Não tínhamos carnavais

Nenhuma lembrança específica de como eram nossos carnavais. Eles meio que não existiam. O que existia era um grande feriado, onde fazíamos questão de varar a noite assistindo os desfiles de escolas de samba. Comíamos churrasco, dançávamos no meio da sala. Eu era tímida, mas você me fazia rir. Barbeava metade do rosto e deixava a outra metade barbuda e vinha para o meio da sala mostrar o modelito. Ríamos muito. Eu, meu irmão e minhas primas. Todos crianças.

Quem sabe, em outras casas, não fosse natural ter música ao vivo. Aqui, era esse o nosso cotidiano de feriados e fins de semana. Você montava o som, o teclado, os microfones e passava o dia tocando e cantando. Você me ensinou a gostar de fazer música… Eu tenho orgulho de ter me saído a você.

Não tínhamos carnavais. Tínhamos momentos de continuarmos juntos, em família. Após a tua ida, não tinha mais graça ficar em casa no carnaval. Em alguns, viajamos, em outros, eu trabalhei. Saí três anos seguidos seguindo uma orquestra de frevo. A cada dois pulos, um flash. Nem lembro o quanto foi cansativo porque a alegria da experiência é bem mais marcante. Sabe o que foi difícil? Saber como voltar pra casa tarde da noite. Medo de contratar um carro com motorista desconhecido. Medo de voltar de ônibus. Medo que meus amigos não pudessem me ajudar com isso. Eu lembrava, sempre, que, antes, em qualquer lugar que eu estivesse, se eu estivesse precisando, tinha você pra me buscar. Era estranho não poder pegar o celular e te ligar.

É… nenhum carnaval foi o mesmo sem você, meu pai.

Obrigada, painho

Paulista, 14 de março de 2017

Hoje, é o aniversário da pessoa mais importante da minha vida, a melhor pessoa que já conheci. Não posso mais vê-lo. Não posso mais ouvi-lo. Não tenho como parabenizá-lo. Há nove aniversários, vivo a dicotomia de querer celebrar a sua vida, de onde provém a minha, e não poder abraçá-lo. Há nove aniversários o meu corpo sente o buraco da parte de mim que se foi junto com ele e adoece. Para manter viva a nossa conexão, me mantenho próxima do que mais me aproximava dele. Então, eu escrevo e canto. Em segundo lugar, porque são duas das principais necessidades da minha existência. Em primeiro, porque preciso me lembrar de quem eu sou: eu sou filha de Ricardo. Albuquerque é o meu sobrenome. Obrigada painho.

O tanto de amor que me salva deste mundo

Paulista, 14 de março de 2015

Hoje, eu acordaria cedo (como, de fato, acordei) e tentaria preparar um café da manhã, enquanto você dorme. Quem sabe, eu teria comprado um presente que fosse te agradar (alguma coisa relacionada à Música, certamente) e te entregaria com uma das infindáveis cartas que, sempre, tive o costume de te escrever. Eu poderia, até, tocar alguma coisa pra ti e cantar… como, sempre, cantávamos. Você choraria (como, sempre, chorou com minhas declarações ahahah) me abraçaria forte, me agradeceria e diria, incansavelmente, por muitas e muitas vezes, o quanto me ama.

Muitos pensam que você se foi pra sempre. Não sabem eles o quanto você vive em cada partícula de oxigênio que enche o meu corpo de ar, em cada motivo que me faz abrir os olhos, pelas manhãs, e levantar da cama, em cada luta cotidiana por uma vida, um mundo melhor, em cada conquista e em cada queda, em cada aprendizado e nova forma de enxergar o mundo. Você vive dentro de mim. Você sou eu. Eu sou o que você construiu. Eu sou o que eles podem ver de você.

Muitos pensam que eu sou frágil por toda a quantidade de sofrimento que me abateu quando pensei que você se tinha ido. Não sabem eles que a maior de todas as forças que me faz equilibrar o pulso firme, na vida, com a meiguice, o requinte, a simpatia e a delicadeza está plantada no orgulho e na gratidão ao universo por ter sido escolhida para ser sua filha. Pai, sua existência me prova o quanto de amor me salva deste mundo, o quanto sou capaz de amar apesar da realidade que nos rodeia, o quanto de amor existe em mim. Você é o meu amor. Obrigada por existir. Parabéns.

Pai, são 10 anos sem você.

Paulista, 13 de dezembro de 2017

Eu era uma menina e dependia de você pra tudo. Ainda recém-chegada na maioridade, lembro que meu mundo girava em torno de você. Depois que você partiu, era como se eu não tivesse mais sonhos porque todos os sonhos partiram com você. Eu queria me formar pra te mostrar o diploma, eu queria me casar pra você entrar comigo na igreja de braços dados, eu queria ter boas condições financeiras pra te causar orgulho, pra poder te dar uma vida melhor. Você era (e é) o meu herói e eu dependia, completamente, da admiração, do cuidado e do amor que você me fornecia. Não pense que, ao décimo ano de tua partida, eu deixei de sentir falta de ouvir tua voz dizendo “filha, eu te amo, tá?”, “amôor, eu te amo, tá?”, papai tá indo, eu te amo”. Todos os dias, eu ouvia a pessoa que eu mais amava, no mundo, me dizer “eu te amo”. Por muitas e muitas vezes, me culpei pelas vezes em que sentia que era excessivo mas nunca, pai, duvidei da veracidade do seu amor. Era um amor em que eu podia confiar e me aninhar.

Depois de seis meses, criei coragem pra falar com você, pela primeira vez, depois que você me deixou. E foi escrevendo, como faço agora e passei a fazer pelos dez anos seguintes. Ao escrever, pude me encontrar em muitos pontos. Então, decidi, firmemente, que não te transformaria no motivo da minha morte mas na minha razão de viver. E fomos lá eu e todas as Claras que existem em mim te fazer presente em cada nova vivência, buscando a força nesse DNA que nos une, procurando continuar te proporcionando o sentimento de orgulho porque a tua filha não suportava (e nem suporta) a ideia de que teus olhos não pousam mais sobre ela. Eu te fiz e te faço vivo em todos os momentos em que sei que a tua presença é crucial. Não pense que ao décimo ano de tua partida tornou-se mais fácil não ter um pai presente em matéria.

E no imenso vazio que ficou não ver, não ouvir e não abraçar aquele amor e aquele suporte todo que não me faltava, eu procurei você em outras pessoas. Eu sofri um bocado. Eu pirei um bocado. Eu superei um bocado. Eu aprendi um bocado. Também, fui feliz mais um bocado. Recentemente, eu ouvi a Alexandra (Solnado) dizer, na internet, que “se o que te faz arder está do lado de fora, a vida vai ter que te tirar. Somente assim, poderás descobrir a tua lenha interior”. Por muito tempo, carreguei, dentro de mim, uma reflexão certa e rígida de que tua partida tinha um propósito e que eu o havia descoberto. Pensava que a partir da tua ausência, eu cresci forçadamente aprendendo um monte de coisas necessárias sobre como domar a mim mesma, como entender meus motivos, como enfrentar meus monstros, como alcançar meus objetivos. Mas a verdade é que eu demorei dez anos pra descobrir que é muito mais que isso, pai. Talvez, muito mais do que eu consiga escrever.

Você partiu e me obrigou a entender que o centro da minha vida não pode estar fora de mim, não pode morar em outra pessoa. Eu, simplesmente, não poderia deixar de entender que meu subconsciente queria substituir o insubstituível pra que aquela dor doesse menos. No entanto, muito mais honesta e muito mais assertiva estarei sendo eu comigo mesma se aceitar a dor, deixá-la doer e tentar seguir em frente, mesmo assim. Porque a vida tem beleza, apesar do sofrimento. E porque o sofrimento é meu, faz parte de quem eu sou, e somente eu posso arrumar uma forma de lidar com ele.

Eu me reinventei. Reinventei meus sonhos e sinto que estou prestes a me reinventar, novamente, às custas de muita coragem pra enrugar a pele da minha face e chorar, porque agora eu sei que tudo bem errar. E se nas decisões de antes me senti mais próxima de quem eu sou, agora eu quero estar plenamente centrada em mim. Eu entendi que não posso descuidar desse jardim interior, dessas cores do meu ser, desse mundo que me pertence. Não posso deixar de me dar tudo o que, um dia, desejei receber, principalmente, porque eu quero ser capaz de oferecer esses presentes silenciosos que trazem abundância e felicidade para a vida das pessoas. E, por mais cliché que seja dizer isso, como posso dar o que anda tão devastado? Eu entendi, que não posso ser negligente com tantas Claras interiores que precisam de mim. Eu preciso de mim. Eu preciso me abastecer de mim. Eu preciso me dar amor.

E escrevendo isso, penso na coragem e no medo de me expor. O medo tem sido uma constante. Ao pensar em medo, lembro de Flaira (Ferro) que, uma vez, escreveu: “mas se eu não tiver coragem pra enfrentar os meus defeitos, de que forma, de que jeito eu vou me curar de mim?”. Ao pensar num ano tão difícil com tantas provações, com tantos motivos pra jogar a toalha, onde toda mudança e todo crescimento, somente eu posso ver, penso na necessidade absurda e desnecessária de querer provar algo pra alguém que não seja eu mesma. Pai, eu quero que você saiba: minha oração pede pra que a minha segurança se apóie na minha capacidade de ser, completamente, quem eu sou em essência; minha oração pede respeito por todas as pessoas, sem julgamentos e com liberdade; minha oração pede pra que o amor seja verdadeiro e motivo de bem-estar; minha oração pede pela entrega dos medos que paralisam; minha oração pede movimento, luta e fé.

Eu estou comprometida com isso e te digo, pai: eu quero viver. Eu quero ter tempo de fazer mais momentos valerem a pena, quero os pés fincados na realidade presente e a cabeça projetando tudo o que eu for capaz de realizar. Quero ter a oportunidade de sentir as pernas tremerem mas, respirando fundo, escolher que elas vão caminhar. Eu te prometo que vou aprender porque eu sou tua filha. E porque você vive, pai. Você vive em mim.

Com amor e saudade,

Clara.