Em nome das grandes mulheres

Um apelo especial em nome de todas as mulheres de baixa estatura e voz suave: não somos frágeis. Não é agradável falar das recorrentes primeiras impressões dos outros, com suas expressões de dúvida, a respeito de a nós ser concedida determinada (ou qualquer) tarefa. Somos capazes. Aos motoristas de coletivos, por favor: temos vozes. Um botão (que funcione) uma vez apertado, aciona uma luz, diante dos senhores, acompanhado de uma sirene que significa: desembarque no próximo ponto de ônibus. Alguma dificuldade com interpretação de sinais ou seguimento de regras? Então, explique: por que “queima” os desembarques quando estamos sozinhas? E por que ouve as reivindicações de uma voz masculina e negligencia uma voz feminina?

Aos queridos desconhecidos aos quais seremos apresentadas: não somos crianças. É incrível (do verbo não se pode crer) que uma mulher se aprisione à ditadura do salto alto para ser ouvida. Gente, tamanho não é documento, já dizia minha avó. Nem atestado de ignorância, nem passe livre para o desrespeito, nem autorização para tratamento no diminutivo, nem prova de doçura excessiva. Já viu uma mulher com M maiúsculo de um metro e cinquenta de altura, inteligente e de personalidade forte? Creia: elas existem. Aos queridos e inseguros colegas de trabalho: não somos bestas. Você pode ter um pênis e achar que isso é motivo suficiente para que seu contracheque venha mais alto. Você pode ter mais testosterona e achar que isso é motivo suficiente para julgamentos infundados. Você pode ter pelos torácicos e achar que isso é motivo suficiente para nos passar a perna mas acredite: nem mesmo nós, que por meio de nossas vaginas somos templo da geração da vida humana, medimos nossa capacidade por hormônios ou órgãos sexuais. Cresça.

E aos homens dotados de imaturidade, conservadorismo e certo grau de altura: não somos escravas. Você pode usar seu melhor desodorante, falar mansinho com voz de criança por puro fetiche, fazer o papel da vítima e achar que isso é suficiente para nos manipular aos seus desejos. Querido: temos quereres. Você pode sentir que, no auge de seus quase dois metros de altura, pode nos tratar com ar de superioridade e eu te digo: grande merda. É preciso que um homem tenha qualidades e atitudes que, provavelmente, você desconhece para merecer uma mulher de verdade. Sair pela tangente e te deixar com cara de tacho é a nossa especialidade.

Minhas impressões sobre Sense8

Na primeira vez em que ouvi falar de Sense8, eu estava assistindo ao canal da Jout Jout Prazer quando me deparei com um vídeo dela tentando explicar a série. Durante a ocasião, Jout Jout mostrou vários comentários e mensagens recebidas de fãs pedindo para que ela falasse a respeito. Lembro que a youtuber se saiu muito bem em sua explicação, o que me deixou curiosa para conhecer o produto.

Na época, eu não tinha assinatura com a Netflix e, sim, eu não deveria ter feito aquilo mas assisti a primeira temporada em um site da internet que disponibilizava os doze episódios (sorry!). Não espere que eu vá te dar detalhes técnicos ou analisar a linha de atuação ou a trilha sonora da série. Neste espaço, aqui, eu quero poder expor o que me toca, o que me chama a atenção, o que eu acho interessante porque tenho uma trajetória de não conseguir me envolver, facilmente, com as coisas que assisto. Contudo, Sense8 é, também, uma exceção a esta regra. Lembro que me apaixonei. Segui página em rede social, li um monte de matérias sobre bastidores, me dei conta da legião de fãs que o produto já tinha (e eu passava a ser um deles!). Lembro da felicidade que senti ao receber a notícia de estreia da segunda temporada, justamente porque, agora, eu tinha Netflix (kkkkk).

Sense8 é uma quebra de paradigmas e crenças. Sabe aquilo que a gente acredita desde quando nasceu? Sabe aquilo que a gente nunca buscou mas já estava lá quando chegamos? Sense8 destrói tudo isso através de uma trama bem feita, um trabalho minucioso de continuidade, movimentos de câmera, imagens, ângulos, cenários, trabalho com a luz, extremamente, bem feitos mas, principalmente (principalmente!), por conseguir nos fazer envolver com os personagens e torcer para que eles fiquem bem.

Não dá para explicar o enredo para quem nunca assistiu. Eu só sei que nunca aconteceu de eu me conformar em assistir um episódio e ir fazer outras coisas. Assistia até cansar, fazia minhas refeições em frente à tela, nem tomava banho pra começo de conversa. Ao final de cada episódio, com seus cerca de cinquenta minutos, estava lá eu ofegante, me perguntando se eu estava entendendo, retomando a história, mentalmente, ou, como diria a Jout Jout, sem saber como existir!

Sense8 fala de uma outra espécie de ser humano. Fico pensando que é mais fácil explicar a aceitação pelas diferenças e a extinção do preconceito quando se fala de uma outra espécie. Trata-se de união, grupos que se veem, se sentem, se conectam independente da distância. Penso que também pode falar, metaforicamente, dos vários eus existentes dentro de uma pessoa que, em diferentes momentos da vida, vai buscar, dentro de si, uma atitude mais assertiva. Fala de relações e do quanto elas dizem sobre nós, o tanto de nós que encontramos no outro e vice versa. Somos capazes do que quisermos se acreditarmos. Sense8 fala de uma luta antiga que pleiteia a união livre daqueles que se amam. Fala de tolerância, de respeito, de convivência.

Não é difícil se envolver e se apaixonar por aqueles oito protagonistas, cada um com sua história, seus costumes, seu tipo físico, sua cultura, sua língua. Não é difícil querer que, surpreendentemente, na hora do perigo, alguém tome conta do nosso corpo e resolva tudo pra nós. Não é difícil entender que dentro de nós pode estar tudo o que precisamos. Não é difícil entender que, às vezes, nosso pior inimigo mora dentro da nossa cabeça.