Mas acontece que você é forte

Clara, somente eu sei, com exatidão, as dificuldades pelas quais estás passando. Reconheço e respeito a tua luta por se manter bem. Apesar de um pouco perdida, tens certeza de que o caminho de volta, o caminho de ida, o caminho de saída acontece de dentro para fora. Estás tentando se encontrar e eu estou do teu lado. Percebo que existe uma luta para que tudo não seja tão racional. O mundo é acelerado e racional. A racionalidade, às vezes, nos ajuda a fugir dos nossos sentimentos. Sentimento nem sempre tem explicação.

A gente não escolhe a hora em que vai sentir, Clara. A gente sente e pronto. A gente não sabe se vai se machucar. A gente arrisca e pronto. Eu sei, você não gosta que eu fale assim, você tem consciência sobre o que está acontecendo, mas não sabe onde girar a chave. Por mais uma vez, você sente que está mecanizando todo e qualquer movimento com medo de sofrer. Você quer fazer diferente, você quer aprender a se proteger das dores do mundo, você quer ser seu próprio suporte. Sem perceber, na verdade, você está se preparando para uma nova dor (e não vivendo de verdade). Já doeu tanto e por tantas vezes, inesperadamente, que você tem medo de que doa de novo. Você quer criar resistência, você quer ser madura e forte.

Mas, Clara, és forte. Uma das pessoas mais fortes que eu conheço. Resistente à dor e corajosa o suficiente para pedir ajuda e para encarar a dor e os próprios defeitos de frente, a fim de consertá-los. Não posso deixar que carregues, consigo, um ideal de perfeição, por mais forte que isso seja, em ti, a ponto de não enxergares. De tanto mecanizarmos nossas vivências a fim de ficar bem, podemos acabar por não sentir o que, realmente, importa. Então, te perdoes… Planta um pouquinho de um lado e deixa a vida fluir do outro. Receba o que vier e enfrente como puder. Aceite-se. Está tudo bem e tudo bem seja lá o que acontecer.

Encontrarás o equilíbrio, Clara.

Do eu para o ego.

Volta livre escrita minha

Volta, livre, escrita minha
Venha do fundo das emoções
Venha das correntes quebradas
Das palavras sufocadas
E da dor daquelas prisões

Volta, livre, escrita minha
Vem, traduz a minha dor
Toca o âmago do meu pranto
E liberta com acalanto
Essa falta de dizer o que for

Volta, livre, escrita minha
E me ajuda a pôr pra fora
Cada gota dessas lágrimas
Guardadas com tanta demora

Volta, livre, minha escrita
Pode usar o que quiser
Todo ai, tu, reticências
Gerúndio, oblíquo, sentença
A moda da vez com boné

Venha, livre, escrita minha
Teu grito, tua voz posso ouvir
Reencontre as mãos arrependidas
Da poetisa contida
Que não deixou de sentir

Vem cá, poesia minha
Me cura, sacode, levanta
Me ensine a não ser mais covarde
A tentar transformar em arte
A dor de qualquer lembrança