Uma observação injusta

Nada pra escrever quando tenho tempo de sobra. Tempo de escrever quando não sobra tempo para nada. Que sentido e que justiça possui a dinâmica da vida dos assalariados do século XXI estando entre fazer o que se gosta e morrer de fome; ou encher o prato e viver infeliz? Enquanto, deitada, brincava com a caneta perpassando-a entre os dedos, diante da folha de caderno vazia e o silêncio do quarto, era isso que eu pensava ao mesmo tempo que gostaria de escrever.

O ar quente do ventilador deixava o cômodo mais abafado e os vinte e oito graus que faziam, lá fora, só concordavam com a cabeça fervilhando em pensamentos. Tempo é ouro, é o que dizem. Deve ser porque tempo é produção, é criatividade, é força de trabalho. Tempo é aquilo que se deixa passar em nome da necessidade enquanto não se corre atrás do que, realmente, se deseja. O tempo é precioso demais para que seja desperdiçado com infelicidade.


Quanto tempo o tempo tem?

Recentemente, uma amiga me indicou um documentário, disponível na Netflix, de mesmo nome do título da resenha de hoje. Estávamos conversando sobre espiritualidade, energia e meditação quando ela me falou dele. Anotei o título na minha listinha para quando eu tivesse uma oportunidade de assistir, em meu tempo livre, e segui a vida. Mais tarde, estreei a categoria e tive vontade de compartilhar o primeiro texto com amigos próximos. Foi o que eu fiz. Aí, uma outra amiga me indicou esse mesmo filme me pedindo uma resenha dele. Pensei: não pode ser coincidência, não é mesmo? Preciso assistir. Foi o que eu fiz.

Quanto tempo o tempo tem é um documentário de Adriana L. Dutra e foi lançado em 2011 (contudo, continua bem atual). Como você deve saber (caso tenha lido minha última resenha), não me prenderei a detalhes técnicos. Apenas, elogiarei a belíssima locução da Adriana e a forma como ela costurou os assuntos dentro daquele tempo de uma hora e quinze minutos. Há uma arte coerente e bela de imagens urbanas, em ritmo acelerado, que marca a condução das abordagens, juntamente à voz da Adriana e a uma sonoplastia que torna tudo confortável. No filme, ela revela que passou um ano viajando e gravando entrevistas com diversos especialistas de diversos países. É divertido ver a quantidade de línguas a medida que as falas vão sendo costuradas: gente que fala italiano, inglês, francês, português. Gente que estudou Física, Neurociência, Psicologia, Budismo, Jornalismo, dentre outras especialidades. Gente pra falar do tempo e das mudanças que têm interferido nele.

Eu comecei a assistir e, logo, lembrei do meu script. Você deve estar se perguntando: que script, querida? Está trabalhando em algum espetáculo ou programa de TV? Ainda não! (kkkkkk) Script é como minha antiga terapeuta chamava o meu manual diário de afazeres e produções. Desde adolescente até meses atrás, eu tinha essa prática e, após assistir Quanto tempo o tempo tem, tenho me questionado se não era uma maneira de querer controlar o tempo. Eu separava, nos mínimos detalhes, tempo para tudo: estudar, trabalhar, fazer exercícios físicos, descansar e tantas outras ideias de trabalhar e dar continuidade aos meus projetos pessoais. Era uma maneira de eu dizer para mim: se todos os dias você pegar um pouquinho em cada coisa que você deseja, você vai se sentir bem. Todas as vezes que cumpri o script, impecavelmente, de fato, eu sentia bem estar, contudo, essas vezes eram raras de acontecer. Eu não contava com o tempo do meu corpo, meu ritmo, meu cansaço, os imprevistos que estariam por vir. Era contraditório separar tempo para fazer tudo o que eu queria e gostava e, ao mesmo tempo, me sentir presa àquilo, entende? (Se não entender, tudo bem, porque a facilidade maior de assistir a esse documentário é a de aloprar! kkkkk Eu aloprei, lindamente, mas algumas passagens me tocaram. Vou continuar tentando passá-las).

Então, por que será que eu insisti tanto naquele modelo falido de script? Por ter sido muito organizada, perfeccionista, controladora? Talvez. Mas, há um dado novo nessa historinha que só passei a conhecer depois de Quanto tempo o tempo tem: a nova forma de a sociedade lidar com o tempo após o surgimento e o avanço das novas tecnologias. Há um especialista que diz algo muito interessante sobre isso, no filme. Ele menciona que é como se nós não pudéssemos desfrutar do tempo de outra forma que não fosse para produzir. Por isso, a sensação de “perder tempo” é constante. Essa discussão se entrelaçou com a de que, mesmo nas nossas horas vagas, estamos produzindo para os grandes empresários (quando geramos conteúdo para o Facebook, por exemplo). Tudo isso, de alguma forma, é proveniente do que chamamos de tempo de trabalho. Isso é dito lá, também. Na época da escravidão, os senhores detinham o poder sobre todo o tempo de seu escravo e o utilizavam como bem lhe conviesse. Até os tempos atuais, o que se vende para os chefes é o tempo de trabalho, de forma que o tempo é tratado como algo, extremamente, valioso.

O início do documentário é fascinante porque tem o poder de bugar a pessoa, completamente kkkkk. Eles dizem que o momento presente é tudo o que há. Eu escrevo esta frase, por exemplo, agora mas, no momento em que eu a finalizar, ela fará parte do passado. Pronto. Então, apesar de revivermos emoções do passado através das lembranças ou projetarmos o futuro, tudo o que somos mora no presente e isso se repete a cada segundo. Louco, não? Mas faz sentido.

Antes do advento da internet, o espaço era considerado e a forma de vida era diferente. Havia tempo para a chegada das informações e mensagens, tempo para trabalhar e descansar, tempo para se formar, produzir e se aposentar. As novas tecnologias bagunçaram esse sistema a começar pela comunicação que elimina, completamente, toda e qualquer distância.

Há papo para muitas outras abordagens de Quanto tempo o tempo tem, eu vou te dizer só mais um termo de discussão lá contido para que você sinta vontade de viajar, também: transhumanismo. Pois, há estudos que analisam a possibilidade de não sermos mais finitos.

Eu finalizo minhas palavras concordando com uma passagem interessantíssima do filme. Ela diz que quando fechamos os olhos e experimentamos, apenas respirar, é como viver minutos na eternidade. Nosso corpo tem um tempo, e nossa mente e nossa forma de produzir e viver. Não esqueçamos de que nós somos detentores do poder de regular o nosso tempo.

A procura de novos horizontes

Das certezas do que quer, ela sabe. Sabe, também, que nenhum sonho nasce, assim, com a facilidade de se realizar, mas luta. Todo dia, luta um pouquinho mais, investe um pouquinho mais, estuda um pouquinho mais. Seu sonho é, um dia, poder se sustentar fazendo o que gosta.

Quando aquele trabalho com carga horária de oito horas diárias apareceu, não sabia se ficava feliz ou triste. Por um lado feliz pois, apesar de estar trabalhando para os outros, estaria aprendendo sobre coisas que precisaria para os seus projetos. Por outro lado, que tempo haveria para investir nesses tais projetos que são a fonte de sua essência e felicidade? Mesmo com tantas renúncias ficou com a primeira opção. Afinal, que escolha tem o brasileiro pobre do século XXI se não fazer um jogo de cintura brabo se quiser sobreviver e se realizar, ao mesmo tempo? Por vezes, pensava nessa injustiça: “minhas qualidades, capacidades, meu intelecto estão a serviço de enriquecer o outro que não paga metade do que mereço por renunciar à minha felicidade. Tudo isso em nome da sobrevivência…”

O plano não saiu bem como esperava. Havia algo de errado naquele ambiente. Era tudo muito pesado, a começar pela chefia. O primeiro sinal de que não aprenderia o que gostaria deu-se, logo, nos primeiros dias: foi deslocada de sua função originária de sua real profissão. Aceitou isso na ilusão de que teria acesso a outras ferramentas. Mas não teve. Deu de cara com uma chefia, extremamente, centralizadora que guarda toda a intelectualidade dos projetos para si e delega tarefinhas de casa para os seus subordinados. Tudo isso mascarado de longas e milhares de reuniões gerais de equipe que serviam mais para atrasar os trabalhos em andamento do que, verdadeiramente, para resolver alguma coisa. Ela pescava as boas ideias de sua equipe mas, no fim, levava o crédito por todo o trabalho pois fazia questão de realizar todos os planejamentos. Não conseguia, realmente, delegar. Após sofrer, consideravelmente, com as atitudes daquela mulher, alguém a fez abrir os olhos e entender que o nome daquele tipo de atitude é insegurança.

Seus santos não bateram. É o tipo de falta de sintonia que não tem explicação. A doutrina espírita diria que é uma antipatia carregada de vidas passadas. Mas esforçou-se. Encontrou outros inseguros, no caminho. Esforçou-se. Precisou render-se a não pensar (logo ela que amava colocar as ideias para fora!). Limitou-se a fazer o que lhe era pedido. Foi ficando opaca, sem cor, sem vida. Ela nunca se colocou naquele tipo de pensamento onde havia separação entre trabalho e pessoa. Acreditava que trabalhar era uma parte de si, uma parte de quem ela era. Por isso, doía não poder exercer a si, não poder contribuir como sabia que poderia, contudo, se submeteu em nome da hierarquia.

Quis sair daquele ambiente, quis afastar-se da forma como estava sendo vista e reduzida. Tentou. Procurou. Nada. Após alguns meses, houve uma reconfiguração na equipe e uma troca de chefia. Dentro da reconfiguração, assumiu o posto que sabia mexer, aquele para o qual havia estudado. O trabalho fluiu. Mostrou resultados. Todos viram e reconheceram.

Um belo dia, recebeu uma proposta:
– Você ganhou uma promoção. Mas precisamos lhe demitir deste contrato para fazer outro. Não se preocupe. Essa prática é recorrente, aqui.

Que felicidade! Fez planos, criou expectativas com o aumento, colocou algumas coisas na ponta do lápis. Enfim, reconhecimento. Mas, quando veio a demissão, algo se demonstrou errado dentro do seu coração. Foi ficando com medo. Foi achando estranha a ausência de detalhes na comunicação, a ausência de documentos que pudessem comprovar uma proposta realizada, apenas, verbalmente. Contudo, nada poderia, de fato, fazer. Conversar? Conversou! Incertezas começaram a apontar no novo discurso.
– Está tudo preparado. Dependemos de uma autorização. Fique no aguardo.

A demissão aconteceu. Todo aquele processo de rescisão, exame demissional, FGTS, documentação, seguro desemprego foi apagando o seu brilho. Buscou informação? Buscou! Recebeu as mesmas respostas vagas de sempre. Entendeu que a tal autorização não viria, a tal promoção não aconteceria. Sabia do seu valor mas não deixava de doer a tentativa de lhe reduzirem a nada, a alguém que não teria direito, ao menos, à verdade. Foi enganada. Foi seguindo adiante, na luta por refazer sua vida financeira.

Semanas após, recebeu a intervenção de uma pessoa amiga (uma, graças a Deus, dentre tantas amizades que fez mas que não se pronunciaram). Soube, por debaixo dos panos, que a antiga chefia (aquela que o santo não batia) havia retornado, ao setor, com gostinho de vingança. Fez sua caveira, disse que não produzia, que não trabalhava. “Mas, como, meu Deus? Todos viram os resultados! Está tudo lá, nos relatórios!”, pensou. Mas ninguém lhe defendeu. Ninguém.

Foi sofrendo que entendeu o ponto de vista de algumas pessoas que conhecia há muito tempo mas, na verdade, mesmo, conhecia era nada. O mais importante, para alguns perfis, não é executar um trabalho bom e ético. Às vezes, o mais importante é ter influência. Chorou. Sofreu. Por dentro, tudo se revirou. Mas continuou a procurar novos clientes e horizontes.

Mais leve que o ar, tão doce de olhar

Agora que fora esquecida, havia a raiva latente. Essa coisa que dava nó na garganta e às vezes queria escorrer pelos olhos, por falta de outra via de escape. A raiva precisava ser escoada por algum lugar, para não consumi-la. Havia a raiva e havia também um pouco de dor, essa coisa que diagnostica que algo como o amor quer pairar por dentro do peito. Por sorte, a dor era pouca. Não houve tempo para tanto drama assim. Mas o amor, não fosse justamente pela falta de tempo e espaço, teria nascido em meio àquela história já findada.

É importante lembrar que a brevidade dos fatos nada podia contra a intensidade das lembranças que lhe foram plantadas na memória. Uma vez jogada a semente e ela germinada, não importa mais o tempo que se levou cavando a terra e depositando-a lá. Ela apenas cumpre seu destino e se abre para que algo brote. Algo prematuro demais para ser nomeado já havia nascido ali. E mesmo prematura, a mudinha de não-se-sabe-o-quê era cheia de vontades: a maior delas era querer ser amor. Mas esse desejo, contido na folha mais bonita do seu caule mirradinho, lhe fora podado logo cedo. Quem mandou germinar assim de pronto? E ainda mais – planta mais besta! -, quem mandou inventar de querer ser amor?

Mas era uma lembrança que ainda afagava os olhos. Foram as pequenas flores que iam surgindo por entre as folhas – se abrindo sempre apesar de – que refrearam a raiva que existia. Sob controle, a raiva foi virando melancolia. Era triste ver uma planta tão pequena, mas ousada ao se encher de flores-promessa, ter de parar ali. Não haveria frutos. Nem novos galhos. Tinha as flores por lembrança e só.

E então, mais calma, depois de uma tarde inteira se revirando por não poder mais adiar o reconhecimento do fim, abraçou aquela coisa pequena, frágil e tão bonita que tinha plantada em sua mente. Fosse o que fosse, estagnada como fosse, era sua e de verdade. Não seria justo deixar de desfrutar do perfume e da beleza deixados, já que os frutos já lhe haviam sido negados. Com o tempo, os pequenos espinhos não mais a machucariam quando quisesse abraçar aquelas flores. O tempo sempre dá leveza às memórias. Agora que fora esquecida, ela não via a hora de poder lembrar em paz.

Natércia-dantas

Repost do blogue Espelho, Espelho Meu da jornalista, cantora e estudante de Psicologia Natércia Dantas.

*Você, também, pode sugerir o seu e compartilhar na aba Contato, aqui, do Fuá de Clara. Leremos com carinho a sua sugestão que, sendo aprovada, poderá ser publicada na categoria Trombeta, porque aqui a gente toca as trombetas pra você falar =)

Produtividade

Eu não vi o tempo passar, enquanto fazia minhas coisas. Eis o segredo da produtividade: ter envolvimento e prazer na existência, no movimento, nas atividades. Tenho a sensação de que, por mais que o tempo passe, continuarei a fazê-las, independente de seus resultados.

Daquilo que seja a vida

A gente luta durante anos, dia após dia, para ser alguém melhor. Passa um tempo desvendando o que há por trás de nossos sentimentos mais fortes para poder se entender, depois um pouco mais de tempo para poder se aceitar, depois mais tempo, ainda, lutando contra nós mesmos, tentando matar padrões de pensamento e de comportamento que nos acostumamos a ter mas que não nos fazem melhores. A gente luta para se alimentar dos melhores pensamentos, sentimentos, situações e influências mas, basta uma queda, daquelas bem dadas, daquelas que a gente não espera, daquelas que nos desestruturam, que nos fazem sair de nós mesmos, para tudo voltar, em instantes. Tudo o que não gostaríamos de ser, ainda, está ali ativado pelas nossas fraquezas. Quem sabe, viver feliz seja uma eterna luta contra nós mesmos a fim de manter uma paz que a gente não pode perder.