Ter um sonho todo azul

Quem tem um timbre de voz diferenciado e marcante deve ser grato pelo resto da vida e não deixar passar a chance de utilizar esse dom. Imagina alguém escutar a sua voz, independente do momento, ou de ruídos ocasionais, ou de qualquer melodia desconhecida, e reconhecer você. É sublime. É uma bênção. A voz é um instrumento poderoso capaz de transformar lugares, no interior do ser, inimagináveis. Tim Maia tinha esse dom. E lutou por ele com garra invejável. Ele se foi mas a voz dele continua, inegavelmente reconhecida, na mente das pessoas onde quer que ele seja ouvido. Sua obra é seu legado. Ele se foi e eu era criança mas ouvi Tim Maia minha vida inteira e ouço, ainda, porque adoro.

A música Azul da cor do mar, composição dele lançada em 1970, é uma de minhas prediletas. Ela fica num grupo especial de outras músicas que me ensinam a olhar para a vida de uma maneira mais reflexiva e sábia. Era dom, também, a maneira que ele tinha de falar sobre a vida e ele o aproveitou muito bem. Azul da cor do mar me leva a um lugar de resignação. Muitas vezes, confundi resignação com derrota. Nada disso: resignação é uma postura sábia de gente que não perde a esperança de que o futuro pode ser diferente sem perder, também, a aceitação sobre o momento presente. E aceitar, minha gente, é abraçar tudo o que, hoje, é, do jeito que é, sem tentar modificar forçando soluções que podem gerar novos problemas. Aceitar o presente é tomá-lo como um ponto de partida, é entender que, em tudo, existe uma oportunidade de sermos melhores.

Ao aceitar o presente podemos pretender o futuro e é assim que nossos sonhos se tornam reais: liberamos a carga de insatisfação ao aceitar e abrimos espaço para focar na realidade que queremos. Por isso, é importante sonhar. Nós somos o que sonhamos, somos seres puramente subjetivos, feitos de energia. Nós precisamos sonhar. Ao sonhar, estamos co-criando uma nova realidade para as nossas vidas.

Fiz um cover de Azul da cor do mar (a long time ago). Assistam a seguir =*

 

Esse tudo que cabe num só fuá

Clara, ainda lembro das vezes em que tua avó gritava contigo na tua infância: “olha, vai-te embora arrumar aquele teu fuá, lá no quarto!”, coisa que ela fala até hoje porque não consegue perceber que és uma mulher. Uma vez, João, teu primo segundo mais amado de, apenas, cinco anos de idade, presenciou um desses rompantes da senhorinha que, mais uma vez, como se o tempo não tivesse passado, respondeu da seguinte maneira ao ser questionada sobre o paradeiro de algum objeto pessoal que não estavas achando: “deve estar naquele teu fuá perto da cama”. Não esqueço dos olhinhos curiosos de João que, imediatamente, pergunta: “vovó, o que é fuá?”

Fuá é um estalo forte que tocou na tua cabeça ao ouvir as histórias de Marília pela boca de Marcela. Marcela dizia: “nem sei mais por onde andam minhas coisas de unhas. Marília pega e enfia naquele fuá dela. Ninguém acha”. Fuá!, tu pensaste. Uma palavra pequena e engraçada que o dicionário não soube traduzir. Imagine, seu Michaelis anda dizendo pela internet que fuá é um substantivo masculino que significa “conversa ou comentário maledicente; mexerico, intriga”. Pior, ele diz que fuá é uma palavra regionalizada que quer dizer “caspa, pó muito fino que se desprende da pele quando arranhada”. Não, seu Michaelis. Eu não aceito ler o senhor dizendo que fuá é um “aruá, uma acepção de acordo com a zoologia”. Sei nem o que é aruá, meu senhor! Muito menos faço ideia de que fuá é um adjetivo de dois gêneros que traduz uma “montaria manhosa e espantadiça; puava”. Ou um cabra “que é metido a valente, valentão”.

Fuá, no Nordeste, é bagunça, minha gente! Fuá é o emaranhado que Clara faz de seus livros em cima da cama. Faz até hoje, com muito prazer, porque não tem fuá mais gostoso, para ela, do que leituras e mais leituras tomando conta do espaço. O fuá de Clara só pode ficar melhor quando ela pega o violão e senta ao redor de seus livros e partituras. Ali, canta e toca. Fuá é essa mistura de falta de tempo com muita coisa pra fazer mais todas as coisas que gostaríamos de fazer mas a fisiologia traduzida em cansaço não permite.

Em tantas e tantas tentativas de se reorganizar, uma coisa eu sei, Clara: tu nunca deixaste de sonhar. Teu lado escritora adormeceu quando o jornalismo despertou em ti, mas guardaste as sementes dele bem guardadinhas, esperando a hora de germinar. Teu lado cultural jornalístico só aflorou com o contato frequente com o mundo da música. Quando os dois lados estavam maduros, foi de repente que percebeste que o Fuá de Clara estava ali, pronto, diante de ti. Anotações de sonhos adormecidos do diário se uniram a anotações de sonhos adormecidos de jornalismo. Eis que um fuá se fez misturando aquilo que és com a promessa do que virás a ser a partir desta experiência.

Eu, nunca te disse isso, Clara, mas… parabéns. Pequei muitas vezes, ainda peco sempre que não pego na tua mão para caminhar, sempre que não consolo a menina medrosa que há em ti, sempre que te julgo e te puno quando, na verdade, eu deveria ser a primeira a te estimular e encorajar. Eu nunca te disse isso, Clara, mas… você tem talento. Eu preciso te dizer isso porque sei que isso vai multiplicar tuas forças. O amor tudo multiplica. Você está aprendendo a se amar. Eu estou vendo, eu estou sentindo, eu estou sofrendo com você e eu prometo fazer meus esforços para, nunca, te abandonar sozinha, de novo. Eu sei que você precisa de mim assim como cada pessoa precisa de si mesma. Eu nunca te disse isso, Clara, mas você tem quantidade absurda de força. Não é feio ser guerreira, não é feio lutar, não é proibido sonhar.

Fuá de Clara, amanhã, completa um mês de existência. Vamos celebrar cada mesversário e aniversário deste blogue bebê que, no auge de seus trinta primeiros dias, com 11 publicações, tem 721 visualizações, 276 visitantes e 5 maravilhosos seguidores. Teve gente dos Estados Unidos, da Irlanda, de Portugal, do Canadá, do Reino Unido, da Eslováquia, da Argentina e do Uruguai dando uma olhada nos textinhos. Mas nenhum resultado numérico que provenha disso vai conseguir traduzir a satisfação e a emoção de estar vivendo um sonho. Essa coisa de escrever te é intrínseca e eu conheço o tempo que esperastes e o que tivestes de adaptar para chegar até este momento.

Clara, eu nunca te disse isso, mas eu tenho orgulho de você.

Do eu para o ego.