A Disputa

De repente formou-se uma confusão incontrolável na porta do falecido.

Sebastião Miguel de Oliveira dos Santos legítimo pedreiro de profissão diferente dos meia-colheres encontrados amiúde bem casado com uma cabocla do pé da Serra da Mata Virgem da graça Margarida de tal a quem não faltavam os bons olhos e os desejos dos namoradores do arruado achara de sem aviso prévio mudar-se desta pra outra ou como no dizer-se enfático do populacho bater a caçoleta! Como se desconvém o inesperado dá-se com as maiores inconveniências no despreparo do entorno das pessoas pois fôra isso tudo verdade porquanto nem bem aguardara o final da madrugada sequer vislumbrando as fraldas da manhã do dia 8 de dezembro do ano de Nosso Senhor e Nossa Senhora de 1959.

– Miguel morreu!

A viúva estremeceu atônita ao lado de um corpo entesado imóvel esticado na cama e deu alarme pra vizinhança.

– Meu Miguelzinho acorda! Esbaforida em berros alardeou aos quatro ventos e com as mãos pros céus tomou o rumo da rua.

Por sorte ou por desdita os filhos não lhe haviam chegado e não foi por falta de trabalhos diários deixando-a ainda com o frescor da juventude em suas pernas torneadas e seios firmes mas de momento desgrenhada naquele alvoroço e decorrente em susto retido nos olhos disso nada se lhe evidenciava. A curiosidade da vizinhança fizera o resto propagando a notícia incluindo maledicências atribuindo aos desditosos excessos cometidos em destemperos na alcova.

Correram na cidade próxima a contratar os serviços funerários e foi aí onde nasceu o desencontro. De um lado parentes do pedreiro acorreram ao Caminho de Nós Todos e pelo outro um tio de Margarida pastor evangélico acertou com a Jesus Me Chama tendo ambas seguido para o lugar da desdita uma mais às pressas no diferente da outra com caixão velas castiçais além de flores para enfeitar o morto. Tudo no atender aos costumes.

Quando a Caminho de Nós Todos chegou à residência da viúva encontrou nos finalmente quase de saída a Jesus Me Chama cuja eficiência fora colocada à prova com o corpo já embalsamado empacotado em caixão azul com ornamentação prateada na sala principal da casa ladeado por quatro grandes castiçais onde as velas faziam tremular línguas de fogo com uma luminosidade embaçada e ainda por terminar os detalhes da ornamentação do finado penteando-se Sebastião com brilhantina em últimos retoques para seguir viagem derradeira com ares de decência.

Isso foi o suficiente para um bate boca desmesurado entre os papa-defuntos. A disputa custou as pernas quebradas de cinco cadeiras enquanto um castiçal entortou nas costas do proprietário da Funerária Caminho de Nós Todos.

Dos círios esparramados pelo chão apenas dois teimavam em queimar e espraiar a cera derretida pelo assoalho.

– Valha-me Deus! Gritava a viúva antevendo a possibilidade de rebentar-se pela sala caixão com o defunto dentro.

Quando o comissário de polícia chegou com um soldado raso de companhia para botar ordem no velório o estrago já estava feito.

Sebastião jazia em decúbito dorsal num recanto onde se via a urna funerária espedaçada e as flores espezinhadas espargindo-se pelo cenário tétrico. Por finalmente após o furdunço jamais presenciado naquele lugarejo a ordem fora restabelecida sob ameaça de todo mundo parar na delegacia. Foi santo remédio o vozeirão do homem da lei com seu bigode hirsuto pança avantajada batendo com o cassetete em altas pancadas na porta aos rugidos tão em voga repetindo a lei do mais brabo sempre ecoando sábias palavras:

– Comigo é na porrada! Quem levou bofete muchicões munhecada no pé d’ouvido sarrabulho esfrega rabo tapa olho rabo de arraia canelada cutucada ou entra num acordo ou o cancão vai piar! Remédio para doido é outro na porta (!) asseverou o legítimo representante do Direito e da Ordem abaixo de Deus. Quero ver o Atestado de Óbito! Gritou.

Não se tinha.

– Quem é o responsável pelo defunto? Sem contar com a pobre viúva!

– Quem contratou a funerária?

Foi de se chegarem Severino com o olho esquerdo roxo pois se metera na briga pela parte do pedreiro e o pastor Joaquim com a Bíblia debaixo do braço com a voz rouca de tanto implorar em nome de Deus para acabarem aquela contenda pois pagariam muito caro pelo desrespeito à imagem e semelhança do Senhor morto ali representado sem a ninguém ter ofendido.

— Foi a gente eu e ele num uníssono responderam a meia voz.

– Os dois cuidem de limpar a casa esbravejou Epaminondas comissário temido pelas sentenças truculentas mão pesada braço forte e trabuco. As duas funerárias me arregimentem um doutor para dar o veredito senão o enterro daqui não sai destemperou. A Caminho de Nós Todos pegue seu caixão novinho em folha encaixote o pedreiro com tudo de ter direito e nesse obedecer de seguir as ordens em quinze minutos retirados os cacos de uns bisquis e de um pinguim despencado de cima da geladeira tudo voltou ao dantes viúva chorando desconsolada duas velhas carpideiras encomendando o corpo e o povoado todo aglomerado pra ver o ocorrido e saber minudências do quiproquó.

O comissário de um lado e o soldado do outro na porta de entrada da casa disciplinavam o fluxo de curiosos apinhados no recinto e nesse momento Dona Zefinha fez um estardalhaço sem tamanho.

– O defunto mexeu a perna!

A casa por pouco não veio abaixo. Correram todos assombrados e levaram de um sopapo só Epaminondas e o soldado Palito e eles aos trancos e barrancos numa verdadeira enxurrada desceram a ladeira a se perder de vista desmoralizando a fama de valentões tanto apregoada.

Quando o médico chegou para examinar o cadáver Sebastião estava sentado no caixão em estado de choque e o ambiente vazio com Margarida sem entender nada enquanto o povão formado dentro e fora da residência se via ainda a correr alguns deles blasfemando como coisa do diabo.

– Pedreiro infame resmungava Jesuíno em disparada num misto de revolta e de espanto.

O doutor foi taxativo e sem meias palavras arrematou:

– Um ataque cataléptico! A pessoa vê e ouve tudo no seu redor e não reage paralisado. É um fato raro mas acontece.

Somente meia dúzia de meses depois tudo se acomodara e os dias entraram na rotina de sempre. No entanto Sebastião não conseguira esquecer Jesuíno compadre de fogueira já de muitos anos por ele no tumulto de sua quase morte ficar roçando pelo traseiro de Margarida num pra lá e pra cá sem vergonha consolando a viúva em fazer de conta de ajudar.

Pelo sabido até hoje as duas empresas funerárias procuram esquecer esse episódio sem o menor sucesso a Caminho de Nós Todos mudou até de nome agora é Deus nos Salve.

Este conto foi escrito pelo editor chefe do jornal Correio do Agreste, Fernando Farias Guerra. Você, também, pode sugerir o seu e compartilhar na aba Contato, aqui, do Fuá de Clara. Leremos com carinho a sua sugestão que, sendo aprovada, poderá ser publicada na categoria Trombeta, porque aqui a gente toca as trombetas pra você falar =)

Encare a rejeição com naturalidade

Ninguém gosta de ser rejeitado, mas qual é o problema? A rejeição deveria ser encarada como algo tão natural quanto comer arroz com feijão, na segunda, e bife acebolado, na terça. Pelo amor de nosso Senhor Jesus Cristo, quem se conhece e se ama, quem sabe o seu valor, não pode esmorecer diante de uma rejeição, não pode deixar de acreditar no amor por causa de uma rejeição, nem pode se desvalorizar nem sofrer, infinitamente, por causa de uma rejeição.

Presta a atenção, gente: rejeição é coisa natural da vida. Neste mundo de afinidades e competências, estamos propícios a encontros e desencontros. Os desencontros NÃO SÃO o fim do mundo. São, só, desencontros. Não morram de tristeza por isso. Fiquem tristes, no máximo. Depois, de posse da sua essência e dos seus ideais, continue lutando pelo que faz sentido pra você. Pronto.

As pessoas têm o direito de serem diferentes e pensarem diferente, de terem gostos diferentes. Ninguém precisa brigar ou humilhar por causa disso. Tem gente que faz isso, mas aí a gente pede a Deus por esses seres humanos tão carentes de evolução como nós. O fato de uma ou, até, mais pessoas, em um universo de sete bilhões, não te querer quer dizer, absolutamente, nada. Não diminui o seu potencial nem faz esvair a tua essência. Você, com sua maturidade, tenha respeito por esses seres e siga em frente, sem tristeza ou raiva disso. Siga vazio ou pleno de amor por si mesmo e vá fazer o seu plantio. Isso é normal. Nem bom nem ruim. Normal. Não diminui e nem aumenta. Normal. Não vamos mudar para provar que aquela pessoa está enganada a nosso respeito se a única motivação existente para esta mudança for uma rejeição. Isso é normal. Não vamos detonar a pessoa e rotulá-la de todos os adjetivos denegridores e obscenos do mundo por causa de uma rejeição. Pelo amor de Deus, isso é normal. Ou você, também, nunca rejeitou alguém na sua vida?

Por trás de cada erro

Mexeu com teus sentimentos. Não ficaste bem. Sentiste culpa por mexer na ferida dela. Descobriste que a distância que criaste não é, apenas, um ato de defesa teu. É, também, uma dificuldade de olhar para a dor dela porque dói em ti, também. Ela não quer se ajudar. Talvez por preconceito, medo, falta de recursos. Mas tu querias poder ajudá-la de alguma forma sem te machucares. Todo esse movimento é doloroso. A maior dor da vida dela é a maior dor da tua vida. O sonho que ela, ainda, não realizou é te ver em felicidades e realizações. Tu, sempre, soubeste que, por trás de cada erro dela, existia a vontade e a intenção de acertar. O modus operandi é que é errado. Não é fácil, para ti, vê-la sofrendo e adoecendo, por tantos anos, sem poder ajudar. Um dos teus objetivos é oferecer conforto para a saúde dela. Por muito tempo, atribuíste, aos traumas que sofreste com ela, as tuas dificuldades. Mas, pode ser que, a partir de agora, isso mude. Talvez, a partir de agora, enxergues teus medos de forma diferente.

Em nome das grandes mulheres

Um apelo especial em nome de todas as mulheres de baixa estatura e voz suave: não somos frágeis. Não é agradável falar das recorrentes primeiras impressões dos outros, com suas expressões de dúvida, a respeito de a nós ser concedida determinada (ou qualquer) tarefa. Somos capazes. Aos motoristas de coletivos, por favor: temos vozes. Um botão (que funcione) uma vez apertado, aciona uma luz, diante dos senhores, acompanhado de uma sirene que significa: desembarque no próximo ponto de ônibus. Alguma dificuldade com interpretação de sinais ou seguimento de regras? Então, explique: por que “queima” os desembarques quando estamos sozinhas? E por que ouve as reivindicações de uma voz masculina e negligencia uma voz feminina?

Aos queridos desconhecidos aos quais seremos apresentadas: não somos crianças. É incrível (do verbo não se pode crer) que uma mulher se aprisione à ditadura do salto alto para ser ouvida. Gente, tamanho não é documento, já dizia minha avó. Nem atestado de ignorância, nem passe livre para o desrespeito, nem autorização para tratamento no diminutivo, nem prova de doçura excessiva. Já viu uma mulher com M maiúsculo de um metro e cinquenta de altura, inteligente e de personalidade forte? Creia: elas existem. Aos queridos e inseguros colegas de trabalho: não somos bestas. Você pode ter um pênis e achar que isso é motivo suficiente para que seu contracheque venha mais alto. Você pode ter mais testosterona e achar que isso é motivo suficiente para julgamentos infundados. Você pode ter pelos torácicos e achar que isso é motivo suficiente para nos passar a perna mas acredite: nem mesmo nós, que por meio de nossas vaginas somos templo da geração da vida humana, medimos nossa capacidade por hormônios ou órgãos sexuais. Cresça.

E aos homens dotados de imaturidade, conservadorismo e certo grau de altura: não somos escravas. Você pode usar seu melhor desodorante, falar mansinho com voz de criança por puro fetiche, fazer o papel da vítima e achar que isso é suficiente para nos manipular aos seus desejos. Querido: temos quereres. Você pode sentir que, no auge de seus quase dois metros de altura, pode nos tratar com ar de superioridade e eu te digo: grande merda. É preciso que um homem tenha qualidades e atitudes que, provavelmente, você desconhece para merecer uma mulher de verdade. Sair pela tangente e te deixar com cara de tacho é a nossa especialidade.