Que seja amor

Ontem, sonhei com o perdão que eu ia te dar
Abri a porta e te vi tão compenetrado
Esperei ver teu olhar, teu rosto
Depois, eu me perguntei o por quê
O medo é aquilo que não nos deixa mostrar

Naquela sala, senti pressão e exclusão
Lembro esperar o momento de ser ouvida
Quis despejar o erro alheio
Eu quis culpar alguém da minha dor
A mágoa é aquilo que se volta para nós

Por isso, a gente sente aquilo que emana
A gente perde o equilíbrio com a dor
A gente perde a noção de quem a gente é
Quando mergulha em emoções ruins

Por isso, devemos ser protagonistas
Devemos tomar responsabilidade
Devemos ter o poder de nos consertar

O amor é o fluxo
Ele está dentro de nós
O amor é o caminho
Procuremos até encontrar!

O amor deve ser o reflexo das nossas ações
O amor é o lugar onde não existe medo
E, onde há medo, não há amor
Um deles precisa vencer
A gente age conforme o que sente
Que seja amor nossa forma de ser

Menina, o que há com você?

(Na realidade, me antecipo a dizer que a menina pode tudo. Mas há quem se fira com suas atitudes intencionais)

Você tem uma raiva gratuita e espontânea de qualquer garota que ameace seu posto de ser o centro das atenções. Você se insinua pra tudo quanto é homem e não perde a chance de se envolver com eles para conseguir o que quer. Você não se importa com a ética em ambientes de estudo ou trabalho. Você não se esforça para se dedicar, ao menos, a uma única coisa, em sua vida, e acha que pode findar seus dias bebendo, dançando, fumando, vestindo roupas provocantes e passando a perna nas pessoas. Menina, o que há com você?

Será que, para se sentir alguém, você precisa criar rivais? Será que você não consegue viver sem os olhos das pessoas sobre você? Por que você quer ou precisa tanto desses olhares? Será que é porque a sua autoestima não está ok? Você luta para obter a atenção das pessoas e se sente ameaçada quando isso não acontece. Você recorre a bens que te anestesiam e se passa por uma pessoa engraçada que nunca vai ter juízo, que nunca vai tomar um rumo, que sempre vai precisar de ajuda para poder se aproximar dos outros. Na verdade, você é extremamente carente, tem a autoestima extremamente baixa, nunca sentiu amor próprio e nunca teve coragem de mostrar quem você, realmente, é.

O que você ganha com isso, garota? Qual é a graça de achar que a solução dos seus problemas está em fatores externos? Por que será que você não consegue olhar pra dentro? Qual é a sua real necessidade quando se insinua para pessoas do sexo oposto e faz sexo com elas sem nunca ter sentido o amor? Que medo é esse de se entregar? Que medo é esse de encontrar o seu lugar? Agora, mesmo, você está seduzindo e se envolvendo com o seu superior. Ele está perdido no sofrimento e você o leva para bares e festas com as quais ele não se identifica, mas ele vai porque ele é muito mais velho do que você e tem um complexo gerado por uma juventude que não viveu. Ele está encantado com o seu frescor, com a sua juventude, com a sua loucura. Na verdade, ele acha que estar perto de você e acompanhar suas inconsequências pode ser a única escolha empolgante, já que ele luta para se sentir confiante e não consegue. Ele não consegue enfrentar a si, ele não sabe porquê está com você e você não sabe porquê está com ele.

O que te faz sentir uma pessoa melhor em se aproveitar de uma pessoa que está frágil, emocionalmente? Qual é a graça de fazer tantos movimentos para sua vida sexual sem algo de verdadeiro? O que de bom há em machucar o coração da mulher que, realmente, ama esse cara? Não quero tirar a responsabilidade dele da história. Mas seria bom que o seu senso de autorresponsabilidade acordasse desse sono profundo. Menina, você é jovem, bonita, inteligente, tem uma vida pela frente te esperando. Uma vida maior do que esse círculo vicioso onde você se meteu. A vida pode ser melhor do que isso. Seja lá qual for a dor que você esconde, descubra-a, enfrente-a. Descubra quem você é e o que realmente quer. Então, terá paz. Acredite, magoar os outros, causar intrigas, competições, viver relações vazias não contribui para que te tornes a melhor versão de si. Não atrai para ti um olhar verdadeiro e profundo, não te faz ser amada.

Menina, aprende a se respeitar, aprende a se amar. Se conseguires, entenderás o quanto é importante ter respeito pelos outros, aproximar-se dos outros por quem você é. Sei que estás cansada de fazer este papel. Sei que pode ser doloroso não descansar no seu próprio eu. Então desista disso. Desista de se alimentar do que os outros pensam e falam, desista de montar um personagem para obter a atenção e o cuidado deles. Cuide-se, cresça, amadureça, tome as rédeas de sua vida. Menina, pare de magoar as pessoas, gratuitamente, apanha a tua dignidade do chão ou as pessoas nunca deixarão de sentir pena de ti.

Continua sendo Deus

Se Deus fizer, Ele é Deus. Se não fizer, Ele é Deus. Se a porta abrir, Ele é Deus. Mas se fechar, continua sendo Deus.

Ela cantava enquanto os maqueiros a levavam para a sala de cirurgia. Olhava para o teto, via o passar das lâmpadas, sentia o momento que mais temia se aproximar, mas cantava. Como se fosse a última vez, como se fosse a última chance. A voz tremia, as lágrimas caíam e molhavam o lençol.
– Ela canta, é?, perguntou um dos maqueiros.
Rapidamente, a mãe dela se aproxima, chorando, e responde:
– Sim, ela é cantora.
Pensou no quanto era deprimente precisar chegar a uma situação de risco para ver a mãe admitindo a profissão que ela havia escolhido para si. Mas pensou também que, se mesmo com a voz trêmula, alguém desconfiou de que ela cantava, é porque ela cantava, mesmo. Pensou no quanto era deprimente vestir uma bata verde como aquela e envolver seus cabelos e pés com aquelas touquinhas. Pela primeira vez, também, havia depilado tudo o que chamava de “checa” porque ia ficar pelada na frente de um monte de gente.

Se a doença vier, Ele é Deus. Se curado for, Ele é Deus. Se tudo der certo, Ele é Deus. Mas se não der…

Não conseguia continuar a música. Tinha medo de que não desse certo. Lembrou de todos aqueles meses de sofrimento, de todos os pressentimentos de que algo de inusitado a poderia levar daqui. Mas, também, lembrou das orações, dos pedidos, da fé. Pedia perdão a Deus porque o medo a estava vencendo.
– Será que ela está tendo reação a algum medicamento, doutora?, pergunta a enfermeira.
Com entonação confiante, como quem sabe que tudo vai dar certo, a anestesista responde:
– Nada, ela nem entrou, ainda. Isso é medo.
– É sua primeira cirurgia?, pergunta a enfermeira segurando a maca.
– Sim, responde ela bem baixinho.
Imediatamente, a enfermeira enxuga suas lágrimas e acaricia seu rosto.
– Não te preocupes. Vai dar tudo certo.
Ela sabia que aquele era o primeiro sinal do cuidado pedido a Deus. Na sala, a agressão de precisar ser despida e anestesiada foi amenizada pelo carinho daquela equipe, que era profissional. Ao sinal avisado a respeito da primeira dose de anestesia, fecha os olhos e, antes de prender a respiração e ficar imóvel para levar a picada, termina a música.

Continua sendo Deus.

Somente, ali, conseguiu fazer o que ansiou por tantos meses: entregar. A hora havia chegado e ela pediu para não ver, não ouvir, não saber. Muito se fala sobre essa coisa de entregar situações, entregar pessoas, entregar sentimentos a um poder ou uma força maior. Ela sabia o que era aquilo, ela havia vivido experiências de entrega, ela lembrava do sentimento. Mas parecia muito difícil voltar àquele estado de confiança diante de um medo diferente. No entanto, era o que ela mais queria. Conseguiu. Tanto pediu que alcançou. Agora, sim, estava tudo nas mãos de Deus. Nada mais poderia ser feito.

Um breve instante e percebeu uma cortina azul em sua frente. Vozes distantes de enfermeiros e médicos pareciam falar sobre séries e filmes americanos. “Está acontecendo e eu estou acordada”, pensou.
– Por favor, eu quero dormir, disse em voz alta.
– Ela quer dormir, doutora, diz uma enfermeira em tom cômico.
Em poucos minutos, seu médico se aproxima.
– Tá tudo bem, só faltam os pontos. Vai poder ter quantos meninos quiser. E sai da sala.
Ela ri de nervoso. Percebe que, na verdade, estava acordando de um sono de cerca de uma hora. Conversa com os enfermeiros. Olha aquilo que saiu de dentro dela. Sente alívio. Parece que a saúde está a salvo. Parece que vai ficar. Parece que Deus ouviu e atendeu. “Como fui tola de sofrer e duvidar”, pensava.

Ao ser retirada da sala, vê sua mãe chorando e repetindo: “Jesus te ama”. A caminho da sala de observação, tenta refletir sobre essa coisa de entregar. Parece que entregar é dar o seu melhor e esperar que a melhor escolha será pautada para o seu destino, seja ela qual for. Seja o que for, entregar é aproveitar a vida, o tempo, o que pode ser feito sem esperas desnecessárias, sem gastos energéticos desnecessários. No entanto, toda experiência, ainda que sofrida, solidifica um aprendizado. Então, vale a pena.

Agora, ela gostaria de fazer tudo o que sentiu falta de ter feito quando achou que não haveria mais tempo. Sabia que não deixaria de ter medo. Mas sabia também que, como diz a letra da música: “haja o que houver, sempre será Deus”.

*Deus é Deus é uma música de Delino Marçal.