim, reconhecimento. Mas, quando veio a demissão, algo se demonstrou errado dentro do seu coração. Foi ficando com medo. Foi achando estranha a ausência de detalhes na comunicação, a ausência de documentos que pudessem comprovar uma proposta realizada, apenas, verbalmente. Contudo, nada poderia, de fato, fazer. Conversar? Conversou! Incertezas começaram a apontar no novo discurso.
– Está tudo preparado. Dependemos de uma autorização. Fique no aguardo.

A demissão aconteceu. Todo aquele processo de rescisão, exame demissional, FGTS, documentação, seguro desemprego foi apagando o seu brilho. Buscou informação? Buscou! Recebeu as mesmas respostas vagas de sempre. Entendeu que a tal autorização não viria, a tal promoção não aconteceria. Sabia do seu valor mas não deixava de doer a tentativa de lhe reduzirem a nada, a alguém que não teria direito, ao menos, à verdade. Foi enganada. Foi seguindo adiante, na luta por refazer sua vida financeira.

Semanas após, recebeu a intervenção de uma pessoa amiga (uma, graças a Deus, dentre tantas amizades que fez mas que não se pronunciaram). Soube, por debaixo dos panos, que a antiga chefia (aquela que o santo não batia) havia retornado, ao setor, com gostinho de vingança. Fez sua caveira, disse que não produzia, que não trabalhava. “Mas, como, meu Deus? Todos viram os resultados! Está tudo lá, nos relatórios!”, pensou. Mas ninguém lhe defendeu. Ninguém.

Foi sofrendo que entendeu o ponto de vista de algumas pessoas que conhecia há muito tempo mas, na verdade, mesmo, conhecia era nada. O mais importante, para alguns perfis, não é executar um trabalho bom e ético. Às vezes, o mais importante é ter influência. Chorou. Sofreu. Por dentro, tudo se revirou. Mas continuou a procurar novos clientes e horizontes.

Um novo olhar para o que se repete

Tenho pensado nos ciclos que se repetem. Por vezes, me canso deles. Cansaço poderia ser um dos piores sentimentos que me abatem, porque ele me faz desistir. Eu demoro a cansar mas, quando canso, falta pouco, muito pouco, para jogar a tolha, chutar o pau da barraca, me abandonar. Existe coisa pior do que se abandonar? Somos o que escolhemos, somos nossa única e real companhia. Somos responsáveis por nós mesmos. Estes são os reais motivos para que não faça sentido algum se abandonar. Significa que somos responsáveis por tudo o que sentimos, tudo o que pensamos. E como diria Carlos Torres Pastorino, em uma citação de uma mensagem que recebi da minha professora de Português no auge dos meus onze anos de idade: “Tudo nasce do pensamento”.

Pensar nos ciclos que se repetem me faz lembrar que, ainda, não aprendi algo de importante que a vida está tentando dizer. Ontem, mesmo, enquanto conversava com uma amiga no ônibus, sentada nas escadas da porta, que não era a de desembarque, e olhando os lugares passarem rápido, fui me dando conta de relações que não quero mas tolero, sei lá por quê. Poderia ser medo de romper? Poderia ser medo de me sentir só? Poderia. Mas o que me faz pensar que viver só é pior do que viver sofrendo com atitudes de pessoas que não posso mudar? Eu olhei pra o vidro daquela porta, o vento batendo nos meus cabelos, e disse: “devo estar me despedindo das relações tóxicas”. Por alguma razão, esta cena me marcou, assim como a frase de Pastorino a qual, jamais, esqueci. Porque romper, nem sempre, precisa acontecer com palavras. Pode ser gradativo, pode ser um desviar de atenção. Pode ser uma atitude de viver outras coisas. Pode ser o respeito pelo tempo de cada um. E estar só pode não ser ficar consigo buscando equilíbrio para uma nova fase que se deseja ou que se aproxima.

O cansaço, às vezes, pode dizer que é preciso tentar de novo e de uma forma diferente das outras. O cansaço e a tristeza podem chamar para um reflexão mais profunda que não poderia arrumar espaço para surgir enquanto as mudanças ocorrem. Este é o momento em que você cresce enquanto nada ocorre. Este é o momento em que você toma decisões que vêm se arrastando por anos em meio à falta de coragem. Este é o momento em que você decide o que é melhor pra você. É em meio ao meu cansaço e à minha tristeza que digo: há algo que, ainda, não aprendi. Pode ser algo que eu sei há muito tempo mas, ainda, não aprendi. Porque aprender é fazer, seja lá de que jeito for. Não saberemos até fazer.

É em meio ao meu cansaço e à minha tristeza que venho caçando a coragem para não desistir de mim. E olhando por outro ângulo: que bom que as repetições ocorrem. Significa obter uma nova oportunidade. Aquela que, somente, cabe a nós aproveitar porque, somente, nós detemos o poder de modificar nossos pensamentos.

Tá tudo bem

Paulista, 17 de abril de 2018

Querido Deus,

Lembro-me bem de ver meu priminho de seis anos de idade brincando de cortar e empilhar papéis, em cima de uma mesa que há no quintal da minha casa, achando que era um ajudante Seu. Ele inventou que o Senhor o havia pedido para produzir bolsas para uma grande festa no céu. Vez ou outra, ouço, sempre, ele falando de Ti com a maior naturalidade, como se pudesse, constantemente, se comunicar. Recorre-me, agora, que o nome disso é intimidade. Passo a perguntar-me como vai a minha intimidade Contigo diante de tudo o que estou passando, neste momento.

O que sei é que tento ser forte e, por vezes, saio de mim. Ao voltar, não sei dizer por onde estive, durante tanto tempo. O sofrimento é assim: vem de mansinho, vai desestruturando cada haste pregada com esforço até que toda a atenção é doada a segurar o que sobrou. Não conseguimos perceber que mudanças foram se instalando enquanto estávamos fora de nós. Não conseguimos ver quanto tempo passou entre o tempo em que estava tudo bem até o tempo em que muito se foi perdido.

Perder-se, já analisei, é sinal de que algo, ainda, não foi encontrado no interior. Algo não foi compreendido, aprendido, introjetado de maneira que nos torne uma pessoa melhor. Quem quer ser melhor não olha cada sofrimento que vem da mesma forma. Uma coisa é a cabeça que sabe de tudo isso de cor e salteado. Uma coisa é lembrar disso a cada vez que a roda gigante pega o impulso e volta a subir. Outra coisa é resistir, segurar a casa enquanto a onda passa e leva o que tem de levar, mesmo que doa. A gente fica sem garantias para acreditar, mas escolhe acreditar, mesmo assim, porque sei lá…

Dizer que amo a Ti no meio da dor, já experimentei, é uma sensação que me faz chorar descarregando todo o peso que venho acumulando, sem querer. Querer estar diante de Deus e não saber o que dizer, mas lembrar que escolheu seguir Seus passos, escolheu fazer o bem, querer o bem é, mesmo, libertador. Sinto como se o Senhor reforçasse cada pingo de amor que possa ter sobrevivido, depois de tantos sentimentos devastadores. Às vezes, a gente precisa parar… pra enxergar os outros pontos. Às vezes, a gente precisa começar a andar, se mexer, fazer ou escrever sem rumo para, no meio do caminho, lembrar do que é mais importante: querer o bem, querer se livrar do que não faz bem.

O mais importante é ter amor, dar amor, agradecer. A gente não precisa, mesmo, mostrar que a gente consegue pra ninguém. Ainda que tudo esteja desabando, se a gente sabe que sente amor e se permite seguir com ele, fica tudo bem. A gente chora e diz: tá tudo bem. Porque tá, mesmo.

Com amor,

Sua filha.

Mas acontece que você é forte

Clara, somente eu sei, com exatidão, as dificuldades pelas quais estás passando. Reconheço e respeito a tua luta por se manter bem. Apesar de um pouco perdida, tens certeza de que o caminho de volta, o caminho de ida, o caminho de saída acontece de dentro para fora. Estás tentando se encontrar e eu estou do teu lado. Percebo que existe uma luta para que tudo não seja tão racional. O mundo é acelerado e racional. A racionalidade, às vezes, nos ajuda a fugir dos nossos sentimentos. Sentimento nem sempre tem explicação.

A gente não escolhe a hora em que vai sentir, Clara. A gente sente e pronto. A gente não sabe se vai se machucar. A gente arrisca e pronto. Eu sei, você não gosta que eu fale assim, você tem consciência sobre o que está acontecendo, mas não sabe onde girar a chave. Por mais uma vez, você sente que está mecanizando todo e qualquer movimento com medo de sofrer. Você quer fazer diferente, você quer aprender a se proteger das dores do mundo, você quer ser seu próprio suporte. Sem perceber, na verdade, você está se preparando para uma nova dor (e não vivendo de verdade). Já doeu tanto e por tantas vezes, inesperadamente, que você tem medo de que doa de novo. Você quer criar resistência, você quer ser madura e forte.

Mas, Clara, és forte. Uma das pessoas mais fortes que eu conheço. Resistente à dor e corajosa o suficiente para pedir ajuda e para encarar a dor e os próprios defeitos de frente, a fim de consertá-los. Não posso deixar que carregues, consigo, um ideal de perfeição, por mais forte que isso seja, em ti, a ponto de não enxergares. De tanto mecanizarmos nossas vivências a fim de ficar bem, podemos acabar por não sentir o que, realmente, importa. Então, te perdoes… Planta um pouquinho de um lado e deixa a vida fluir do outro. Receba o que vier e enfrente como puder. Aceite-se. Está tudo bem e tudo bem seja lá o que acontecer.

Encontrarás o equilíbrio, Clara.

Do eu para o ego.