Ter um sonho todo azul

Quem tem um timbre de voz diferenciado e marcante deve ser grato pelo resto da vida e não deixar passar a chance de utilizar esse dom. Imagina alguém escutar a sua voz, independente do momento, ou de ruídos ocasionais, ou de qualquer melodia desconhecida, e reconhecer você. É sublime. É uma bênção. A voz é um instrumento poderoso capaz de transformar lugares, no interior do ser, inimagináveis. Tim Maia tinha esse dom. E lutou por ele com garra invejável. Ele se foi mas a voz dele continua, inegavelmente reconhecida, na mente das pessoas onde quer que ele seja ouvido. Sua obra é seu legado. Ele se foi e eu era criança mas ouvi Tim Maia minha vida inteira e ouço, ainda, porque adoro.

A música Azul da cor do mar, composição dele lançada em 1970, é uma de minhas prediletas. Ela fica num grupo especial de outras músicas que me ensinam a olhar para a vida de uma maneira mais reflexiva e sábia. Era dom, também, a maneira que ele tinha de falar sobre a vida e ele o aproveitou muito bem. Azul da cor do mar me leva a um lugar de resignação. Muitas vezes, confundi resignação com derrota. Nada disso: resignação é uma postura sábia de gente que não perde a esperança de que o futuro pode ser diferente sem perder, também, a aceitação sobre o momento presente. E aceitar, minha gente, é abraçar tudo o que, hoje, é, do jeito que é, sem tentar modificar forçando soluções que podem gerar novos problemas. Aceitar o presente é tomá-lo como um ponto de partida, é entender que, em tudo, existe uma oportunidade de sermos melhores.

Ao aceitar o presente podemos pretender o futuro e é assim que nossos sonhos se tornam reais: liberamos a carga de insatisfação ao aceitar e abrimos espaço para focar na realidade que queremos. Por isso, é importante sonhar. Nós somos o que sonhamos, somos seres puramente subjetivos, feitos de energia. Nós precisamos sonhar. Ao sonhar, estamos co-criando uma nova realidade para as nossas vidas.

Fiz um cover de Azul da cor do mar (a long time ago). Assistam a seguir =*

 

Na luz e no resgate do sambão que nunca morre

É um som bem acabado, arranjos bem produzidos dando uma cara mais atual a clássicos incansáveis de se ouvir. Primeiro, ficamos atentos a isso. Depois, uma voz aveludada que já conhecemos do Pop e da MPB, com-ple-ta-men-te, confortável no samba. E uma bela surpresa em parte considerável das nove faixas: agudos seguros e encorpados. Som de qualidade, sabe? Ela chega lá e “pá”: manda o recado do jeito que tem que ser.

Ao falarmos “do jeito que tem que ser” podemos nos referir, também, à intencionalidade da interpretação. Quando você começar a prestar a atenção na mensagem que uma música cantada diz transpondo as sensações da melodia e do ritmo e alcançando significado nas emoções traduzidas ali, grave o nome do intérprete (sim, porque é esse o nome do profissional/artista que leva este significado até você). E ela tem isso. Ela é uma danada. Surpreendente. Talentosa. Dona do palco, dona do discurso. Já viu ela cantando ao vivo? Nenhuma de suas performances nega seu estudo e seus mais de trinta anos de vivência com a arte e a Música.

Precisamos falar de Na luz do samba, um CD da cantora Luciana Mello que foi lançado em 2016 em homenagem ao seu pai, Jair Rodrigues que, segundo ela, passou muito tempo insistindo para que a filha gravasse um disco só de “sambões”. Pronto, não precisamos de mais nenhum motivo para nos emocionar, apesar de o trabalho ser, extremamente, alegre e viciante. Para entrar na atmosfera de um CD, é preciso chegar à terceira escuta e ir além dela.

Luciana, que também é compositora, fez a escolha de ser somente intérprete neste CD e escolheu tão assertivamente! Reuniu um time de peso nas regravações incluindo nomes como Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e Jair Rodrigues. Ah, o Jairzinho! Não é difícil se encantar com a delicadeza e a sensibilidade das músicas dele. A faixa de abertura do álbum, mesmo, Estrela sorridente, foi feita para o pai. É bonito sentir o contágio dos sentimentos dele ao ouvir a música. Tão leve e tão linda quanto o amor de um filho que admira um pai. Mas, ainda, não é esta a faixa que fica grudada nas sensações. Há quatro que podemos destacar. Duas delas falam de empoderamento feminino: Brasileira guerreira e Na correria. São discursos de mulheres que lutam por seus objetivos mesmo diante das dificuldades com uma lúcida consciência do seu papel e do que representam, especialmente, para si. Um embalo maravilhoso de autoestima e amor próprio. Já Clementina é uma homenagem a uma grande mulher. Tem um agudão poderoso que a Luciana dá, nessa música, sem piedade. Coisa linda de se ouvir! Sabe quando você fica pensando: quero ver se ela consegue, agora, aí a pessoa vai e consegue pisando sem sacrifício? É, mesmo, assim. E Roda de Baiana traz a participação de Nina Levy, a filha de Luciana que, na época, tinha seis anos de idade. Dá pra lembrar de leve que a música é super alto astral, faz umas referências à escola de samba Mangueira e tal mas o que fica mesmo tocando no juízo é a vozinha da Nina, gente! Que coisa mais fofa de linda e afinada! E quando a Luciana diz: muito obrigada, minha filha, no final da gravação, dá uma vontade de chorar. Sabemos que a Luciana é filha e irmã de dois talentosíssimos músicos, assim como ela, também, é. Nina é a terceira geração desse talento todo. É emocionante, sim.

O disco, ainda, tem a participação de outro ícone da Música Popular Brasileira: a Marrom (a mestra Alcione, diva, poderosa, abriu a boca sai voz pra dar e vender). Um trabalho refinado, bem produzido, bem feito na melhor das redundâncias. Dá vontade de ouvir por mais umas três vezes sem cansar, ou por mais umas dez até cantar tudo junto. Uma boa pedida pra quem gosta de samba, pra quem reuniu as amizades pro churrasco, pro almoço, pra papear e se divertir. Vale a pena ouvir, sim.


Não somos o que queríamos ser

Não somos o que queríamos ser. Somos um breve pulsar em um silêncio antigo com a idade do céu. 
(Paulinho Moska)

Já viu letra mais linda que essa? Já viu reflexão mais assertiva sobre a existência humana? Quem somos, afinal? Quem somos diante da grandeza de todo o universo? Quem somos para interferir ou pensar que obtém o controle sobre o seu funcionamento? Eu sempre viajei na letra de Idade do céu. Música linda, lançada em 2003. Composição de Jorge Drexler com versão em português de Paulinho Moska. Eu queria tê-la cantado em espanhol, também, mas a versão em português toca tão fundo quanto.  Como o Moska é sensível, né? Não é de hoje que venho observando as composições dele. Melodias encantadoras, letras cheias de sentimentos. Algumas me marcaram no coração como Pensando em você, Tudo novo de novo e Meu nome é saudade de você.

Mas voltando a Idade do céu, sabe que eu não sei quando essa música entrou e ficou na minha cabeça? Eu tenho uma lembrança muito viva da Simone cantando-a com a Zélia. Um dueto liiiindo e ouvir me trazia muita paz. A voz doce da Simone e a mensagem da música foram a fórmula certeira para que eu repetisse essa música no Youtube um zilhão de vezes  para ouvir. Que mensagem, bicho! Quem somos nós, minha gente? Quem é você? Do que você dá conta? Você é parte. Para quê se aperrear? É tão simples mas é tão rico. Encaramos a vida com outro olhar a partir do momento em que decidimos cuidar do que está sob o nosso controle e reconhecer o que não está. Ao reconhecer, dimensionar a questão e relaxar quando nada se pode fazer a respeito. Felicidade é, também, o que a gente aprende a poupar, a diluir, a desatentar. Felicidade é, também, abrir espaço. Deixar de focar energia  em causas desnecessárias e usar essa mesma força para causas que interessam, que contribuem, que transformam.

Fiquei feliz quando meu amigo Alisson Fernando propôs essa música pra a gente fazer no canal. Outro TBT das antigas pelo qual tenho muito carinho. Assista :*

Minha história com Brigas nunca mais

Brigas nunca mais  é uma música de 1959. Foi lançada no lendário álbum Chega de saudade, um marco na história da Música Popular Brasileira pois trazia ao público a primeira apreciação do movimento Bossa Nova quando sua ilustre tríade, representada por Tonzinho (Tom Jobim), João Gilberto e o Poetinha (Vinicius de Moraes), se juntou para apresentar os primeiros resultados daquela parceria. Nossa, como eu amo o Vinicius! Tudo começou quando decidi montar um projeto com as músicas que ele letrou no ano de seu centenário. Fui até a biblioteca pública da cidade mais próxima e arranjei a biografia dele para ler. Devorei aquele livro, de nome Vinicius de Moraes: O poeta da paixão: Uma biografia, de José Castello. Após cinco anos daquela leitura, ainda, lembro de tantas passagens, tantos sentimentos ao entrar em contato com aquelas histórias, tanta vontade de ter sentido os ares da Bossa Nova, a época em que Vinicius vivia… Eu me apaixonei pelo jeito errante e romântico dele, pelos poemas, pela maravilhosa maneira de escrever as letras daquelas músicas, beirando à perfeição em algumas e, em outras, sendo, honestamente, perfeito! A prosódia, completamente, condizente com as melodias. Vinicius é um amor e um ideal na Literatura e na Música, para mim. Sempre, será. Penso nele, ouço a obra dele e, sempre, me emociono. Consequentemente, e por tabela, amei e amo os parceiros de composição dele. Certamente, ao ler suas biografias, o amor só aumentará, também. Esse povo, inegavelmente, fez história.

Pois bem, ao entrar em contato com as primeiras pesquisas da disciplina de Canto Popular, no curso técnico do Conservatório de Música, eu sabia que deveria cantar Bossa Nova. Trouxe Vinicius e Tom comigo. Eu, tão verde, nunca havia pisado em um palco de verdade pra cantar. Havia cantado em salas, mesmo quando cantei em eventos, eram grandes salas. O Conservatório tem um auditório que imita um teatro, tem um palquinho com direito a escadas pra alcançar. Foi neste dia que tomei a decisão de nunca mais cantar de salto. Minhas pernas tremiam e parecia que havia um grande parafuso em cada salto pois não saíram do mesmo lugar durante as quatro músicas que cantei. E Brigas nunca mais estava entre elas. Uma música fofa, sabe? Que transmite a sensação de um amor leve, com briguinhas à toa, e doces reconciliações. Chega a ser um pouco cômica a forma de se falar de amor, nela mas, sem dúvida, uma forma linda onde o mesmo amor se demonstra forte e inabalável às tempestades.

Tempos depois, durante o curso de Violão Popular em outro Centro Musical, sugeri ao meu professor tocá-la na audição de alunos. Aí pude cantar e me acompanhar tocando. Pense numa coisa gostosa! O violão me dava uma sensação de segurança, o gosto pela música me fazia ter vontade de dar o meu melhor. Não que eu seja uma Brastemp, mas pense num sentido que esse fazer me traz! Foi com Brigas nunca mais que me estreei tocando e cantando no canal. Postei e saí correndo. Não divulguei em canto nenhum até a escrita deste post que levará o vídeo em anexo. Quando gravado, era pós São João mas, no Nordeste, vocês sabem, o São João só acaba quando chega agosto. Então, havia som nas alturas na casa dos vizinhos, menino estourando os fogos que sobraram da noite de festas, etc. Eu estava criando coragem para gravar. Gravei e postei como uma maneira de dizer pra mim que faz sentido começar, mesmo que não esteja perfeito, mesmo com vergonha. Deixei a sonoplastia dos fogos sobreviverem ao vídeo pois quando eu poderia imaginar que depois que eu cantasse a palavra “chegou” haveria uns fogos, estourando? Foi como uma sonoplastia contratada: “olha, quando eu cantar que a moça chegou, solta uns fogos aí, beleza?”.

Gosto desse vídeo. Após ele, não voltei a gravar (kkkk). Mas vou voltar porque sei que o sentido é a trajetória e não o resultado. O sentido é aquilo que a gente sente enquanto faz o que se ama e como nos projetamos para superar os desafios que surgem, no caminho. Aí foi a minha história com Brigas nunca mais. Aí vai meu cover dessa música para vocês assistirem :*


Vou cantar, você vem?

E aí, migos? Eu vou dar um recital. Vai ser a conclusão do meu curso técnico em Canto Popular. Penso em escrever sobre tudo o que isso envolve, mas pra agora, basta dizer que é um evento aberto ao público, com entrada franca, que vai acontecer no Auditório/Estúdio Cussy de Almeida do Conservatório Pernambucano de Música na próxima segunda (10), às 19h30.

Vai rolar um repertório bacana com Bossa Nova, MPB, música regional, internacional e uma autoralzinha. Reuní um time fantástico de músicos extraordinários (Kyara Muniz – voz / Flávia Spencer – voz / Gabriel Sena – clarinete / Roberto Silva – saxofone alto / Raphael Lima – violão / Flávio Vieira – guitarra / Leonardo Felisberto – piano e teclado / Filipe de Lima – contrabaixo elétrico / Silva Barros – bateria / Diôgo Monte – percussão) que estão me ajudando a preparar esse momento. Venha ver!

Arte: André Levy / Foto: Laís Xavier

Vou deixar algumas informações sobre minha breve carreira de cantora: 

Maria Clara – É cantora e compositora pernambucana natural de Paulista, Região Metropolitana do Recife. Seus primeiros contatos com a música aconteceram muito cedo por intermédio do seu pai que era músico autodidata. Aos 12 anos, compôs sua primeira música e nunca mais parou. Seu repertório passeia por gêneros como MPB, Samba, Reggae, Bossa Nova, músicas regionais e internacionais. É graduada em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), estudante de Violão Popular do Centro de Educação Musical de Olinda (CEMO) e integrante do Vocal 4 por 4, sob a direção musical do professor Ivan Ferreira. Ao conciliar as duas profissões, atua, ainda, como assessora de imprensa para diversos artistas locais e é autora do blog jornalístico e literário Fuá de Clara.

Serviço:
O quê? Recital de Conclusão – Curso Técnico em Canto Popular – Maria Clara
Quando? 10 de dezembro, às 19h30
Onde? Auditório/Estúdio Cussy de Almeira / Conservatório Pernambucano de Música (Avenida João de Barros, 594, Santo Amaro, Recife)
Quanto custa? Entrada franca

Todo sonho novo é madrugada

O músico, cantor e compositor paulista radicado em Recife, Fernando Torres, lançou, no último dia 20 de julho, sua mais nova música autoral. Composta em parceria com o músico Rodrigo Carneiro, baixista da banda Palhaço Paranoide, “Todo sonho novo é madrugada” é uma canção com influências de vários nomes da MPB, a exemplo de Boca Livre, Milton Nascimento e Oswaldo Montenegro. “A inspiração vem de um caldeirão musical de trabalhos que acompanho há muito tempo. Sou fã da musicalidade dos compositores de Minas Gerais, desde o Clube da Esquina e tenho muita admiração por outros músicos como o João Alexandre e a dupla Sá e Guarabira”, conta o compositor.

Amigos de longa data, Fernando e Rodrigo compuseram “Todo sonho novo é madrugada” em uma parceria respectiva de música e letra. A dupla, agora, repete a dose em mais uma bela composição. A música foi gravada em um formato acústico, tendência atual do compositor, e contou com o talento do pianista Kelsen Gomes e do violonista Rodrigo Leite.

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Kelsen Gomes, Fernando Torres e Rodrigo Leite em momento de descontração durante as gravações

Presente em publicações de diferentes plataformas digitais (Facebook, Instagram, Youtube) o clipe de “Todo sonho novo é madrugada” obteve 15.820 visualizações com uma semana de lançamento. Atualmente, o vídeo soma 17.159 vews e vem atraindo mais admiradores. Confira o clipe da música:

FERNANDO TORRES – Doutorando em Musicologia/Etnomusicologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), é mestre em Musicologia/Etnomusicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Música da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Atualmente é professor efetivo do Centro de Educação Musical de Olinda (CEMO). Como pesquisador, escreveu o livro Bossa Nova fora do eixo: Uma história da Bossa Nova na capital pernambucana, lançado em 2015. No ano seguinte, apresentou, juntamente a Daniel Vilela, o trabalho Bossa Nova e Jequibau no XII Congresso da Asociación Internacional para el estudio de la música popular, rama América Latina em Havana, Cuba.

Como cantor e compositor participou de grandes festivais de música, em todo o país, sendo premiado em alguns deles, como o Festival Nacional de Música. Dividiu palco com artistas como Oswaldo Montenegro e Guilherme Arantes. Participou do espetáculo O Baile do Menino Deus por três anos consecutivos. Gravou um DVD ao vivo, com composições autorais, no SESC de Casa Amarela, no Recife, em 2007 e possui um CD com composições autorais gravado em meados de 2004. Fez shows nos carnavais do Recife nos anos 2000 por três anos consecutivos. Participou do projeto “Música é Vida!” em parceria com o Conservatório Pernambucano de Música e a Secretaria Estadual de Saúde, levando música aos pacientes dos hospitais públicos do Estado de Pernambuco. Fernando soma quatorze anos de música.

Fernando Torres nas redes sociais:
Instagram: @fernando.h.torres
Youtube: https://bit.ly/2uKDXDF
Deezer: https://bit.ly/2JOkYg3
Spotify: https://spoti.fi/2mBZI48

Ouça a entrevista que fiz com os compositores:

Veja a entrevista que eu fiz com os compositores: